Se você não conhece, anote esse nome e cuidado com ele: Dean Devlin. O cara é um perigo. O roteirista, produtor e mais recentemente diretor pode deixar o seu mundinho no caos, pois é responsável por destruir o planeta inúmeras vezes em produções apocalípticas, nas quais não resta pedra sobre pedra. Agora, o moço está de novo em cartaz nos cinemas com Tempestade: planeta em fúria” (Geostorm, Warner Bros. e outros, 2017), produção que se ancora no carisma do canastrão Gerard Butler para contar a história de uma estação espacial que, num futuro próximo, controla o clima da Terra e, sabotada, causa cataclismas de dimensões nababescas.

“Tempestade: planeta em fúria” é a nova produção de Dean Devlin que destrói o planeta nos cinemas (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):

Nos anos 1990, Dean Devlin ficou famoso por, ao lado do diretor alemão Roland Emmerich, tirar do limbo um gênero que fez sucesso nos anos 1970: o filme-catástrofe, cujo maior nome havia sido seu equivalente na época, o realizador Irwin Allen, à frente de produções como O destino do Poseidon(1972), Inferno na Torre (1974) e O Enxame (1977).

Convidados de um rega-bofe bacanudo no rooftop de um arranha-céu tentam fugir das labaredas em “O Inferno na Torre”: primeira safra de filmes-catástrofe focava em acidentes localizados, ao invés da atual, que expande a tragédia pelos quatro cantos do planeta. É a globalização! (Foto: Divulgação)

Como roteirista, Devlin fez o dever de casa direitinho, seguindo em parte boa a fórmula que consagrou o estilo, logo na sua segunda empreitada como produtor e terceira enquanto roteirista: sob sua tutela explodiu nas bilheterias um dos grandes blockbusters daquela década, Independence Day (1996), lançando de quebra Will Smith como astro do primeiro time.

Protagonistas: primeiro filme-catástrofe de Dean Devlin, “Independence Day” apostava na dupla formado pelo então novato na telona Will Smith e o veterano Jeff Goldblum. Os dois ocupam,  nas últimas décadas o papel de herói salvador da pátria que antes foi destinado ao astro Charlton Heston em produções como “Terremoto”, “Aeroporto 75” e “A última esperança da Terra” (Foto:Divulgação)

Em meados dos anos 1990, “Independence Day” atualizou para as novas gerações o conceito de catástrofe no cinemão e aproveitou para turbinar o imaginário das mais antigas com os então novíssimos efeitos de CGI. A cada década, o gênero se renova sobretudo pela atualização da tecnologia dos efeitos especiais que tornam sempre o último exemplar do estilo o”mais sensacional e realista” (Foto: Divulgação)

Explica-se: se, vinte anos antes, Allen tinha uma fórmula imbatível para levar o público aos cinemas – uma eletrizante tragédia que expunha as mazelas da voraz sociedade capitalista (como, por exemplo, os convidados da inauguração de um arranha-céu acuados na cobertura por um incêndio causado pelo superfaturamento na sua construção e o uso de material de quinta), efeitos especiais de ponta, narrativa maniqueísta composta por diversas tramas moralistas paralelas e um elenco formado por astros da moda rodeados por talentos pinçados do sindicato das estrelas aposentadas da Era de Ouro –, Devlin aprendeu o ofício amplificando o formato e adaptando-o ao sabor dos novos tempos.

“Inferno na Torre” consolidou o formato de superastros na ribalta contracenando com antigos veteranos de outras décadas. Da esquerda para a direita, Steve McQueen, Robert Wagner, Faye Dunaway, Willia Holden, Jennifer Jones, Fred Astaire, Paul Newman, Richard Chamberlain, Robert Vaughan e O. J. Simpson. Em “Tempestade: planeta em fúria”, Gerard Butler, Abbie Cornish e Jim Sturgess dividem a tela com Ed Harris e Andy Garcia (Foto: Divulgação)

Gerard Butler e a romena Alexandra Maia Lara passam a maior parte do tempo no espaço, longe da fúria dos quatro elementos na Terra, ainda que a estação espacial passe também por maus momentos. Mas, nada que se compare aos flagelos em terra firme (Foto: Divulgação)

Para tanto, com “Independence Day”, Godzilla (1998) e recentemente com Independence Day: o ressurgimento(2016), ele não mediu esforços: continuou escolhendo protagonistas a dedo, selecionando veteranos para papeis de simpáticos coadjuvantes, usando o que havia de mais moderno nos recursos digitais e o principal: sacou que, do final dos anos noventa para cá, reina a globalização. Por isso, as catástrofes precisavam ser devastadoras em dimensões planetárias. Nada de historinha passada num avião à deriva, num transatlântico emborcado por um tsunami ou numa cidadezinha às voltas com implacáveis abelhas africanas: a destruição precisava ser global, quiçá interplanetária. De preferência, com vários cartões postais indo para o brejo, de forma que o público pudesse se imaginar num ragnarok de dimensões transcontinentais.

De novo, o filme-catástrofe virou moda e até hoje sobrevive nas telas ao lado de super-heróis, comédias juvenis, sagas adolescentes e contos de fada de carne e osso. Mas, como a concorrência não é brincadeira –  já basta o companheiro de empreitada Roland Emmerich seguindo à risca o corolário em produções-solo tipo O dia depois de amanhã (2002) e 2012 –, em “Tempestade: planeta em fúria”, Devlin resolveu chegar ao ápice em termos de poder de fogo. No mesmo filme põe abaixo Tóquio, Nova York, Londres, Madri, Moscou, Hong Kong, Dubai, Orlando, um vilarejo da Mongólia, Mumbai, reduzindo drasticamente as opções de excursões oferecidas nos catálogos da CVC.

Tem de tudo! Entre outros flagelos, “Tempestade: planeta em fúria” oferece um cardápio de atrocidades à plateia, desde tornados em Mumbai,… (Foto: Divulgação)

… tempestades elétricas em Orlando, … (Foto: Divulgação)

…calor e fogo em Moscou… (Foto: Divulgação)

… e tsunamis em Dubai! (Foto: Divulgação)

De quebra, ainda destrói o Rio a partir de uma onda térmica de frio extremo que transforma Copacabana na Era de Gelo e caipirinhas praianas em sacolé de limão, enquanto morenas tropicanas fogem da friaca congelante entre ruelas que nada lembram o caos da Figueiredo Magalhães, mas o casario colonial de Havana. Niemeyer agradece.

No catálogo de adversidades de “Tempestade: planeta em fúria” ainda há espaço para uma onda de frio intenso no Rio, fazendo de Copacabana uma réplica do Glaciar Perito Moreno, no sul do Chile. Praticamente, boa parte das cidades-símbolo dos Brics (Brazil- Russia-Índia-China-South Africa) viram de pernas para o ar, e so,mente a Turquia e a África do Sul fora poupadas dessa devastação mundial que deveria deixar Donald Trump com os olhos brilhando (Foto: Divulgação)

Tudo bem aí. Mas, em seguida, foi quando o rapaz perdeu a mão: mexeu na fórmula. Ao tentar inovar no roteiro transformando a inevitabilidade da tragédia em decorrência ou do destino ou do descaso da humanidade com o planeta, o diretor aposta num roteiro de espionagem à la James Bond que desloca os personagens do epicentro do armagedão para a assepsia da estação espacial e das instalações governamentais. Aí, não tem jeito: quem morre nas intempéries climáticas,em solo firme, não é o grupo de tipos que conduz a narrativa, mas ilustres figurantes. Cadê a catarse? Que se exploda!

Em “Tempestade: planeta em fúria”, o clima mundial está nas mãos de uma estação internacional que orbita em volta da Terra e controla a atmosfera através de uma rede de satélites. A empreitada que contou com a união das nações se tornou necessária  depois que as condições meteorológicas do planeta ficaram incontroláveis devido à exploração indiscriminada dos recursos (Foto: Divulgação)

Mesmo assim, até no espaço a coisa fica feia: acidentes e sabotagens acontecem milhares de quilômetros acima da superfície (Foto: Divulgação)

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