Quando se anunciou a volta de Arquivo X” (The X-Files) à telinha em uma inédita 10ª temporada, após um hiato de 14 anos, houve quem especulasse sobre um possível oportunismo da Fox Channel e da produtora Ten Thirteen, responsáveis por esse avassalador sucesso televisivo que durou nove anos (1993-2002), ganhou ou foi indicado a uma enormidade de prêmios importantes como o Globo de Ouro e o Emmy Primetime, gerou dois longas-metragens para o cinema e sobreviveu à virada de milênio se consagrando como uma das séries mais cult da produção audiovisual de todos os tempos.

Havia, claro, a possibilidade de desagradar aos fãs – jovens nerds consumidores que emergiram com a proliferação da TV a cabo e estão para o programa assim como os trekkies para Star Trek ou ainda a legião de espectadores atuais para atrações como Game of Thrones“.

Outro perigo seria “Arquivo X” ter envelhecido e, quem sabe, não atingir em cheio uma nova audiência nascida ou criada após seu ocaso, acostumada a modernidades como o Netflix e aos novos recursos tecnológicos de ponta, para quem a série poderia tem um aroma de naftalina similar ao que “I Love Lucy” tinha para a garotada dos anos setenta. Entretanto, para a turma que assistiu aos dois primeiros episódios dessa nova fornada de seis neste último domingo nos Estados Unidos e no Brasil na noite desta segunda-feira (25/1), não houve decepção.

Arquivo X 2016 10ª temporada final

A volta dos que não foram, pelo menos na memória dos fãs: 10ª temporada de “Arquivo X” se mostra afiada, mesmo com o excesso de Photoshop nas fotos promocionais para eliminar um tiquinho das rugas de um David Duchovny agora cinquentão e de uma Gillian Anderson recauchutada pelo metacrilato (Foto: Divulgação)

Está tudo lá: o clima de conspiração governamental, o aspecto sombrio, a mitologia alienígena fortemente fundamentada em explicações cientificas verossímeis e até o caráter cético (e asséptico) dos personagens principais, os agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson), os quais, mesmo após o terem assumido um caso e terem tido um filho, são mais frios entre si que adolescentes ficantes que se encontram ocasionalmente na balada.

Sobreviveu ainda o visual minimalista dos figurinos, considerando que o seriado se fez na TV na mesma época em que o estilo minimal dominava as passarelas, agora novamente tendência.

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Arquivos minimalistas: síntese televisiva dos anos 1990, a série de sci-fi ressuscita o visual e a atitude minimalista dos protagonistas justo numa década que homenageia a estética de vinte anos atrás (Foto: The X-Files / Divulgação)

O impacto da série original se deve sobretudo à mente privilegiada de Chris Carter, o criador que concebeu a atração e soube perceber, naquela época, que um roteiro bem amarrado era o melhor segredo para fazer sucesso na telinha. Nos idos dos anos 1990, a fantasia na tevê andava fora de moda, meio sem prestígio, e predominavam na programação as sitcons, dramas médicos e tramas policiais. Salvo algumas realizações como os diferentes spin-offs de Jornada nas Estrelas“, a ficção científica nunca chegava ao horário nobre e, quando isso acontecia, muitas vezes tratava-se apenas de um enlatado bonitinho sem nenhum atrativo maior que a audiência comercial e a nota preta no bolso dos realizadores. Após “Arquivo X”, a coisa mudou de figura a ponto de a delirante ficção medieval Game of Thrones ter abocanhado a estatueta de ‘Melhor Drama’ na última edição do Emmy. Algo impensável até algum tempo atrás.

Game of Thrones 2 final

A atriz Emilia Clarke como Daenerys Targaryen ao lado de um de seus dragões em “Game of Thrones”: série arrebatou o Emmy 2015 de ‘Melhor Série Dramática’, além da maioria das categorias técnicas, direção e roteiro, se beneficiando do caminho desbravado por “Arquivo X” na teledramaturgia estadounidense rumo à fantasia (Foto: Divulgação)

Com “Arquivo X”, Carter mudou definitivamente a história da TV, abrindo espaço para a moderna dramaturgia que hoje abunda nos diferentes canais a cabo, cuja excelência técnica e narrativa costuma ser apontada pelos críticos como superior àquilo que se produz na Hollywood contemporânea. Além de ressuscitar a fantasia no horário nobre e embasar o conteúdo em prerrogativas adultas e racionais, o autor ainda imprimiu sua mão firme numa qualidade de acabamento cinematográfico e mandou ver nos roteiros.

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ETs levados a sério: com a paranoia da virada de milênio e o sucesso cinematográfico de “Independence Day” no cinemão, “Arquivo X” apelou para alienígenas malignos cheios de más intenções em relação à humanidade. E, de quebra, fez nascer na teledramaturgia uma forma respeitosa de público e crítica se relacionarem com a narrativa fantasiosa, sem preconceito de gênero (Foto: Divulgação)

E mais: ao invés de capítulos estanques com histórias no formato ‘começo-meio-e-fim’ (que até existiam eventualmente para dar um refresco e acabaram ficando conhecidas como o “monstro da semana”), o autor investiu em capítulos interligados que se conectavam num arco maior de história ao longo da temporada, criando uma forte mitologia.

Ao lado da dupla protagonista, o criador de "Arquivo X" Chris Carter posa para a foto promocional do retorno da série: autor recolucionou na TV a maneira de se contar uma história (Foto: Divulgação)

Tipo galã: Ao lado da dupla protagonista, o criador de “Arquivo X” Chris Carter posa para a foto promocional do retorno da série. O autor revolucionou na TV a maneira de se contar uma história, impactando todo o conteúdo televisivo a partir dos anos 1990 (Foto: Divulgação)

Essa nova forma de contar história na TV, mais parecida com minissérie ou novela, revolucionou os seriados e ficou conhecida como procedural, modificando de vez a produção televisiva. Gerou frutos inesgotáveis e atualmente, de Downton Abbey a Mad Men“, de “The Walking Dead a American Horror Story“, ou de Narcos a Penny Dreadful“, praticamente não existe outra maneira de desenvolver um enredo que não siga esse padrão.

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Existe mais semelhança entre a falida aristocracia rural britânica do início do século 20 e uma trama de conspiração alienígena da virada de milênio do que supõe a vã filosofia dos espectadores: atrações como “Downton Abbey” vieram na carona da forma de contar história em arco narrativo desenvolvida na TV pelo criador de “Arquivo X” Chris Carter (Foto: Divulgação)

Agora, Chris Carter deixa mais uma vez claro que não existe geração de telespectador que não se renda à uma trama bem contada. Se David Duchovny fisicamente envelheceu e carrega rugas na testa e um bigode chinês, também é visível que o botox fez bem à Gillian Anderson, mais plastificada, porém muito mais bonita em sua maturidade do que ruiva alourada dos primeiros anos da série. O charme continua.

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Antes & depois: a norte-americana Gillian Anderson na época em que “Arquivo X” estourou, nos anos 1990 (esq.) e hoje, à beira de completar meio século de vida. O tempo (e os preenchimentos faciais) foram generosos com a moça que, entre o término da atração no início da década passada e sua retomada, deu expediente em filmes consagrados como “O último rei da Escócia” e séries como “Hannibal” e “The Fall” (Fotos: Divulgação)

E, se levar em consideração que, quando “Arquivo X” foi exibida pela primeira vez, a internet engatinhava, os celulares eram analógicos, os efeitos de CGI ainda não tinham atingido a excelência atual e o Google não existia, muito menos as mídias sociais, se manter com viço após esse tempo todo é façanha a comemorar. Ao contrário daquelas bandas de rock que fizeram um tremendo barulho no passado e volta e meia se reúnem para reciclar velhos sucessos, amealhando uns trocados em um show-tributo com aquele jeitão de vovô-garoto que ainda quer se dar bem antes de bater as botas, a nova temporada de “Arquivo X” não se mostra gratuita e, além de reavivar a memória dos fãs, pode conquistar em cheio uma nova safra de espectadores. .

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