* Por Flávio Di Cola, de Paris

Um exótico conjunto de caprichos do destino uniu Marie Brignole-Sale, duquesa de Galliera (1811-1888), fomentadora do palácio que leva o seu nome inaugurado em 1894 num dos pontos mais exclusivos de Paris, e a estrela da canção francesa e mundial Dalida (1933-1987). Para começar, ambas estão ligadas ao Egito: a duquesa, porque seu marido Raffaele De Ferrari, príncipe de Lucedio e duque de Galliera, foi um dos principais financiadores do Canal de Suez; Dalida porque nasceu no Cairo e lá se consagrou como Miss Egito 1954. As duas tinham origem italiana, mas abraçaram a França como país de adoção.

Expoente da canção pop francesa entre os anos 1960 e 1980, Dalida (1933-1987) foi também ícone fashion que antecipou a Era Disco na Europa. E sabia se vestir como ninguém, dentro e fora dos palcos. Entre tantas celebrações em curso este ano – que marca as três décadas de sua sua trágica morte -, a pop star ganhou uma retrospectiva dos seus figurinos no Museu Galliera, em Paris, que lotou de público até o último domingo (Foto: Reprodução)

2017 marca os 30 anos da morte de Dalida. A data levou centenas de fãs ao cemitério de Montmartre no último 3 de maio. Nesse mesmo dia de 1987, aos 54 anos, ela ingeriu uma super dose de barbitúricos sem antes escrever três cartas de despedida. Na endereçada ao público que a venerava ela declarou: “A vida tornou-se insuportável para mim. Me perdoem. Dalida” (Foto: Lys et les Lys)

A carreira fabulosa, sua vida sofrida e seu dramático desaparecimento garantiu a Dalida um culto pop na França comparável a de Elvis Presley nos Estados Unidos. Seu túmulo no cemitério de Montmartre, bairro parisiense em que morou grande parte da sua vida, está permanentemente coberto de flores (Foto: Lys et les Lys)

E, por fim, porque é precisamente o Palácio Galliera, sede do Museu da Moda da Cidade de Paris, que recebeu a fabulosa coleção de roupas e adereços de Dalida cuidadosamente conservada por décadas e agora doada ao museu pelo irmão e empresário da artista, Orlando Gigliotti, para se transformar numa das atrações mais concorridas deste quente verão parisiense – a exposição Une garde-robe de la ville à la scèneque terminou neste último domingo (13/8) e,  em tradução livre, significa que a mostra contempla a evolução do look exibido pela diva no palco e na sua vida pública diária. Sucesso de público com filas intermináveis dando volta, a expô foi conferida por ÁS na sua reta final a convite e trata-se apenas de uma das homenagens, na França, à diva fashionista por ocasião dos 30 anos de sua morte.

A exposição “Dalida-Une garde-robe de la ville à la scène” percorre mais de três décadas (1956-1987) da carreira da diva da canção francesa e internacional através de 209 peças de roupas e acessórios. A atração permaneceu em cartaz no Palácio Galliera-Museu da Moda da Cidade de Paris até este último domingo e foi um dos pontos altos da primavera-verão parisiense (Foto: Flávio Di Cola)

A mostra que tem arrastado multidões neste ensolarado e quente verão parisiense tem a curadoria de Sandrine Tinturier e projeto expositivo de Robert Carsen. Sandrine optou por abrir o percurso pelo célebre vestido em veludo vermelho, criado em 1958 por Jean Dessès (1904-1970) para a primeira apresentação da diva como atração principal no Teatro Bobino, famoso music-hall parisiense. Para a ocasião, Dessès optou por um look hollywoodiano voluptuoso. (Foto: Divulgação Palais Galliera)

Moda na linha do tempo: vestidos que representam a evolução da moda sob o bom-gosto de Dalida compareceram na exibição tendo ao fundo um imenso painel de foos, capas de revisas e reportagens com a diva egípcia (Foto: Divulgação)

A HISTÓRIA DA MODA EM 8 MINUTOS

Esta coletânea de alguns dos principais momentos da carreira de Dalida no cinema, no palco e na televisão é também um verdadeiro compêndio sobre a evolução da moda da segunda metade do século XX. Respire fundo e mergulhe neste “túnel do tempo” da canção e do estilo:

Percorrer as salas por onde se distribuem as 209 peças do acervo de Dalida significou também mergulhar em boa parte da história da grande moda francesa e do figurino do music-hall. A curadora Sandrine Tinturier organizou a mostra de forma linearmente didática: os looks foram distribuídos basicamente em três áreas das majestosas galerias do Palácio Galliera, correspondendo a distintas fases da vida artística de Dalida que – por sua vez – representam momentos distintos da moda e das estratégias que a artista encontrou para se apresentar nos palcos e construir sua persona pública. Além desses espaços delimitados pelo tempo, havia ainda setores menores dedicados aos figurinos envergados por Dalida em seis filmes e a luxuosos adereços, como bolsas, sapatos, sandálias e bijuterias.

Ao lado da exuberância calcada no show biz americano sugerido por Dessès, Dalida também aderiu à moda juvenil e fresca da virada dos anos 1950-60 ainda influenciada pelo new look que explorava a anatomia da pin-up através de decotes generosos, das cinturas de vespa e das saias plissadas que facilitavam os passos de dança então em voga como o twist (Foto: Flávio Di Cola)

A partir de 1966 e até os final dos anos 1970, já consagradíssima como a Rainha da Canção Mediterrânea, os guarda-roupas privado e público de Dalida começam a se diferenciar cada vez mais. Para o palco, o estilo torna-se grave, os vestidos se alongam, dramatizam-se, fixando-se nos longos de cetim e crepe (à direita). Mas ao se vestir para a vida privada (à esquerda), Dalida abria livremente a sua paleta de cores (Foto: Flávio Di Cola)

Esse percurso abria-se num belo átrio desenhado por Robert Carsen, responsável pelo projeto expositivo e que introduz a primeira etapa da carreira de Dalida (1956-1965) já como talento consagrado da canção e entronizada como Mademoiselle Juke-Box”, tal a sua popularidade entre o público jovem num momento em que pipocavam na cena musical de um exército de cantores da geração iê-iê-iê.

Dalida espelhou magnificamente a ebulição e o ecletismo da moda dos anos 1970 que misturava caoticamente referências da onda hippie com o estilo das ruas e de culturas asiáticas e africanas. Nesse período, o guarda-roupa da show woman estava abarrotado de looks Yves Saint Laurent e Pierre Balmain (Foto: Flávio Di Cola)

Jaguatirica: o animal print aplicado no jérsei que se populariza nos anos 1970 – em caimentos que remetem ao corpo étnico, ou sensualmente colados à silhueta – enfatizava ainda mais o lado “pantera” de Dalida, merecendo toda uma seção na mostra do Palácio Galliera (Foto: Flávio Di Cola)

Enquanto a maioria deles não sobrevivia por mais do que uma estação, Dalida colecionava um sucesso após outro em nível mundial – Amour, excuse-moi (Amore, scusami) e La danse de Zorba, por exemplo – mesclando habilmente a sua veia romântica com concessões ao mercado jovem enlouquecido pelo twist e outros ritmos típicos do período. São dessa época seus primeiros triunfos no Olympia, mitológica casa de espetáculos de Paris em que se apresentava com looks que a curadora define como “garde-robe de jeune fille”.

Um dos pontos altos da exposição é esta espetacular criação de Michel Fresnay, executada por Mine Barral Vergez para Dalida personificar a mitológica cantora e atriz Mistinguett (1875-1956) num show de 1980 no Palais des Sports, em Paris (Foto: Flávio Di Cola)

Exposto individualmente em um queijo central, esse formidável look ganhou destaque maior na mostra exibida no Palácio Galliera, como uma das peças-chaves da mostra (Foto: Divulgação)

O sonho da jovem ítalo-egípcia Iolanda Cristina (depois Dalida) era ser uma estrela de cinema. Com sua beleza chegou a fazer figurações e pontas em filmes rodados no Cairo, então capital cinematográfica do mundo árabe. Já popularizada como cantora, protagonizou algumas produções francesas. Em 1986, ela volta ao Egito para estrelar seu décimo-primeiro e último filme “Le sixième jour” do celebrado diretor Youssef Chahine (1926-2008). Alguns dos figurinos de Dalida criados para as telas também constam da exposição (Foto: Flávio Di Cola)

O Cairo da infância e da juventude de Dalida era uma metrópole cosmopolita com um vibrante setor urbano europeu. Administrada pelos ingleses e com padrões civilizatórios franceses, a cidade oferecia oportunidades para carreiras como modelo, cantora e atriz para moças ambiciosas como Dalida (Foto: Reprodução)

Muito antes de Anita e Pabblo Vitar: se hoje as estrelas pop mundo afora causam comoção nos clipes ambientados em lugares exóticos como o Marrocos, muito antes – e antes mesmo de surgirem os videoclipes – Dalida já se aventurava na produção de imagens emblemáticas como essa, na terra natal Cairo, que traz a esfinge ao fundo (Foto: Reprodução)

DALIDA, DEUSA POP DA CANÇÃO MEDITERRÂNEA

Dalida, egípcia de origem italiana, foi o símbolo máximo da música como agente de aproximação entre povos distantes ou antagônicos. Suas origens cosmopolitas que remontam ao milenar caldo mediterrâneo de interpenetrações culturais ajudaram-na a cantar com o mesmo brilho e convicção em francês, italiano, árabe, hebreu, inglês, espanhol, holandês, alemão, grego e japonês. “Salma ya salama”, canção inspirada no folclore egípcio e gravada em francês e árabe, tornou-se desde 1977 uma espécie de hino de todo o Oriente Médio. Confira:

A segunda metade dos anos 1960, a mais inflamada da década que mudou tudo, só vai solidificar a posição de Dalida como a mais popular cantora francesa a ponto de receber das mãos de Charles de Gaulle, em 1968 – o famoso ano das “jornadas de maio” –, a Medalha da Presidência da República, marcando seu longo alinhamento político com a ala gaullista da política francesa, embora mantivesse posteriormente ótimas relações com o establishment socialista com a ascensão de François Mitterand ao poder em 1981.

Dalida repetiu o arquétipo clássico da estrela adorada por milhões mas infeliz na vida privada. Sua trajetória de sucessos retumbantes foi pontuada por uma série de tragédias desde a adolescência e que a levaram a buscar conforto no esoterismo e na filosofia oriental. Vários de seus amigos mais próximos e amantes cometeram o suicídio como o cantor italiano Luigi Tenco, aqui ao lado de Dalida (toda Chanel) no Festival de San Remo de 1967, dias antes de dar fim à própria vida e às vésperas de anunciar seu casamento com a trágica diva (Foto: Reprodução)

Nessa fase, delimitada na exposição do Palácio Galliera entre 1966 e 1978, Dalida continuou não só como a rainha absoluta do Olympia como também expandiu seus domínios em escala mundial, superando Frank Sinatra em vendas de discos no mercado europeu e dando-se ao luxo de continuar recusando os incessantes convites para prosseguir com a carreira em Hollywood.

São dessa época suas antológicas gravações do tema do filme O poderoso chefão de Nino Rota e Paroles paroles. Seu senso de oportunidade mais uma vez se revelou infalível: em 1975, Dalida vai ser a primeira grande estrela da cena musical francesa a cair de cabeça na onda disco, reciclando habilmente canções clássicas e sucessos antigos no novo ritmo que varria avassaladoramente as danceterias e as paradas de sucesso.

Nem Lady Gaga, nem Grace Jones: na Era Disco, Dalida envergava figurinos performáticos lacradores repletos de brilho e dos excessos típicos do período. E, com seu trabalho de corpo, introduziu o movimento no palco numa época em que as divas – de todos os tipos – costumavam se concentrar no carão. Sim, a egípcia idolatrada na França foi precursora do bafão muito antes de Madonna, Beyoncé, Rihanna… (Foto: Reprodução)

DALIDA, DISCO QUEEN

Dalida soube como nenhuma outra show woman manter-se completamente sintonizada com o gosto do público e com os movimentos do mercado. O estrondoso sucesso de “Laissez-moi danser” é uma prova de seu talento para adaptar sua expertise na canção e no music-hall à avassaladora onda disco da virada dos anos 1970-80. Este clipe além de exaltar a vitalidade de Dalida oferece um verdadeiro desfile do estilo glam que ela adotou sem reservas, cujos exemplares estão expostos na mostra do Palácio Galliera:

 PAROLES PAROLES: UM DELICIOSO DEBOCHE DAS EMBROMAÇÕES ROMÂNTICAS

A canção italiana Parole Parole foi originalmente um sucesso na voz da cantora Mina em 1972. Mas foi a versão francesa gravada por Dalida e Alain Deloin logo depois que a transformou num hit planetário. Curta esta gravação vintage da televisão francesa: 

As mudanças complexas pelas quais o mundo passava naquele momento refletiam-se inevitavelmente sobre a moda e sobre os figurinos de cena que também precisavam atender às demandas do crescente processo de espetacularização em todos os campos da arte.

O acervo de Dalida é uma amostra exuberante dessas transformações e boa parte do ecletismo da moda do período se faz presente nesse segmento da exposição em que ficam claras as diferenças entre o guarda-roupa de cena – que pode incluir desde looks mais minimalistas até os impregnados da exuberância da nascente onda disco – e aquele da vida privada que compreende muitas peças anônimas adquiridas pelo único critério de uma mulher com olhar arguto, eclético e experimentado para a moda.

Balacobaco da refuseta: plena de trejeitos numa era do espetáculo pré-mídias sociais, Dalida foi registrada inúmeras vezes saracoteando no palco. As imagens ficaram para a história e ÁS questiona se, caso a moça ainda estivesse viva, não viraria meme hoje em dia, como Gretchen… (Foto: Reprodução)

O TOQUE DE MIDAS DE DALIDA

Dalida não hesitava em regravar canções celebrizadas por outras cantoras pois sabia que sua versão acabaria inevitavelmente no top do billboard. Foi o caso de “Bang bang”, canção italiana consagrada por Cher e gravada por um pelotão de cantoras de peso que vão de Petula Clark a Lady Gaga. A canção é cultuada até hoje no cinema: foi usada na abertura de “Kill Bill” (2004) de Quentin Tarantino e de “Zodíaco” (2007) de David Fincher. Acompanhe:

A exposição se encerra com o último período da carreira de Dalida (1978-1987) definido pela curadoria como aquele delimitado entre o apogeu e o declínio da era disco e a ascensão do glam dos anos 1980, quando a estrela já está completamente cristalizada como ícone pop global e como uma das rainhas absolutas da sub-cultura gay no mundo todo.

O olhar levemente vesgo, o sorriso enorme, o carão quadrado e as madeixas prontas para o bate-cabelo eram marcas inevitáveis de quem nasceu no mundo árabe ocidentalizado e depois meteu o pé rumo à Europa latina. O brilho veio a reboque no visual de Dalida (Foto: Reprodução)

Seu guarda-roupa de super star agora está perfeitamente ajustado aos shows televisivos que ocupam grande parte de suas atividades. As gravações exibidas nas telas disponíveis nesse espaço no Palácio Galliera comprovam o seu incrível domínio de cena nessa mídia eletrônica.

Elevada ao estratosférico nível de um dos símbolos máximos do universalismo da canção de pegada mediterrânea, Dalida manteve em alta o ritmo de suas apresentações mundo afora, não hesitando em ir ao encontro dos países do Oriente Médio onde era popularíssima, numa evidente tentativa de aliviar as tensões geradas pela conturbada geopolítica da região através da música e do cinema. Seu engajamento político também se estendeu poderosamente ao movimento gay proud ao apoiar em público políticos abertamente homossexuais como Bertrand Delanoë que foi prefeito de Paris de 2001 a 2014, e à luta contra a Aids, num momento em que a síndrome era estigmatizada como “peste gay”.

Foto: Reprodução)

Ao final dessa exploração do universo fashion de Dalida no Galliera, o público saía maravilhado, mas também com uma pergunta amarga na boca: como é possível que uma carreira artística de tal envergadura e que praticamente só conheceu triunfos pode acabar no extermínio de sua própria vida? Talvez só mesmo Marilyn Monroe e Elvis Presley, companheiros de Dalida nessa viagem fatal, poderiam entendê-la.

A DOENÇA DO AMOR SEGUNDO DALIDA

A canção “Je suis malade” já tinha obtido um enorme sucesso na voz do seu compositor Serge Lama em 1973. Dalida elevou-a ao triunfo total gravando-a logo em seguida, conferindo-lhe seu próprio pathos às trágicas consequências de um amor desfeito. Dalida sentia como ninguém cada palavra que cantava pois sua vida amorosa foi um verdadeiro calvário de altos e baixos. Emocione-se…

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