Pouco importa o credo. Em tempos bicudos de fundamentalismo, polarização, azul para eles, rosa para elas e Damares fazendo de Brasília o Orlando Orfei, o que vale é ser feliz. Na vida pessoal, empresarial, na conta corrente PF e PJ, na saúde das empresas e nas araras. E até na missa, por que não? Algumas labels no SPFW trouxeram a religião como tônica. Válido, quando se trata de questionar. Ronaldo Fraga, por exemplo, esbarrou na questão no seu emaranhado de temas que considera urgentes. Vale lembrar que o tema da festa e expo do MetGala ano passado pôs a criatividade no centro do furacão de uma moda inspirada pelo catolicismo, indo do sacro ao profano – Heavenly Bodies: Fashion and the Catholic Imagination (Corpos Sagrados: Moda e A Imaginação Católica) –, ainda que o assunto, do ponto de vista proposto por Anna Wintour, fosse conceitualmente controverso.

Handred – SPFW N47  / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

A carioca Handred apelou para os orixás, Salvador, Rio Vermelho, festa para Iemanjá. Deu certo? Certíssimo, apesar de André Namitala continuar enveredando pelo mesmo caminho para os rapazes: caftãs, roupas largas, o quê de resort, camisões, alfaiataria com calças amplas, blablablá. É lindo? É. Usável? Super. Dá vontade de ter no armário? Yep. Mas, até quando variações de uma mesma linha reta vão se sustentar na passarela, desde os tempos que a grife surgiu se exibindo no Veste Rio? Identidade de marca? Sim. É inegável que o designer segue estoicamente sua visão de elegância tropical/marroquina/solar e que esta traz continuamente, ao seu ver, cânones. Mas, uma hora, pode acabar se esgotando, precisando se renovar, ampliar o repertório. Para não virar Paganini, variações de um mesmo tema, entende? Vamos ver. André ainda não tem trajeto suficiente, um percurso tão grande assim, para cristalizar tanto. Pode manter o DNA, romper a crisálida e dar umas voadinhas, saindo da zona de conforto daquilo que já sabe que funciona. Rachadura às vezes é bom.

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE / Divulgação)

Mas vamos lá: nesse pelourinho sincrético da Handred, ao som de Virginia Rodrigues (que voz, que presença!), os modelos avançaram na passarela apresentando aquilo que a brand faz com maestria. Destaques: as calças pijama lindas (sempre), referências 1970, padronagens gráficas, debruns contrastantes, jogos de listras.

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Na mira: as aplicações de búzios em galões e as estampinhas de caramujos. Para babalorixás fashionistas e fashionistas do babalaê. ÁS amou as montagens de vermelho com ocre. Lembrou aquelas misturas bacanudas dos anos 1970/80, em Paris, de Kenzo e Daniel Hechter.

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Nos pés, quatro modelos desenvolvidos pela grife com a Democrata, em napa e camurça, adornados pelos búzios da coleção. Eparrei! “Essa união da tradição com qualidade ao design cuidadoso nos trouxe um frescor”, afirma Kamila Cintra, diretora criativa da gigante do setor calçadista brasileiro em seu périplo para renovar a imagem.

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE / Divulgação)

Confira abaixo mais imagens do desfile da Handred na SPFW (Fotos:Divulgação): 

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Handred – SPFW N47 / Primavera Verão 2020 / (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Já a paulista Ratier ampliou o espectro quando se pensa em religião. Não é um tema insólito para uma marca que vem da cultura da noite, da pista, território no qual o profano por vezes tangencia o sacro como forma de protesto: Madonna, Siouxsie and the Banshees, Marilyn Manson e Jean Paul Gaultier estão aí para provar essa teoria. E a marca já trouxe para a catwalk vampiros, até Game of Thrones, o lobo de John Snow. Tudo a ver.

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Na passarela, freiras católicas, padres, rabinos, judeus de kipá. judeus ortodoxos, muculmanos, mulheres de chador, mulheres de burca, modelos segurando terços, turíbulos, incensários, etc provaram que só não convive com a diferença quem não quer. Por debaixo do styling, boas peças usáveis e duráveis.

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

Ratier – SPFW N47 /Primavera Verão 2020 (Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE / Divulgação)

 

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