Em cartaz nos cinemas, “Alfa(Alpha, Columbia Pictures e Studio 8, 2018) tem tudo para agradar ao público que curte fotos de bichinhos fofos na internet. Trata-se de uma produção que romanceia a formação da relação entre o homem e o cão na pré-história, a partir daquele que seria o primeiro lobo domesticado, o tal Alfa. Egresso do ótimo “Do inferno” (com Johnny Depp, 2001) e do apocalíptico  “O livro de Eli” (com Denzel Washington  e Gary Oldman, 2010), o diretor Albert Hughes dessa vez aposta nas belas imagens que reproduzem as paisagens inóspitas do Pleistoceno com a fotografia a cargo do vienense Martin Gschlacht, que fez seu dever de casa com louvor: sem apelar para o excesso de sombras – recurso comumente usado para tapear deficiências no orçamento, disfarçando o detalhamento da produção de arte e da computação gráfica –, o resultado visual deslumbra, mesmo quando as tomadas são noturnas. A impressão é que se está dentro de um daqueles dioramas do Museu de História Natural de Nova York, daqueles que ficaram imortalizados na cabeça do público que assistiu a trilogia “Uma noite no museu” (de Shawn  Levy, 2006) ou “Sem fôlego” (de Todd Haynes, 2017).

As sequências panorâmicas  de “Alfa” são o ponto atrativo dessa produção ambientada há 22.000 anos atrás (Foto: Divulgação)

Marley das cavernas: novo filme de Albert Hughes flerta com aqueles típicos de longas-metragens que apostam no apreço do público por narrativas que evocam a afetividade entre homem e animal de estimação (Foto: Divulgação)

A qualidade visual e o apelo dos filmes que retratam o afeto entre homem e bicho, entretanto, não são suficientes para dar cabo de um longa-metragem que, sabiamente curto (1h36m) para não saturar, tem questões não resolvidas, do roteiro previsível à maneira como a história é contada, muito convencional. A narrativa poderia enveredar pelo caminho de uma produção do History Channel, como “Vikings” (2013-), que une a dramaturgia com a apuro da pesquisa histórica típica dos documentários, mas o roteiro não ajuda e investe no piegas, com cara de filme adolescente da Disney dos anos 1970, quando o estúdio andava bem mal das pernas.

O que o lobo de “Alfa” esbanja em carisma falta ao ator principal Kodi Smit-McPhee, em transição da adolescência para maturidade e, por isso mesmo, em busca de expressões que emplaquem em cena nessa passagem de tempo. Não funciona mais o ar de criança frágil desprotegida que dava certo quando era astro-mirim, na época de produções como “A estrada” (2009) e “Deixe-me entrar” (2010) (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer legendado oficial de “Alfa” (Divulgação): 

Hughes poderia ter feito melhor seu dever de casa e, quem sabe, conferido com mais afinco “A guerra do fogo” (de Jean-Jacques Annaud, 1981, Oscar de ‘Melhor Maquiagem’, indicado ao Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ e vencedor do Globo de Ouro nessa categoria). Ao apelar para diálogos que evocam aqueles filmes com mascotes da virada dos 1980/90, no início da infantilização do processo de Hollywood, tipo “Beethoven: o magnífico” (1992), a produção perde a oportunidade de abordar na ficção um tema relevante na história da humanidade: sua evolução a partir da domesticação de outras espécies, cujo lobo eurasiano que deu origem ao cão doméstico foi o primeiro de uma lista de animais que colaboraram na lenta passagem do Homem de Cro-Magnon (homo sapiens) da pré-história à civilização.

Haute couture – “Alfa” apresenta na sua direção de arte uma licença poética: as roupas dos figurinos usados pelos atores revelam costuras, técnica que não existia na época. Marc Jacobs amaria! A figurinista Sharen Davis, que assina os looks de “Westworld” e concorreu duas vezes ao Oscar, uma delas por “Dreamgirls – em busca de um sonho”, já havia trabalhado com o diretor em “O Livro de Eli” e também é responsável por produções como “Django Livre” e “Sete homens e um destino” (Foto: Divulgação)

O diretor agora não tem Denzel, Oldman ou Johny Depp no elenco, mas o australiano Kodi-Smit McPhee (de “Deixe-me entrar“, 2010, “Planeta dos Macacos: o confronto“, 2014, e “X-Men: Apocalipse“, 2016), um daqueles garotos-prodígio do cinema americano que ficam esquisitões quando terminam a adolescência. Aqui ele está tão expressivo quanto um líquen da tundra siberiana, que cobria o solo naqueles tempos de degelo glacial. Para piorar, ao contrário do lobo que dá nome ao filme, o garoto está mais para macho-ômega e é difícil engolir que ele sobreviveria sozinho, com a perna machucada, num mundo repleto de perigos como tigres-de-dente-de-sabre…

Com 22 anos e 1,88m de altura, Kodi Smit-McPhee é um daqueles jovens astros de Hollywood que todo mundo conhece o rosto, mas não sabe exatamente quem é. Assim como Asia Butterfield (“A invenção de Hugo Cabret”), ele também cresceu além da conta, mas permanece com os traços de menino, o que intensifica seu aspecto franzino. Sua escalação para um filme ambientado num mundo inóspito pode não ter sido a melhor opção. Afinal, twinks sobreviveriam na pré-história? (Foto: Divulgação)

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