Estreia hoje nos cinemas À pele de Vênus” (La Vénus a la fourrure, 2013), longa de Roman Polanski a partir do sucesso da Broadway do dramaturgo norte-americano David Ives, que ganhou adaptação nos palcos cariocas em 2013, sob a batuta de Hector Babenco e na interpretação de Bárbara Paz e Pierre Baitelli (“Vênus em Visom”). Na narrativa, inteiramente passada dentro de um teatro e interpretada por apenas uma dupla de atores, o diretor Thomas Novacheck (Mathieu Amalric) procura uma atriz para interpretar Vanda, personagem do romance A Vênus de Peles“, obra-prima do austríaco Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895) que ajudou a forjar o termo masoquismo, cunhado dentro dos anais da psiquiatria. Neste romance, o protagonista atinge o gozo absoluto após levar aquela surra do amante de sua mulher. Coisa de tarado.

Foto: Divulgação

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No filme, considerando a trajetória de vida do polonês Polanski – sua infância passada nos guetos judeus de Cracóvia, a morte da mãe em campo de concentração, o assassinato da mulher Sharon Tate por maníacos religiosos, a acusação de ter estuprado uma menor de idade, blá-blá-blá – e seu manancial de carpintaria na hora de contar uma história de suspense, é natural que as coisas se embaralhem e o enredo acabe dando pano para manga. E, considerando o momento político-econômico atual vivido pelos brasileiros, nunca fez tanto sentido sentar-se em uma sala de exibição para assistir a um filme que lida com o sentimento de prazer na dor.

Seigner e Amalric: dupla segura a narrativa regada a sexo e poder com tintas psicanalíticas (Foto: Divulgação)

Seigner na coleira com Amalric na fita: dupla segura a narrativa regada a sexo & poder com tintas psicanalíticas (Foto: Divulgação)

Praticamente uma versão mais jovem do próprio diretor, Amalric parece ser usado por este para expurgar seus próprios demônios individuais. Ele dirige com a competência de sempre os dois atores em cena, ambos em atuações magistrais. Contracena com o protagonista a própria mulher e musa de Polanski, uma Emmanuelle Seigner com a idade começando a brotar pelos poros, no papel da homônima (e misteriosa) candidata de última hora ao papel de Vanda. Com a audição para o teste já terminada, a inconveniente moça no princípio desperta o asco do diretor, mas, à medida em que ela consegue convencê-lo a lhe dar uma chance e, ao ler o texto, transmuta-se na visão imaginada pelo encenador para a sádica mulher do livro, Novacheck começa a cair de quatro por ela. Literalmente.

Psicanálise em cena na adaptação cinematográfica de "A Pele de Vênus": recamier do cenário acaba virando divã dos personagens e do público (Foto: Divulgação)

Psicanálise em cena na adaptação cinematográfica de “A Pele de Vênus”: recamier do cenário acaba virando divã dos personagens e do público (Foto: Divulgação)

Claro que aos poucos vai se estabelecendo uma troca de poder que percorre a sedução e descamba na dobradinha submissão & perversão. É a velha questão de que, no fundo, o seduzido é o sedutor e vice-versa. Afinal, qual a raposa bem vivida que seria louca de negar que, pelos meandros do poder, não escoam esguichadas orgasmáticas? Daí, óbvio, a pele do título. Não importa se de raposa, visom, arminho ou chinchila, é possível se travestir sob o efeito de várias pelagens para conseguir dominar. E sentir a pulsão até mesmo em pele de cordeiro.

No sapatinho: relação sadomasoquista da narrativa traz questões intrínsecas do próprio Polanski (Foto: Divulgação)

No sapatinho: relação sadomasoquista da narrativa traz questões intrínsecas da persona do próprio Polanski (Foto: Divulgação)

Natural que, através do processo de jugo e humilhação que vai sendo exercido pelos dois, também se configura uma metáfora que discute a relação entre diretor de teatro e ator. Também é óbvio que, nas entrelinhas, Polanski, através de Amalric, fala muito da sua própria vida pessoal, estimulando a imaginação do público. Será que Seigner, trajada de lingerie rendada e escarpins-stiletto, costuma chicotear este diretor “papa-menininhas” em suas vidinhas reais? Hum…

De pertinho: Polanski dirige a dupla de atores em "A Pele de Vênus". Nesse caso, possivelmente a arte imita a vida (Foto: Divulgação)

De pertinho: Polanski dirige a dupla de atores em “A Pele de Vênus”. Nesse caso, é bem provável que a arte imite a vida (Foto: Divulgação)

Confira o trailer (Divulgação)

Emoldurando todas as questões apresentadas em cena, vale lembrar que, mesmo num produto cinematográfico de um cineasta talvez cansado – assim como essa, sua produção anterior, “Deus da Carnificina” (Carnage, 2011), foi outra adaptação de peça de teatro, com um elenco enxutíssimo e apenas um cenário –, trata-se de um Polanski e, na hora de criar suspense, o veterano prova que continua na mesma boa forma da época em que maestrou O bebê de Rosemary” (Rosemary’s Baby, 1968), A dança dos vampiros” (Dance of the Vampires, 1967), O inquilino” (Le locataire, 1976) e até mesmo os mais recentes O último portal” (The Ninth Gate, 1999) O escritor fantasma” (The Ghost Writer, 2010). Somente um diretor de talento – em tempos de busca frenética pela edição “The Flash” e de efeitos pirotécnicos de CGI – para conseguir prender a atenção da plateia em uma película com somente dois atores passada inteiramente no ambiente claustrofóbico de um teatro decadente, sem que o resultado se tornasse um ato de masoquismo.

A pele de Vênus filme final

Palco como nos palcos: cenário único de “A Pele de Vênus” se comporta nas telas como se fosse cenografia de peça de teatro (Foto: Divulgação)

Cartaz da adaptação brasileira da peça de David Ives, "Vênus em Visom"; poder e perversão são temas que se comunicam em qualquer idioma (Foto: Divulgação)

Cartaz da adaptação brasileira da peça de David Ives, “Vênus em Visom”: poder e perversão são temas que se comunicam em qualquer idioma (Foto: Divulgação)

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