*Por Andrey Costa

A exposição “DreamWorks Animation: A Exposição – Uma Jornada do Esboço à Tela“, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, tem o que comemorar. Já é marcada pela quantidade de visitas diárias que espaço cultural vem recebendo: mais de 10 mil visitas por dia, totalizando mais de 430 mil visitantes de público e rendendo a ela o posto de terceira mostra mais visitada do espaço. À frente dela ficam apenas “Arte da África” (0ut/2003 à jan/2004 – 747.295 visitantes) e “Surrealismo” (ago à out/2001 – 739.719 visitantes). Fácil de explicar pelo apelo que os dois temas exercem mundo afora. ÁS aproveitou a celebração do sucesso dessa expo, driblou as filas de dar volta ao quarteirão e foi conferir de perto o agito que vem animando multidões. Para entender o porquê desse burburinho em torno da mostra, aproveitou para bater aquele papo com Ennio Torresan, 55, head of story da DreamWorks Animation,  que recebeu a redação para uma visita guiada. Confira!

Interconectividade: um dos momentos mais esperados da expo é o tour em 180º, que dura 3 minutos, com uma projeção cheia de detalhes do filme “Como Treinar o Seu Dragão” (Foto: Reprodução)

São 400 itens de acervo, incluindo um modelo de “Night Fury, Toothless” do filme “Como Treinar o Seu Dragão” (2010), além de itens raros e inéditos, como desenhos, storyboards, máscaras, mapas, fotografias, pôsteres, pinturas e artes originais, diretamente dos arquivos do DreamWorks Animation. De quebra, uma exibição de entrevistas e imagens de bastidores que revelam como se dá o complexo e criativo processo do esboço de um desenho às telas.

O animador em ação: Ennio Torresan posa durante a criação do caracol do filme “Turbo“. Atenção para o Emmy nada modesto pela direção do desenho “O Cãozinho Esperto“, da Disney. Ele é diretor criativo do Departamento de Histórias da DreamWorks, ou seja, o roteiro contado através de imagens que vai direcionar o trabalho da equipe de animação. Daí o head of story, título de quem recebe a função de coordenar essa parte da criação (Foto: Reprodução)

O Desenho, do esboço embrionário ao roteiro visual

O carioca é low profile, mas por trás da tranquilidade é responsável pelas maiores aventuras vividas em filmes como “Madagascar” (2005), “Kung Fu Panda” (2008), “Megamente” (2010) e alguns dos mais recentes, “Turbo” (2013), sucesso de bilheteria mundial, no qual ele botou um caracol com o superpoder da velocidade para disputar a Fórmula Indy, e “O Poderoso Chefinho” (2017), aquele do bebê que comanda uma conspiração internacional de pimpolhos para dominar o mundo, sempre se dividindo entre as funções de ilustrador e o comando dos story boards. “Hoje em dia, os processos são inteiramente digitais, raramente os story boards e mesmo as ilustrações de quadro são feitas à mão. A profissão na munheca está desaparecendo, e existe um brasileiro em São Paulo que ainda executa a técnica manual e, por isso, é requisitadíssimo no mundo inteiro”,  entrega Ennio o mercado atual com ares quase saudosistas.

Além do trabalho da Dreamworks, o brasileiro é conhecido no métier por outra criação querida do grande público: o desenho animado “Bob Esponja“, do canal de tv a cabo Nickelodeon, no qual animou 15 episódios em 1998. “Meu personagem favorito na série é o Plancton“, entrega. Para o início de cada projeto, o esboço é o ponto de partida essencial na criação das principais características dos personagens que a história contará.

São desenhos e mais desenhos realizados até que as características de um personagem estejam de acordo com o esperado. Nesses rascunhos de Nicolas Marlet para o filme “Kung Fu Panda“, é visível a diferença do desenho embrionário em relação ao que de fato é animado e vai para a telona. Esse é um dos aspectos mais curiosos da mostra do CCBB, que inclui os esboços originais – bem diferentes do resultado final – de criaturas queridíssimas do público, como o ogro Shrek (Foto: Reprodução)

Ennio conta que, mesmo com tecnologias super avançadas à disposição e os computadores de última geração para que os esboços sejam concebidos, os principais storyboards ainda nascem do desenho à mão no papel. Uma vez terminados, chega a hora de materializar os personagens em 3D, processos esses que podem levar anos para estarem concluídos, como em “Turbo”, filme que levou 5 anos para que os storyboards mais importantes estivessem aprovados e seguissem o processo de animação no roteiro. “Alguns desenhos animados para o cinema levam dez anos para chegarem às salas de exibição,a  partir dos estudos iniciais de argumento e croquis de personagens”, entrega o profissional.

Detalhe: um dos primeiros esboços para o filme “Como Treinar Seu Dragão” revela que durante o processo de desenvolvimento de concepção, muitas características mudam até que o resultado final seja o desejado (Desenho Nicholas Martlet / Foto: Reprodução)

Shrek, é você?!?!?! Personagem passou por inúmeras modificações até chegar no ogrinho favorito do cinema que nós conhecemos (Foto: Reprodução)

Espetáculo garantido: narrativas endiabradas vs. personagens carismáticos

É no traço que muitas vezes o script se aprimora quando apresentado pelos animadores de storyboard ao diretor, que molda o enredo que mais convence. Porém, a história já chega prontinha aos animadores. É nesse momento que as mentes criativas por trás desses universo mágico começam a fervilhar e dar o tom que a narrativa deve ter. São os artistas de storyboard que irão dar o rumo do cartoon, definindo planos, cortes, sequências inteiras e os pontos de vista e expressões nos quais os personagens serão vistos. Após a aprovação do diretor, é outra equipe, a de animação, que vai se encarregar de transformar esse roteiro visual e realidade fílmica.

Quando Ennio foi cúmplice de quatro animais na sua fuga do Zoológico de Nova York, por exemplo, já era de se esperar que não fossem animais com características naturais das espécies. Ali temos uma girafa hipocondríaca, um leão popstar egocêntrico, uma zebra goodvibes e um hipopótamo-fêmea que faz linha psicóloga do quarteto em sua fuga de Nova York para a África. Os storyboards foram trabalhados em cima da história, mas cenas chaves criadas por Ennio nortearam boa parte do script de “Madagascar”.

Pantone: o mix de cores é outro processo que requer muita atenção e dedicação, como nos tratamentos dos artistas Timothy Lamb e Pricilla Wong. Quem cuida da cartela cromática dos desenhos, e de sua colorimetria, são os diretores de arte, que recebem os cenários prontos do designer de produção (Foto: Reprodução)

Luzes, câmeras, animação! Filme “Os Croods” com seus personagens pré-históricos mostra a atmosfera do planeta pré-Big Bang. Takao Noguchi é o responsável pelo personagem e Dominque Louis pela cor (Foto: Divulgação)

Universo cênico

Tão importante quanto narrativas envolventes e identidades visuais definidas, é o mundo no qual se ambientam os desenhos. Essa parte da exposição no CCBB mostra o quanto o processo é complexo. Para o head of story da DreamWorks, a cada cinco filmes um chega nessa etapa: “Os outros quatro desenvolvidos até então são abortados, uma loucura!”.

Grandes nomes da animação entram em cena para conceber esse sedutor universo no qual a ação vai se passar, envolvendo light design, trilha sonora, etc… Um dos mais importantes para Ennio é o também brasileiro Sandro Cleuzo, que já trabalhou para a Disney e a DreamWorks em filmes como “Encantada“, “A Nova Onda do Imperador“, “Tarzan“, “A Princesa e o Sapo“, entre outros, além de ser um dos poucos hoje em dia que animam em 2D, área essa que atualmente anda escassa de profissionais após o “boom” do 3D.

Já a trilha sonora entra na reta final. Ennio ri: “É uma etapa crucial, mas o final do processo. Alguns compositores como Hans Zimmer [o oscarizado criador de rilhas como “O Rei Leão“, da Disney] às vezes tem somente dois meses para compor as músicas”.

O exótico cenário de “Madagascar”, na concepção do artista Alex Puvilland (Foto: Reprodução)

Um dos truques para que o background seja notado acontece quando o jogo de luzes certo é posto em cena, etapa que leva menos tempo do que o restante. Quando cenário e light design são afinados, através de processos hoje inteiramente digitais, o universo se se equilibra.

O horizonte pré-histórico  de “Os Croods” é ponto forte na concepção cênica do artista visual Paul Duncan (Foto: Reprodução)

“É quando o desenho atrai os olhares para a grande tela. Geralmente, é em torno dos 20 minutos de projeção, após a trama estar definida e os personagens apresentados, que essas sequências em plano panorâmico tomam conta da tela, em cenas marcadas por percursos de câmera em slow motion para fazer a plateia imergir no universo do desenho, se encantando com a concepção visual. Nesse momento de pura sedução, a banda sonora de fundo é a trilha no seu esplendor mais incidental”, entrega Ennio Torresan.

“Como Treinar o Seu Dragão”, pelo artista Pierre-Olivier Vincent (Foto: Reprodução)

Serviço:

“DreamWorks Animation: A Exposição – Uma Jornada do Esboço à Tela”

Quando: Até 15 de abril

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro

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