O local é emblemático: foi no Arpoador, encravado entre Ipanema e Copacabana, que a bossa nova se fez, enquanto a primeira turma de surfistas pegava onda com seus pranchões de madeira. Pouco depois, pertinho dali entre o píer temporário e as dunas da Gal, o flower power desabrochou made in Rio turbinado pelo desbunde na mesma época em que Ricardo Ferreira substituía as gravatas pelo lifestyle praiano, desestruturando a alfaiataria e mesclando tudo com coloridos bermudões surfwear. Já na virada dos oitenta, o público viram atônitos surgir ali uma tenda com o Circo Voador, epicentro movimentos que impactariam as cenas musical e teatral, como o Rock Brasil e o besteirol. Assim, nada melhor do que eleger esta região que é síntese da Zona Sul – mas que recebe de braços abertos dignos do Cristo Redentor a fina flor de todas as regiões da cidade, do Brasil e do mundo – para receber neste domingo (25/6) a celebração dos 20 anos da carioquíssima Farm. E, numa era pós-olímpica em que a estagnação econômica e a cara de pau dos três poderes (nas esferas federal, estadual e municipal) andam afetando a estima dos cidadãos, a grife ainda se encarregou de cumprir, mesmo se querer, um papel político: há quase um ano não se via pelo Rio tamanho encantamento.

No histórico Arpoador – berço carioca do comportamento nos anos 1950/60/70/80 com modismos que irradiavam para o Brasil – , Marcello Bastos e Kátia Barros promoveram neste domingo evento épico que celebrou os 20 anos da Farm, evocou o brilho do Rio e ainda afirmou que a pluralidade é a tônica da cidade, queiram as autoridades municipais ou não (Foto: Ricardo Toscani / Divulgação) tudo para ficar para os anais da moda carioca (Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

Contracultura: no auge do movimento hippie no Brasil, o Arpoador foi palco da revolução de comportamento que tomou conta do mundo a partir dos anos 1960. As dunas da Gal foram o ambiente perfeito para o amor livre, biquínis de lacinho, sungas de crochê, a apologia ás drogas e muito rock’n’roll. O píer ao fundo, para a construção de um emissário submarino, seria derrubado e 1975 (Foto: Reprodução)

Circo Voador, em 1980: artes cênicas, música pop e praia se encontrava no Arpoador da transição entre desbunde setentista e o Rio de Janeiro new wave (Foo: Reprodução)

Conhecido por abrigar tribos de todos os credos sem preconceitos, o Arpoador acolheu  novas e velhas gerações que puderam conferir o palco, a feirinha, os workshops e a passarela do Arraial Tropical que comemorou a trajetória de sucesso da marca. Tudo a ver. A grife, que vive sob os holofotes por conta das estampas exuberantes, coleções ide, vitrines e, sobretudo pelas cifras, não é muito chegada ao showbiz. Prefere investir na atitude, na globalização de um olhar regionalista do Brasil e na presença maciça dentro e fora do calçadão com seus looks coloridíssimos, não se rendendo ao circo da moda. Não faz publicidade tradicional e é nada afeita às semanas de estilo e fashion shows. Traduzindo: foge da ribalta óbvia, mas é um espetáculo, preferindo trilhar  a vibe de um dos bordões imortalizados pelo apresentador Sílvio Santos. Sim, a Farm é coisa nossa!

Edição endiabrada no desfile-show de 20 anos: o colorido exótico, os prints, exuberantes, florais tropicais e babados babadeiros – clássicos da Farm – contracenaram com temas como regionalismo, astrologia e a presença da grife do Oiapoque ao Chuí. Peças de coleções icônicas foram reeditadas, e moletons, mochilas em fora de maxiflores  e flatforms estampados fora destaques  (Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

Bem verdade que o clima de folia tomou conta não só do Arpoador, mas de boa parte da faixa de areia que vai do início do Leblon ao final de Ipanema, com palcos espalhados que apresentaram performances de novos talentos que têm feito barulho na cidade: Mãeana, Tássia Reis, Julia Vargas, Ava Rocha, Laura Lavieri e Domina Livre.

(Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

(Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

(Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

Mas, a pièce de resistance mesmo foi o badalo naquela pontinha única de Ipanema, a partir de 13h, que ganhou corpo com um desfile numa passarela em forma de onda criada pela arquiteta Bel Lobo e o festão junino que, além de lembrar ao público que quadrilha pode ser coisa boa, trouxe a animação do Forró do Kiko, do Spanta, de hinões do Marcelo Jeneci e do agito do pessoal da Minha Luz é de LED.

Nos 20 anos da Farm, o Forró do Kiko fez o público quicar no rala-e-rola. E, quem sabe, pode até ter deixado quicando alguns fundamentalistas que querem o Rio de burca… (Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

De quebra, além de elevar em muitos decibeis a autoestima dos cariocas, ainda que temporariamente e não intencional, a Farm conseguiu de lambuja fazer aquilo que todo carioca da gema tem reclamado aos quatro ventos, mas pouco se mexido: dar um cala-boca no ausentíssimo prefeito Marcelo Crivella, que mesmo sem explicitar demonstra pretender esvaziar tudo aquilo que é marca da cidade no mundo inteiro, mas  não atende à agenda fundamentalista do grupo religioso do qual faz parte.

Um público eclético compareceu em peso ao evento de 20 anos da Farm, na Zona Sul do Rio. Entre milhares de pessoas, de famílias inteiras com filhos no cangote a abravanados integrantes da turma de modernos agênero, passando pela colorida legião de farmetes, os cariocas provaram que a grife é como Fernanda Montenegro: está acima do bem e do mal (Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

Num inacreditável encontro entre objetivos nada ecumênicos e o esvaziamento da premissa de um estado laico, a Prefeitura tem sido bombardeada por decisões nada hábeis como a diminuição de patrocínio às escolas de samba do Carnaval e a retirada da verba destinada à Parada LGBT  –  eventos lucrativos que, independente de crença, são ótimos tanto para o faturamento da cidade quanto para os cofres públicos. além de permearem a alegria da cidade e desatacarem nossa cultura. Com suas duas décadas de vida e o agito que alegrou o Arpoador neste domingo, sem qualquer tumulto e com a presença de todas as tribos, gostos e orientações sexuais, a Farm não só revelou que é possível fazer moda que concilia o jeitinho étnico e olhar cosmopolita, como mostrou que não existe desgoverno que possa frear a evolução dos tempos.

Veja abaixo mais looks desfilados (Fotos: Ricardo Toscani / Divulgação):

(Foto: Ricardo Toscani / Divulgação)

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