*Por Lucas Montedonio

Dizem que um poeta, certa vez, falou que cerveja não é bebida, mas comportamento. Pode ser. Vai uma aí? Por isso mesmo, ÁS rodou neste final de semana pela 3ª edição do Mondial de la Bière, no Píer Mauá, evento que também é realizado na França e no Canadá. Bom, não basta dizer que a galera estava no pique! A cada descuidado que deixava a caneca cair no chão, a turma urrava em solidariedade ao bom de bico desastrado. Foi então que resolvemos indagar aos biriteiros de plantão: “Você tomaria um porre para esquecer o quê no Brasil de hoje?” Bem, a calamidade do cenário político está tão óbvia que, apesar de intrigantes e divertidas, algumas respostas foram de certa forma previsíveis. Confira! (Fotos de Alessandro Cecconi)

Lumbersexual, amante do som do ZZ Top ou uma versão jovem do mago Merlin? O técnico de som Frederico Cavadas, 28, levanta uma boa questão: “Gostaria de esquecer que a ditadura militar aconteceu por aqui. Uma vergonha!” Resposta perfeita para os equivocados que dizem preferir um governo ditatorial à democracia, mesmo que o Brasil ainda não tenha aprendido a fazer bom uso dela. Mas Frederico não para por aí: “Ah, seria bom deletar que Fernando Collor está no Senado. Putz! Também é patético ver como o corpo feminino é tão exposto no carnaval, mas, em contrapartida a mulher não pode fazer topless, mostrar os peitos na praia, né?”

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Frederico Cavadas é eclético. Tomaria um porre para esquecer da ditadura militar á proibição do topless (Foto: Alessandro Cecconi)

Professora de informática, Vânia Vieira quer esquecer que Dilma existe: “Essa presidente é de uma incompetência técnica que vou te contar, hein! Porém, a falta de amor à pátria me dá vergonha de ser brasileira. O que está faltando na gente é orgulho pela nação”.

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Vania Vieira beberia para esquecer de Dilma à falta de sentido cívico da brasileirada (Foto: Alessandro Cecconi)

Márcia Lopes é zen, mas curte biritar. Contudo, a instrutora de ioga, 50, prefere ficar sóbria na hora de amargar o país: “Não tomaria porre nenhum. Acredito que a gente tem o que merece, e o que lançamos no universo retorna para gente”, confessa filosoficamente. “É só tentar acomodar bem as coisas e sambar! Tentar usar o jeitinho brasileiro e o molejo, se alongando e contraindo como em uma saudação ao sol. Dessa forma, a gente se recupera”, afirma, pondo na mesma caneca tanto o yin-yang quanto o sacolejo carioca.

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Marcia Lopes é praticante de ioga que assume o remelexo carioca. Ela acredita na lei do eterno retorno e, assim, não encheria a cara para esquecer aquilo que não vale a pena (Foto: Alessandro Cecconi)

André Zahle, 41, se define como “um humilde artesão cervejeiro apaixonado pelo o que faz”. Responsável pelo grupo carioca pioneiro Confraria do Marquês, ele se orgulha em dizer que já formou diversos mestres cervejeiros, como Leonardo Botto e o pessoal da Malte Carioca e Valenciana. Quase um guru da cervejice. Quanto à nossa enquete, o barbudo brinca: “Quero nem pensar… Meu Vascão caindo para segunda divisão! Não acredito que o time está quase sendo rebaixado. Na questão política, já são mais de 500 anos de baixaria, então, não há muita surpresa. Não beberia para esquecer nada disso, pois acho que devemos ficar ligados para que essa situação não perdure.”

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André Zahle quase encheria a cara para deletar da mente um possível rebaixamento do Vasco, mas o mestre cervejeiro prefere ficar ligadão para poder remediar o que for preciso (Foto: Alessandro Cecconi)

A realeza carnavalesca marcou presença! Já eleita, a Corte Real do Carnaval Carioca 2016 brindou com ÁS e participou de nossa enquete. Bianca Monteiro, Segunda Princesa, não quer esquecer nada: “Tomaria um porre para celebrar a vida! Pela alegria e a felicidade, pois brasileiro é isso. Lutar, todos lutam, problemas também, em todos os países. Vamos bebericar para sermos felizes!”, decreta. Clara Paixão, Rainha do Carnaval Carioca 2016 (e 2015 também!) vai fundo: “Não só no Brasil, mas como no planeta todo,  a violência tem tomado conta da humanidade. Está faltando compaixão, amor ao próximo e se for para esquecer algo, gostaria de fosse a ausência de cumplicidade que ocorre entre os seres humanos.” Já Wilson Neto afirma ser o primeiro e único, pelo terceiro ano consecutivo, a levar a coroa de Rei Momo.  Ele responde brincalhão: “Nossa, pergunta de vestibular essa, hein!?! Certamente, as desigualdades sociais. Ainda pecamos neste aspecto. Mas, não precisa encher a cara, pois as estatísticas mostram que esse problema está sendo solucionado”, decreta como um monarca bem intencionado. Uillana Adães, 20, Primeira Princesa diz séria: “A pobreza. É de cortar o coração ver pessoas sem ter o que comer, o que vestir. Difícil, porém, ainda é essa nossa realidade”.

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Do Rei Momo à Segunda Princesa, a família imperial do carnaval carioca diverge quanto aos motivos para tomar aquele porre, mas, no fundo, todos são pelo social. Mesmo numa social esperta, como o Mondial de la Bière (Foto: Alessandro Cecconi)

Tem casal que beberica para deletar de crise econômica à nossa dirigente política. O importante é degustar uma cerva junto. Bruno Erthal, 32, analista de sistemas, culpa a crise econômica: “Temos que fazer mudança de hábito nesse cenário nacional de hoje. Menos dinheiro, etc.”, filosofa sem explicar como. Porém, a patroa advogada, Mila Erthal, 33, é categórica: “Quero esquecer o dia em que votei na Dilma!”, faz o mea culpa e gargalha com dor no coração.

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Fundamental é deletar o que não presta, mas beber em comunhão de bens. O casal Mila e Bruno Erthal tem suas convicções quanto à economia e governo (Foto: Alessandro Cecconi)

Núbia Rodrigues, 28, é da área de administração e não aguenta mais a corrupção, a inflação e a falta de organização: “A economia está uma bosta. A presidente é uma tosca, enfim, só tristezas. Mas, bora beber para esquecer, porquê o negócio está tenso, meu bem!”

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Núbia Rodrigues aposta na bebedeira geral como estratégia para erradicar do cérebro uma “Dilma tosca” (Foto: Alessandro Cecconi)

A nutricionista Daniele Cavalcanti, 26, articula revoltada: “Nossa, essa roubalheira que existe aqui é um absurdo! Pagamos tanto imposto para nada. Para entrar direto no bolso desses filhos da… Ops, desses caras do governo”. Já Patrick Kroebergana, 30, é administrador e embarca no viés de pensadores como Michel Foucault e Gilles Deleuze. O moço acredita piamente na corrente filosófica que afirma que a sociedade moderna escravizou o homem pelo trabalho: “Quero esquecer o quanto tenho que trabalhar para sobreviver nesse país. O resto é a minha diversão”, afirma.

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Pluralidade loura: enquanto Daniele Cavalcanti bebe para esquecer a roubalheira no Brasil de hoje, Patrick Kroebergana se mostra mais cabeça, viaja na macarronada e protesta contra o trabalho que escraviza. Ainda assim, ele encontra tempo para se divertir na chopada (Foto: Alessandro Cecconi)

Débora Fuley, 29, é administradora de empresa e não demora nadinha para responder: “A lista é muito grande, né? Inflação, esses preços absurdos, descaso com a população. É im-pos-sí-vel um trabalhador sobreviver com um salário mínimo! Como ele vai sustentar uma família com três filhos, por exemplo?”, questiona. Luciana Espindola, 29, engenheira, afirma com convicção: “Gostaria de esquecer a crise da Petrobrás, com certeza. Me afeta diretamente no trabalho!”. Taís Amorim, 41, analista judiciária, brinca: “Hahaha, Dilminha e PT. O governo dela está corroendo o país. É triste”.

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Débora Fuley, Luciana Espíndola e Taís Amorim são amigas ligadas em relevantes assuntos nacionais. É imensa sua lista sobre o que prefeririam esquecer na hora do porre! (Foto: Alessandro Cecconi)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.