É a reta final do carnaval estendido que hoje domina o Brasil. Por isso mesmo, vale o registro, já que este virou o confete da semana. Não uma semana qualquer, diga-se de passagem, mas “aquela” entre as 52 duas do ano: a dos festejos momescos. No auge da folia, o presidente Jair Bolsonaro dividiu a atenção com a apuração do desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial no Rio, na quarta-feira de cinzas (6/3), após ter publicado na véspera, no Twitter, um vídeo no qual se mostrava perplexo com um folião que, ao ar livre em São Paulo,  praticava um ato obsceno e era seguido por outro que urinava em sua cabeça.

Depois, descobriu-se que se tratava de um manifesto contra “o conservadorismo e a colonização dos corpos e das práticas sexuais” organizado pelo Blocu, “um bloco feito com muito brilho para escandalizar e carnavalizar geral”. Mas, o estrago já estava feito e, como Velho Guerreiro dizia, eles vieram para confundir, e não para explicar. Rapidamente, a postagem viralizou, tomou conta do país, foi tema de rodinhas, virou manchete, foi circulou a rodo nos telejornais do todo o país. Por hora, ainda não virou marchinha. Quem sabe ano que vem. Enquanto todo um escalão do governo serpentineava em explicações, uma enorme legião de brasileiros condenou a publicação, achou que não pegava bem o dirigente da nação se encarregar de questão tão mundana (e de mau gosto). Outros tantos, claro, defenderam presidente. Normal, isso é democracia. Bandeira branca, amor.

Ilustração do século 19 que revela que a prática do golden shower já existia na vetusta Inglaterra vitoriana. E quem levava a culpa eram sempre os franceses… (Foto: Reprodução)

A despeito da discussão da imoralidade do ato flagrado e da pertinência de sua postagem numa rede social, como tudo no Brasil logo entra para o anedotário, virou meme. O auge foi quando, diante do tsunami de comentários que vieram a seguir da postagem do presidente, Bolsonaro perguntou o que era golden shower, termo de alcova usado para nominar a prática fetichista escatológica de urinar em alguém, usado indiscriminadamente tanto pelos nativos de língua inglesa quanto pelos brasileiros chegadíssimos à gringalhada.

(Foto: Reprodução)

Foi o suficiente para os bate-bolas botarem a bexiga de fora. Na velocidade do Flash, a hashtag #goldenshowerbolsonaro se espalhou na rede como glitter em bloquinho. Até a publicação dessa matéria, o post do nosso capitão já contabilizava mais de 64 mil retweets e mais de 155 mil curtidas, provando que, pelo bem ou pelo mal, nosso presidente é mais pop que a cabeleira do Zezé. Sim, índio quer apito. Reflexo de uma nação-colombina que não se furta a ser leviana com suas próprias tragédias. Algo por vezes inaceitável, mas cabível quando a gaiatice predomina e a catarse é necessária para suportar tantos absurdos. Afinal, quando a folia se desenrola, qualquer coisa pode virar piada, chorem ou não os pierrôs.

(Foto: Reprodução)

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Aproveitando o ensejo, e suavizando o fato – e o ato! -, ÁS se encarrega de registrar algumas formas em que a alcunha golden shower nunca fez tanto sentido. Confira abaixo!

Como ponto de partida, como não imaginar um dos maiores clássicos do agente com licença para matar, “007 contra Goldfinger(Goldfinger, 1964). A bond girl principal da narrativa tinha o sugestivo nome de Pussy Galore (Honor Blackman). Algo, se traduzido ao pé da letra, parecido com “gatinha em abundância” ou “abundância de gatinha”, apesar de, na gíria, pussy significar mesmo o órgão feminino capaz de produzir uma chuva dourada daquelas, bastando uma noitada regada a chope. Apesar disso, fez um sucesso danado a segunda mocinha dessa aventura, vivida por Shirley Eaton… (Foto: Reprodução)

O banho áureo de Bond entra exatamente aí: espécie de midas da maldade, o vilão Goldfinger (Gert Fröebe) era chegado a um golden shower literal.  Costumava se livrar dos desafetos na base de um chuva de ouro na qual asfixiava seus oponentes até seus corpos se esvaírem sob litros de ouro líquido, que obviamente se solidificava na temperatura ambiente. Considerando o quão os anos 1960 era fetichistas, bem antes do politicamente correto entrar em cena, não é difícil imaginar que muitos marmanjos tenha feito a associação entre a perversão sexo-urinária e as vítimas vertidas em estátuas de 24 quilates. Jill Masterson (Eaton), nessa sutil alusão ao golden shower, deve ter provocado poluções… (Foto: Reprodução)

Ainda não existia o Oscar de ‘Melhor Maquiagem’, que só seria instaurado poucos anos depois com “O Planeta dos Macacos”. Dizem que os visagistas levaram cerca de duas horas para deixar Shirley Eaton com o aspecto de Ferrero Rocher (Foto: Reprodução)

Bem menos subjetivo, mas do tipo de o presidente aprovaria, o golden shower de “Tudo o que o céu permite” (All Heaven Allows, de Douglas Sirk, 1955) é um dramalhão no qual uma viúva (Jane Wyman) se envolve com um homem mais novo, o enfermeiro vivido pelo galã Rock Hudson. A chuva dourada em questão é uma romântica árvore de galhos dourados que representa esse amor que vai de encontro aos filhos da protagonista e ao preconceito da sociedade local. Nada de perversão, okay? (Foto; Reprodução)

O site da Decor Pad, que apresenta ideias de decoração para inspirar arquitetos, exibe esse banheiro de mármore co chuveiro de ouro. Não está claro se a foto é só motivacional o se realmente o produto está à venda (Foto: Reprodução)

Exposta no Guggenheim, em Nova York, esta escultura-instalação de uma privada em ouro 24 quilate criada por Maurízio Cattelan ganhou os holofotes ano passado quando a Casa Branca, ao solicitar ao museu a cessão de uma obra de Van Gogh para decorar o quarto de Trump e Melania, recebeu em contrapartida a oferta, por parte da curadora Nancy Spector, dessa obra. “América” é uma crítica ao excesso de riqueza dos Estados Unidos, e o vaso funciona perfeitamente, aliás! Se aceitasse, o presidente de cabelos cenoura faria diariamente uma nova versão de golden shower que possivelmente deixaria Bolsonaro, seu fã, menos ruborizado… (Foto: Reprodução)

Nada como mandar um recadinho para o próprio pai, sem se queimar: O rei Abudulah, da Arábia Saudita, ganhou esse mimo das filhas. que apelaram para a vaidade do monarca: um banheiro todo em ouro, inclusive a privada e chuveiro (Foto: Reprodução)

Por falar em banheiro de ouro, esse suplanta o do Rei Abdulah. Fica em Hong Kong. É o mais caro do mundo: tem 380 kg de puro ouro, 6.200 pedras preciosas e custa a bagatela de 80 milhões de dólares (Foto: Reprodução)

 

Nos anos 1970, dois ditadores africanos ganharam notoriedade. Se não entraram para o jet set, viraram curiosidade de quermesse com comportamentos bizarros que contribuíram para reforçar a fama de atrasado do continente. Ao lado de Idi Amin Dada, de Uganda, Jean-Bédel Bokassa virou celeb quando se intitulou imperador da República Centro-Africana em 1976, após dez anos como presidente. Ficou até 1979, quando foi deposto pelas crueldades que praticava, reforçando o mito de que era canibal e devorava criancinhas. Ficou marcado pela corrupção, truculência e a má gestão econômica. Entre suas excentricidades, além das 17 esposas e os mais de 50 filhos, a privada real em ouro, que fez fama e correu o mundo e fotos (Foto: Reprodução)

De origem australiana e vivendo em Los Angeles, a artista performática e gender fluid Ilma Gore levou três meses para confeccionar essa privada em ouro maciço forrada com o tecido retirado de 24 bolsas Louis Vuitton, de 15 mil dólares cada. A obra custa hoje mais de 100 mil dólares. Nicholas Guesquière usaria? (Foto: Reprodução)

Além dessa obra que critica o consumo, Gore pintou em 2016 o presidente Donald Trump com um pênios pequeno. O quadro se chama “Faça a América grande de novo” (“Make America Great Again”), na qual ela se inspirou nos preconceitos que as pessoas carregam inconscientemente acerca da masculinidade (Foto: Reprodução)

Jan Sedlacek é curador de uma atração e Praga que faz um tremendo sucesso: o Museu do Penico. Entre as raras peças exibidas, esse penico de ouro. Gardez l’eau! (Foto: Reprodução)

O Golden Porta Potty (ou o penico portátíl dourado) é um banheiro químico que faz sucesso no Austin City Limits, festival de música que acontece anualmente num parque da cidade texana durante três finais de semana e é produzido pela C3 Copany, que também é responsável pelo Lollapalooza. O badalo inclui indie, folk, rock, hip hop e eletrônico. A excentricidade do agito fica por conta do tal banheirão, que traz atrativos: ar condicionado, wifi, mimos como perfumes e até serviço de streaming no telão para que o mijão não perca um segundo sequer daquilo que rola no palco (Foto: Reprodução)

Em tempo: se a vibe é golden shower, melhor se secar com esse papel higiênico de folhas de ouro 24 quilates produzidas por uma empresa australiana. Sem shade, amor… (Foto: Reprodução)

 

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