* Por Flávio Di Cola, direto de Paris

Os milhões de turistas de todos os perfis possíveis que infestam Paris o ano inteiro e que garantem permanentemente à Cidade Luz o título indisputável do mais importante destino cultural do planeta andam passando neste verão europeu pela dificuldade de ter de incluir mais um ponto obrigatório de visitação na suas programações já tão apertadas. Aqueles sortudos que, apesar do real desvalorizadíssimo, pretendem embarcar em breve para a capital francesa vão poder desfrutar das atividades de mais uma atração entre aquelas que valorizam a relação urbe versus natureza, já que ela simplesmente se encontra em pleno coração verde de Paris: a Fundação Louis Vuitton.

As mitológicas malas LV transformadas em peças decorativas do restaurante da fundação (Foto: Flávio Di Cola)

As mitológicas malas LV transformadas em peças decorativas do restaurante da fundação (Foto: Flávio Di Cola)

A Fundação completa mês que vem um ano de sua fase inaugural, não só das suas atividades corporativas como também de um belíssimo espaço expositivo para “múltiplas experiências culturais”, localizado no extremo norte do Bois de Boulogne, um dos pontos altos da colossal transformação urbana empreendida pelo barão Haussmann (1809-1853) em Paris durante o império de Napoleão III (1852-1870), inspirado nos jardins públicos ingleses, como o Hyde Park.

Fundação Louis Vuitton: a instituição finca o pé em área parisiense que foi chique na Belle Époque e depois se tornou parte do anedotário bafônico da capital francesa (Foto: Flávio Di Cola)

Fundação Louis Vuitton: instituição finca o pé em área que foi chique na Belle Époque e depois se tornou parte basfond parisiense, com direito a requinte de sustentabilidade: microônibus elétrico liga Champs-Elysées à FLV no Bois de Boulogne (Foto: Flávio Di Cola)

Essa área imensa (865 acres) a oeste da cidade e colada a alguns bairros da haute bourgeoisie francesa já passou por tudo: de passarela do footing dominical durante a belle époque, a cenário da violência urbana – inclusive, como antigo e notório ponto de travestis brasileiros.

Bois de Boulogne: de bateção de perna das dondocas francesas no início do Século XX a ponto de bateção de ponto da rapaziada transgênero que usava o corpo para ganhar uma graninha (Foto: Reprodução)

Jardin d’Acclimatation: da bateção de pernas das dondocas no início do século XX a ponto de bate-carteira da rapaziada transgênero que usava o corpo para ganhar uma graninha, área se revitaliza (Foto: Reprodução)

Pois bem, é justamente nessa região parisiense – Neuilly-sur-Seine, município limítrofe da capital, rigorosamente falando – muitas vezes deixada de lado pela grande massa de visitantes apressados que Frank Gehry plantou mais uma de suas obras em geometria curva que tanta dor de cabeça dão a engenheiros e calculistas. O convite ao arrojado e polêmico arquiteto norte-americano partiu da Fundação Louis Vuitton em mais um gesto espetacular da marca – que há muito tempo não é apenas francesa, mas sim a síntese da aspiração global pelo luxo – no sentido de deixar claro que pretende manter-se galhardamente na liderança do seu segmento de mercado ao longo do novo milênio.

O resultado é – segundo a própria instituição – um projeto que “dialoga” com o ambiente natural que o cerca, ou seja, com a área do Bois de Boulogne em que se localiza o igualmente histórico Jardin d’Acclimatation, outro importante legado da febre modernizadora e higienista do “baron démolisseur”. Por isso, a opção por linhas orgânicas, por materiais transparentes como o vidro e por suaves bacias e quedas d’água que induzem o público a um trânsito quase imperceptível entre o mundo exterior e o interior. Esse complexo arquitetônico compreende não só as galerias de exibição (11 ao total), mas também um auditório, restaurante, espaços multiusos e terraços que oferecem uma vista inédita sobre o imenso e luxuriante parque e o skyline parisiense. Mais uma experiência inesquecível só possível numa Paris que não se cansa de se renovar.

Serviço:

Fondation Louis Vuitton

8, avenue du Mahatma Gandhi

Bois de Boulogne, Paris

www.fondationlouisvuitton.fr

Publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e ex-coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá, ele só se respira se houver a Sétima Arte sua verdadeira paixão. Viaja de Bette Davis a Emmanuelle Riva com a desenvoltura de quem está em num backstage conferindo a lingerie das coristas. Para ele a seriedade de certos assuntos não teria graça se não pudesse desfrutar dos momentos mundanos, onde o cotidiano depois se converte em anedotário. Daí sua visão peculiar…

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