Na implacável selva que é Hollywood só sobrevivem mesmo aqueles que, tendo consciência do seu valor comercial para os estúdios, conhecem todos os passos da difícil coreografia do toma-lá-dá-cá. Pois bem, depois dos US$ 800 milhões arrecadados por “Maléfica(Maleficent, 2014), estrelado por Angelina Jolie, e dos três prêmios Oscar arrebatados por “12 anos de escravidão(12 Years a Slave, 2013) – inclusive o de ‘Melhor Filme’ –, produzido por Brad Pitt, o casal mais celebrado do showbizz resolveu colocar suas fichas na mesa para finalmente conseguir arrancar da Universal Pictures os US$ 10 milhões necessários para a realização de um projeto estritamente pessoal que Angelina vinha acalentando desde a morte da sua mãe, a modelo e atriz de origem franco-canadense Marcheline Bertrand a quem Angelina Jolie era profundamente ligada.

Poderosa, Angelina assumiu quatro funções em "À beira-mar": roteirista, diretora, produtora e protagonista. Como ela consegue olhar pelo visor da câmera com esses gigantescos óculos vintage Yves Saint-Laurent dos anos 1970? (Foto: People / Reprodução)

Poderosa, Angelina assumiu quatro funções em “À beira-mar”: roteirista, diretora, produtora e protagonista. Como ela consegue olhar pelo visor da câmera com esses gigantescos óculos vintage Yves Saint-Laurent dos anos 1970? (Foto: People / Reprodução)

Marcheline faleceu em 2007, depois de quase oito anos lutando contra um câncer que se apoderou do seu ovário e seios. Angelina e seu irmão mais velho James permaneceram ao seu lado ao longo de toda essa batalha pela vida. Jon Voight – o ator que eternizou nas telas a figura do loser interiorano tragado pela ferocidade da grande cidade em Perdidos na noite (Midnight cowboy, 1969) – já havia deixado a mulher e os dois filhos há pelo menos 30 anos. As humilhantes infidelidades que seu pai impôs a Marcheline, a traumática separação do casal, as atividades humanitárias da mãe e seu amor pelas artes, e a doença fatal que a acometeu ainda jovem serviram para aprofundar ainda mais os laços entre Angelina e a mãe.

O casamento de Marcheline Bertrand com Jon Voight durou só cinco anos (1971-1976). Da união nasceram James Voight e Angelina Jolie (à direita), ambos levados para o cinema por influência dos pais (Foto: Reprodução)

O casamento de Marcheline Bertrand com Jon Voight durou só cinco anos (1971-1976). Da união nasceram James Voight e Angelina Jolie (à direita), ambos levados para o cinema por influência dos pais (Foto: Reprodução)

Foi assim que os sentimentos de dor, admiração e saudade tornaram-se os combustíveis que mantiveram aceso por vários anos o projeto de À beira-mar (By the sea, 2015, Universal), desde a escritura do roteiro até a produção e a direção sob a batuta da própria Jolie, que não escondeu as suas motivações nas declarações que deu à imprensa: “A essência desse filme é a tristeza, uma tristeza que entrou na minha vida com a perda da minha mãe”.

Confira abaixo o trailer de “À Beira-mar” (Divulgação): 

Durante esse processo de criação ela contou com o apoio irrestrito de Brad Pitt. O maridão não só ajudou Angelina em cada passo dessa empreitada – que sabia ter um significado muito particular para ela – como também aceitou voltar a contracenar ao lado da mulher desde o discutível Sr. & Sra. Smith (2005). Essa parceria ainda oferecia formidáveis vantagens de ordem familiar e recreativa: trabalhando juntos também poderiam dividir os cuidados da sua numerosa prole durante as locações em pleno verão no arquipélago de Malta, localizado no coração do Mar Mediterrâneo.

A Beira-mar Angelina Pitt alta Sr Sra Smith 8 final

A vida imita a arte: termo parece batido, mas é pura verdade. Em 2005, os bastidores de “Sr. & Sra. Smith” forjaram o casal mais espetacular da Hollywood moderna. 2015: após 10 anos de união, Pitt e Jolie aproveitam os sets de filmagem do longa mais pessoal dela como diretora – “À Beira-mar” – para dividir os cuidados com a prole (Foto: Divulgação)

Apesar desses antecedentes pessoais, o casal Brangelina tem afirmado categoricamente que a história narrada em À beira-mar não é autobiográfica. Vejamos: Roland e Vanessa formam um casal em crise – ele, um escritor decadente e em pleno bloqueio criativo; ela, uma deprimidérrima ex-dançarina que se esconde atrás de enormes chapéus e óculos. Os dois hospedam-se num antigo hotel de uma sossegada baía na Riviera Francesa dos early seventies. Roland busca um fiapo de inspiração enquanto Vanessa parece querer apenas se recuperar de uma profunda exaustão psíquica. Quando não aguentam mais a companhia um do outro, resolvem colocar a relação deteriorada à prova envolvendo um jovem e fogoso casal em lua-de-mel (Mélanie Laurent, a heroína incendiária de Bastardos inglórios”, e Melvil Poupaud) num jogo perverso que inclui longas e patéticas cenas de voyeurismo.

Em "À beira-mar", a personagem Vanessa (Jolie), embora tenha perdido a vontade de viver, aparece sempre impecavelmente vestida com looks leves e esvoaçantes que marcaram a volta ao classicismo no início dos anos 1970 sob o império de Yves Saint-Laurent (Foto: Reprodução)

Em “À beira-mar”, a personagem Vanessa (Jolie), embora tenha perdido a vontade de viver, aparece sempre impecavelmente vestida com looks leves e esvoaçantes que marcaram a volta ao classicismo no início dos anos 1970 sob o império de Yves Saint-Laurent (Foto: Reprodução)

De fato, quando nos defrontamos na tela com o resultado obtido por Angelina Jolie neste seu terceiro longa-metragem como diretora, percebemos que o verdadeiro propósito artístico de À beira-mar foi homenagear não apenas a sua mãe, mas o amor que Marcheline nutria pelo cinema de arte europeu das décadas de 1960-1970 e pela sua capacidade de captar em densos dramas psicológicos os abismos e os segredos da alma humana sob o impacto de uma era que estava mudando a cara do mundo.

A Beira-mar Angelina Pitt alta final

Retrato da deprê: estrela comparece em “À Beira-mar” extremamente magra e abatida, em composição perfeita para homenagear os dramas europeu que a própria mãe, morta em 2007, tanto cultuava (Foto: Divulgação)

Nesse momento de glória do cinema autoral, artistas como Ingmar Bergman, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Michelangelo Antonioni, Luis Buñel, Stanley Kubrick, François Truffaut, Alain Resnais, Claude Chabrol ou Louis Malle – entre dezenas de outros – não eram apenas nomes que hoje sobrevivem tão-somente em guetos como as cinematecas ou os cursos de cinema, mas sim criadores que conseguiram a proeza de arrastar multidões às salas, ávidas por encontrar no cinema um caminho para discutir, decifrar, entender, transformar e viver no mundo. Essa geração de cinéfilos formada pelos grandes cineastas das décadas de 1960-1970 foi aquela que presenciou o último suspiro do cinema como uma manifestação artística realmente importante e decisiva na vida das pessoas e do pensamento.

HOMENAGEM À ÉPOCA DE OURO DO CINEMA EUROPEU E SUAS DIVAS

“À beira-mar” foi concebido por Angelina Jolie como um tributo à sua mãe – a modelo e atriz Marcheline Bertrand, falecida em 2007, aos 56 anos de idade – que adorava os filmes de arte europeus dos anos 1960 e 1970 e suas atrizes lindas, talentosas e inteligentes. Inclusive, uma delas – Jacqueline Bisset – acabou tornando-se madrinha da sua filha Angelina. Recorde algumas das estrelas e filmes que fizeram a cabeça de Marcheline e inspiraram Angelina Jolie em “À beira-mar”. Confira abaixo: 

É verdade que o “cinema de arte” não morreu. Ele está vivo e continua a se propagar por novas telas e suportes, mas ele nunca voltará a ocupar a centralidade artística, política e existencial que já deteve durante esses 20 anos revolucionários quando ele explodia nas telas desses espaços de celebração coletiva da imagem que eram as grandes salas de cinema do passado. Até por que a esmagadora maioria do filmes que ainda acreditamos representar o cinema não passa de um catálogo de efeitos especiais com narrativa de videogame para serem “baixados” em micro telas com áudio de radinho de pilha durante uma tediosa viagem de metrô.

A baía de Mgarr ix-Ximi, na parte norte da ilha de Gozo, no arquipélago que forma a República de Malta, foi fechada aos turistas durante a produção de "À beira-mar", além de ser cenografada com novas edificações para atender ao roteiro de Angelina Jolie (Foto: Divulgação)

A baía de Mgarr ix-Ximi, na parte norte da ilha de Gozo, no arquipélago que forma a República de Malta, foi fechada aos turistas durante a produção de “À beira-mar”, além de ser cenografada com novas edificações para atender ao roteiro de Angelina Jolie (Foto: Divulgação)

Quando indagada por que recuara para os anos 1970 a ambientação do drama de À beira-mar – decisão que implicou um considerável aumento de custos numa produção em que a Universal não permitiu o gasto de um centavo a mais além dos US$ 10 milhões prometidos –, Angelina Jolie respondeu: “Além da vivacidade e do charme inerentes ao período, essa escolha me permitiu remover muitas das distrações da vida contemporânea, de forma a manter a câmera rigorosamente focada nas emoções que os personagens experimentam durante a sua trajetória”. Na prática, essa afirmação se traduz num filme de ritmo lento e delicado com uma mise-en-scène elaborada segundo o manual dos velhos mestres acima lembrados: quer dizer, a cada imagem minuciosamente construída é concedido um tempo de contemplação e análise que nos permite sentir a pulsação interior dos personagens ou supor as suas intenções secretas. Tudo banhado pela maravilhosa luz mediterrânea, sutilmente calibrada sem artifícios pelo fotógrafo austríaco Christian Berger, o mesmo das obras-primas A professora de piano (La Pianiste, 2001) e Caché (idem, 2005) de autoria do seu compatriota Michael Haneke.

Malta já recebeu mais de 100 produções cinematográfica desde 1925. A partir da década 1970, o negócio das locações se tornou vital para a economia do arquipélago. Filmes como "O expresso da meia-noite" (1978), "Gladiador" (2000), "Tróia" (2004), "O código Da Vinci" (2006) e trechos da série de TV "Game of Thrones" divulgaram ainda mais seus atrativos (Foto: Divulgação)

Malta já recebeu mais de 100 produções cinematográfica desde 1925. A partir da década 1970, o negócio das locações se tornou vital para a economia do arquipélago. Filmes como “O expresso da meia-noite” (1978), “Gladiador” (2000), “Tróia” (2004), “O código Da Vinci” (2006) e trechos da série de TV “Game of Thrones” divulgaram ainda mais seus atrativos (Foto: Divulgação)

Aliás, Berger deve ter recebido orientações expressas da diretora Angelina Jolie no sentido de ressaltar a negação do amor e da vida assumida pela personagem Vanessa através da esqualidez do seu próprio rosto e corpo (com direito a planos explícitos dos seus seios reconstruídos após a mastectomia a que se submeteu em 2013), enquanto exalta a beleza madura de Brad Pitt, o paciente amante que quase se abate e pensa em se afogar com a mulher no desespero. O fotógrafo também soube valorizar a beleza bizarra e árida da claustrofóbica baía sobre a qual debruçam o decadente hotel e pequenos comércios por onde transita uma curiosa fauna local em que pontifica o calejado dono de bar Michel, vivido pelo maravilhoso ator Niels Arestrup.

Pitt e Jolie em cena: atriz-diretora se mostra generosa, valorizando a beleza madura do marido, enquanto prefere se enfeiar a fim de exibir a angústia vivida pela sua personagem em "À Beira-mar" (Foto: Divulgação)

Pitt e Jolie em cena: atriz-diretora se mostra generosa, valorizando a beleza madura do marido, enquanto prefere se enfeiar a fim de exibir a angústia vivida pela sua personagem em “À Beira-mar” (Foto: Divulgação)

Por tudo isso, À beira-mar não desapontou aqueles que esperavam o enorme e anunciado fiasco financeiro. O grande público percebeu de longe que esse filme não era um produto da fábrica Brangelina de blockbusters e simplesmente o ignorou. Por outro lado, a maior parte da crítica esnobou as pretensões artísticas da experimentação de Angelina. A Universal não esboçou uma ruga de preocupação, pois sabia desde o início do projeto que fornecera a sua verba a fundo perdido e só para manter La Jolie feliz e motivada a aceitar futuras parcerias infinitamente mais rendosas. Logo, Hollywood não perde por esperar: já estão no forno Malévola 2 e Salt 2”. O que pensaria a idealista e sofrida Marcheline Bertrand dessas traquinagens de sua mais querida e esperta filha?

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.