À primeira vista, é possível perceber que A Cura” (A Cure for Wellness, Regency Enterprises e outros, 2016) procura seguir o estilo daqueles filmes de terror psicológico típicos dos anos 1960/70, daquela fornada que metia muito mais medo que exemplares que oferecem logo de cara o “monstro”. Competente na arte de causar sustos na plateia – e principalmente inquietude, ingrediente máximo desse tipo de horror –, o diretor Gore Verbinski (“O Chamado”, “Piratas do Caribe”) fez o dever de casa e bebeu da fonte de O bebê de Rosemary“, O Inquilino“, “Os inocentes“, “Mulheres Perfeitas e Sentinela dos Malditos.

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“A Cura”: longa-metragem que entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira (16/2) é pleno de clichês que funcionam, a maioria retirada de produções de terror psicológico dos anos 1960/70 (Foto: Divulgação)

Confira o trailer oficial abaixo (Divulgação): 

Na narrativa, o jovem, ambicioso e voraz executivo novaiorquino Lockhart (Dane DeHaan, de “O Espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro”), é convocado pelo board da corporação financeira para a qual trabalha a resgatar seu CEO autoenclausurado num sanatório encravado nos Alpes Suíços.

Disposto a tudo para dar cabo da tarefa, galgar postos e se safar de negociatas escusas que ameaçam entornar, o rapaz viaja à Europa cheio de determinação, mas acaba se deparando com uma trama que remete a experimentos nazistas, na tradição de “Frankenstein”.

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Veracidade cênica: filmagens de “A Cura” foram realizadas no Castelo de Hohenzollern, antiga sede da Casa Imperial de Hohenzollern, na Alemanha. Não foi aproveitado para as cenas o aspecto ensolarado da construção – que data do século 11 e foi a residência oficial da dinastia que dominou Prússia, Brandemburgo, Império Alemão e parte da Rússia até a Primeira Guerra Mundial (Foto: Reprodução)

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Hidromassagem do capeta em “A Cura”: milionários da terceira capricham no pilates aquático sem sequer desconfiar de que são parte de uma experiência macabra (Foto: Divulgação)

Neste castelo grand guignol convertido em clínica de repouso, endinheirados se encapsulam dispostos a liberar do corpitcho carcomido as toxinas causadas por uma existência descompassada, marcada pelo embate diário no universo corporativo e toda a sorte de sintomas derivados de uma vida desregrada que pode trazem tudo, exceto paz de espírito.

O principal ingrediente para a tal cura é uma água milagrosa que vem de uma fonte termal situada abaixo da instalação nas montanhas, e é evidente que aí tem. Sem descobrir se o que vê é verdade ou fruto de alucinação, o moço logo descobre que se meteu no clássico caminho sem volta.

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Turma entubada de “A Cura”: nas instalações quase monásticas do belo castelo transformado em sanatório, gente bem-nascida aproveita para purificar a alma através de processos que depuram o sangue. Só não rola inhame! (Foto: Divulgação)

Nesse aspecto, a simbologia da “água que limpa e depura o sangue” é prato cheio para vários jogos de semiologia, daqueles que o público se empenha em desvendar. Obviamente, o rapaz acaba sendo enredado numa trama que engloba o sádico diretor da instituição (Jason Isaacs, sempre bem), uma jovem com pele de cera e aspecto abobado (Mia Goth, de “Ninfomaníaca”) – única paciente que assim como ele, não é maracujá de gaveta – e uma das internas da clínica de repouso (Celia Imrie, de “O Exótico Hotel Marigold”, uma pérola).

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Ascensão e queda: mazelas do meio empresarial norte-americano são o ponto de partida para explicar a romaria de executivos ao castelo de “A Cura”, transformado numa espécie de clínica de desintoxicação (Foto: Divulgação)

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Relação capenga: mesmo com a perna quebrada, o executivo Lockhart (Dane de Haan) se deixa levar pela atração pela jovem perturbada Hannah (Mia Goth) em “A Cura” (Foto: Divulgação)

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Água cura tudo: no novo longa de Gore Verbinski, a significado de purificação da água ganha contornos contraditórios, levando a crer que nem sempre aquilo que se imagina é de fato o que acontece (Foto: Divulgação)

Se veteranos como Isaacs e Imrie se encarregam de dar dignidade interpretativa ao filme, Mia Goth se revela uma criatura que flana entre o macabro e a ingenuidade, o que pode ser assustador. Fica evidente a intenção de fazê-la parecer a Sissy Spacek de Carrie, a estranha“; comparação inevitável na cena que dá partida ao ápice do longa.

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Rala e rola elétrico em “A Cura”: a vampiresca Hannah (Mia Goth) se entrega seu ritual de beleza na companhia de enguias (Foto: Divulgação)

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Referências: o longa-metragem de Gore Verbinski se apoia em uma série de imagens de filmes setentistas que se tornaram icônicas: estão presentes ecos de cenas de tortura de “Laranja Mecânica” (1971) e “Maratona da Morte” (1976) (Foto: Divulgação)

A história em geral flui,  música de Benjamin Wallfisch mete medo, a fotografia escura cria a devida atmosfera de pavor, a produção de arte é primorosa e os cenários remetem aos consultórios nazistas de campo de concentração. DeHaan consegue imprimir credibilidade, ainda que tudo não passe de um bem costurado american kilt de clichês.

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Não é o AquaRio: ao longa da projeção de “A Cura”, o executivo Lockhart (Dane DeHaan) descobre que o tubarão-mangona Margarida – uma das estrelas do aquário carioca – pode não ser a única opção na hora de selecionar um elenco caprichado para ocupar as vitrines (Foto: Divulgação)

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O jovem Lockart (Dane DeHaan) se entrega ao relaxamento subaquático que emula o útero materno, com um pequeno porém: não supunha a companhia de uma turma de enguias (Foto: Divulgação)

Até aí, tudo vai bem, menos no final, quando a obviedade das últimas sequências descamba, comprometendo a primorosa teia de acontecimentos. Sim, dar cabo de uma narrativa pode ser até fácil, difícil é conseguir fechá-la com chave de ouro, coisa que não se vê no gênero desde a virada dos anos 2000, com O Sexto Sentido (1999) e Os Outros (2001)…

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