Num primeiro momento, A maldição da Casa Winchester” (Winchester, de Michael e Peter Spierig, Blacklab Entertainent, 2018) parece cumprir sua função: apresentar às novas gerações aquele genuíno terror gótico, do tipo que a produtora inglesa Hammer produzia entre os anos 1950 e 70 ou no mesmo período a American International Pictures, conhecida pelo ciclo de realizações capitaneadas por Roger Corman a partir de contos de Edgar Allan Poe, a maioria estrelada por Vincent Price, como A Casa de Usher (1960) e O Corvo (1963). A atmosfera claustrofóbica soturna também lembra muito a de outro clássico da época, o aterrorizante A casa da noite eterna (1973, Academy Pictures Corporation, 1973), inquietante delicinha capaz de embrulhar o estômago do público mais influenciável.

“A maldição da Casa Winchester”: tentativa de trazer o terror gótico da Hammer à Geração Z (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Essa proposta se mostra auspiciosa quando se leva em conta o objetivo atual de Hollywood de resgatar o cinema de gênero, atualizando o seu repertório sob os cânones da filmografia digital, com efeitos de ponta e movimentos pirotécnicos que permitam reproduzir com apuro visual aquilo que antes era impossível.

Ataúde pleno de clichês: Jason Clarke é o psiquiatra atormentado pelo passado que é convocado pela matricarca Sarah Winchester para atestar sua sanidade em sua erma mansão vitoriana (Foto: Divulgação)

De princípio, esta produção de cunho sobrenatural se mostra honesta, ao abdicar de fantasmas criados por computação para investir em maquiagem, como nos velhos tempos, guardando o grosso da parafernália de CGI para a vedete maior nesse tipo de narrativa: a própria casa mal-assobrada, praticamente um personagem. Somam-se à assustadora mansão vitoriana em estilo Queen Anne toda a sorte de penumbras típicas de um terror grand guignol, com jogo de sombras que causa arrepio mesmo com o roteiro previsível.

Com 80 quartos, 600 portas distribuídas em 7 andares construídos, dos quais hoje restara quatro, e curiosidades coo a escada que termina no teto, a Winchester House foi edificada por sua proprietária Sarah entre 1884 e sua morte e 1922. No filme que revela são maldição, ela é meticulosamente recriada (Foto: Divulgação)

Ainda hoje, a mansão Winchester recebe curiosos do mundo inteiro afim de conferir in loco as tenebrosas histórias sobre sua a fama de porta de entrada para o além. Após o terremoto de 1906, a casa perdeu rês dos sete andares construídos desordenadamente por sua dona (Foto: Reprodução)

A imagem aérea revela a monumentalidade da construção que é pano de fundo para “A maldição da Casa Winchester” e  que foi sendo posa ininterruptamente de pé por sua proprietária entre o final do século 19 e os anos 1920 (Foto: Reprodução)

Apesar do lugar-comum e até a metade do longa-metragem, a dupla de irmãos diretores acerta reciclando embolorados clichês de horror que, se não pretendem ser originais, funcionam na afimação do gênero, fazendo o público se distanciar daquele “terror-chavão de serial killer” usado hoje à exaustão, de psicopatas bonecos ou em carne e osso, Jigsaws, Jasons, Freddies Kruggers, Chuckies e Annabelles tão batidos atualmente. É como se um je-setter dos anos 1970 dissesse: “Olha, não é legal esquiar em Aspen; isso é nouveau-riche, é batidão. Bora para Gstaad, nos Alpes Suíço, que é mais classudo…”

Tipo Damien ou “O Exorcista”: efeitos de maquiagem caprichados, sem firulas gráficas, comparecem ao longo da narrativa de “A maldição da Casa Winchester”  para incrementar a atmosfera de produção dos anos 1960/70 (Foto: Divulgação)

Pois bem, o problema vem depois: os diretores não são nenhum Roman Polanski, capaz de fazer o diabo com pouco ao apelar como ninguém para um terror psicológico de responsa, seja o argumento sobrenatural ou não. Depois de apresentar a casa da família de fabricantes de armas Winchester, cujos rifles garantiram para os Yankees a Guerra da Secessão – aliás, a edificação verdadeira está até hoje aí, em San José, nos arredores de Los Angeles –, eles não sabem mais como impressionar o público, demonstrando desistir do material que têm à mão para ceder a um roteiro burocrático. Pior, tentam explicar o que acontece na tela como fazem os réus quando são pegos com a boca na botija, dando bandeira de que no fundo sabem que estão vacilando.

Tida como excêntrica na vida real, a verdadeira Sarah Winchester acreditava que sua residência era a porta de entrada de almas amarguradas vítimas de execuções cujo assassinato contou com armas produzidas na fábrica da família (Foto: Reprodução)

No longa-metragem que procura elucidar o mistério da mansão Winchester, a viúva e matriarca Sarah ganha as feições de Helen Mirren, Oscar de ‘Melhor Atriz’ em 2007 por “A Rainha” (Foto: Divulgação)

Possivelmente, a falta de expediente para segurar o pique acabou contaminando o elenco, que se revela igualmente blasê. No topo da carne seca como a miliardária viúva dos Winchester , às voltas com o amaldiçoado legado de quem tem culpa no cartório por fabricar e negociar armas, a oscarizada Helen Mirren prometia bater um bolão longe de sua zona de conforto, mas acaba deixando transparecer que até uma grande dama pode se tornar uma canastrona senão tiver um estímulo.

Lego macabro: reza a lenda que Sarah Winchester (Helen Mirren) psicografava os ambientes nos quais as vítimas das armas produzidas em sua fábrica haviam morrido, que eram em seguida copiados por uma frenética equipe de obras fixa e reproduzidos dentro da mansão para poderem aprisionar ou receber essas almas. As construções era constantes (Foto: Divulgação)

Sarah executava fielmente os projetos recebidos nas epifanias metafísicas, alguns dignos dos labirintos visuais do ilustrador Escher (Foto: Divulgação)

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