* Por Bruno Muratori, direto de Lisboa

Verdade seja dita: se há cinco boas festas em Portugal, quatro e meia querem ser iguais à Bloop, fato! Mas, se reza forte não basta para justificar o triunfo desse projeto de cena eletrônica na terrinha, qual seria o segredo da maior produtora de eventos de música eletrônica do país? País, aliás, muito apegado ainda a antigas tradições e passando atualmente por forte crise econômica. Portanto, teriam os rapazes da Bloop borogodó ou tudo é fruto do trabalho árduo de uma turma que batalha para por de pé as festas mais badaladas da região? Afinal, sua presença já põe mesa desde de 2007, quando os rapazes ainda formavam a editora chamada Loop, voltada para o hip hop.

Hoje, seus tentáculos se multiplicaram e suas festas lacram do norte ao sul, consideradas sinônimo daquilo que há de melhor em termos de modernidade cult no país. De olho na quantidade de badalos que existem no Brasil – que parecem se multiplicar como Gremlins em banho de cachoeira, alguns de qualidade duvidosa –, ÁS resolveu investigar, pegou o bondinho elétrico e subiu até o bairro de Santos, na capital portuguesa, para levar aquele papo com os DJs João Cruz – o Cruz – e André Henriques que, além de fazer parte do projeto, ainda anima as manhãs dando expediente na rádio RFM. E mais: os dois  se preparam para trazer seu trabalho ao Brasil na virada do ano. Num simpático espaço que também serve como loja de discos de vinil e fitas cassete, a conversa fluiu. Confira!

Bloop Sound System: coletivo de Djs responsável pelas maiores festas de Portugal (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

Bloop Sound System: coletivo de DJs responsável pelas maiores festas de Portugal (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

Conheça abaixo a Bloop Vinyl Shop, misto de quartel general e loja de música do coletivo em Lisboa

“Aos poucos, os agitos foram ganhando uma forma mais orgânica, mais virada para house e techno. E começamos também a editar discos em vinil”, conta André Henriques, um dos cabeças do negócio. “Em meados de 2008, vieram as primeiras festas criadas para promoção dos artistas que editavam suas faixas pela então recém-criada Bloop. Esse foi o embrião de tudo”, conta.

Dois anos depois, já eram realizadas as festas de produção própria, inclusive as matinês – que se tornaram famosíssimas, as primeiras de Lisboa. O estrondo foi enorme. Tanto que, a partir daí, os meninos não pararam mais e atualmente, bem crescidinhos e com uma bagagem de nove anos de estrada, se tornaram referência portuguesa no segmento, sendo respeitadíssimos e até cobiçados além-mar. Sim, a rapaziada anda rodando o taxímetro por aí, tanto que já participou do Sonar, badalado festival de música eletrônica em Barcelona – que rola em junho e é calendário obrigatório para aqueles de ventrículo forte, que têm disposição para segurar três dias de ótima música e jogação intensa.

Hoje, para se ter a dimensão da BloopRecordings, os caras contam por ano com cerca de 25.000 convidados e, no espaço de oito anos, foram produzidas em torno de 200 festas nas principais casas do norte ao sul do país. “Tás a gozaire!”, brinca Henriques, quando seu partner, o DJ Cruz, ressalta os números. Papo reto mesmo, ainda mais considerando que o tamanho físico de Portugal torna os números bem expressivos.

Confira abaixo a galeria de imagensdos badalos da Bloop (Tânia das Fotos / Divulgação)

Nos agitos, predomina a moçada mainstream ou, em tradução mais específica (talvez um dos segredos do sucesso): gente bonita para valer, que segue os rapazes fielmente onde quer que seja a social. “Sempre que anunciamos uma festa, há um reboliço”, conta André Henriques, ressaltando que a escolha dos espaços é outro ponto forte e que eles costumam descolar lugares inéditos onde possam manter o padrão Bloop de originalidade: a última, no mês de setembro, foi uma pool party em Lisboa onde os participantes curtiram o badalo dentro de uma mega piscina, só que sem água. Ótima ideia para a turma da chapinha no cabelo poder curtir a noite sem precisar se preocupar com o look capilar detonado.

Terra firme: o DJ Rompante posa na psicina vazia usada como pista na Bloop Tanque, em setembro (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

Terra firme:  DJ que participa do coletivo, Rompante posa na piscina vazia usada como pista na Bloop Tanque, em setembro (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

Confira o bate-papo abaixo:

ÁS: Cruz, os DJs são sempre o coração de uma festa. Então qual o critério para vocês para manterem esse coração pulsando tão bem com esse coletivo de profissionais que faz parte do projeto?

JC: O critério principal é o amor pela música, e não aquela imagem clássica: o jeito de estar na cabine com os braços levantados, dar um espetáculo e virar celebridade. Nada disso! Gostamos de DJs descontraídos que sentem a música, sem afetações. Um profissional que pesquise muito e compre músicas regularmente tem a minha admiração. Acho forçado quando ouço DJs afirmando que vão comprar música para tocar em determinado dia o badalo. Esse movimento tem que ser contínuo. E é sempre melhor lidar com pessoas sem ego, que gostem de trocar ideias. No mais, DJ que não faz o dever de casa para tocar, só chega na pista, sente a energia, pega os discos na mala e deixa se levar pela emoção que sente dos público, hum…

ÁS: Quantos fazem parte do coletivo e quem são?

AH: Somos seis, fica assim: em Lisboa, eu, o Magazino e o Kaesar; no Porto, Tiago Marques, Serginho e Rompante. Tentamos sempre nos revezar em todas as festas.

ÁS: E como você define o conceito master do trabalho de vocês?

AH: O tempo passou, já são nove anos e agora queremos tornar o conceito mais humano, não queremos fazer o que está sendo feito por aí. É preciso humanizar; não somos leds, ecrãs gigantes. Queremos menos Smartphone e mais gente se relacionando direto. Somos próximos e esse é o grande segredo da Bloop, manter as pessoas próximas do nosso sentido, da nossa essência. Ainda bem que conseguimos ser hoje mais emoção, menos corpo. Tu fostes em nossa última festa e pode ter visto as gambiarras (luzes de quermesse) na Pool Party. É isso! Queremos trazer coisas do nosso povo, das festas populares. Isso está refletido em nossa imagem: nosso logo novo mais fluido, o tipo de pessoa certa à porta da casa de banho e a receber os nossos convidados. E até no formato que os DJs tocam: praticamente em todas as festas o recurso hoje utilizado é o vinil, como nas antigas. Cá para nós, é sensacional!

O logotipo com traços gestuais da Bloop: parte da tentativa de humanizar a cena eletrônica em Portugal (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

Logotipo com traços gestuais da Bloop: parte da tentativa de humanizar a cena eletrônica em Portugal (Foto: Tânia das Fotos / Divulgação)

ÁS: Vocês criaram um jornal mensal, ‘Oito’, agora em sua terceira edição e voltado para a cena eletrônica, adquirido gratuitamente nos locais onde se tornou presença habitual. Como é isso?

AH: No fundo queremos sair dando a música por aí, para que ela de alguma forma volte até nós. Essa é a ideia da publicação…

ÁS: Bom, agora falando especificamente no Brasil. Lá parece haver certa camaradagem entre os produtores, mas no fundo todos querem se matar. Como rola aqui a concorrência e como vocês encaram possíveis festas próximas ao conceito da Bloop?

JC: A concorrência não nos incomoda e uma coisa que reparamos no último ano – e até por conta do pulo de regularidade, produção e ligação com as pessoas que a Bloop deu nestes últimos dois anos – eu acho que isso acabou levando mais pessoas a terem a vontade de criar a sua própria produtora de eventos. De repente, surgiram três ou quatro por aí que estão fazendo eventos válidos, com artistas válidos e caminho sólido. De alguma forma, é bom nos sentirmos incentivadores.

AH: Lisboa se tornou uma capital europeia de música. Nesse ano de 2015, temos vivido o momento de internacionalização da marca. Já sabemos que Londres e Amsterdam querem estar conosco e o Brasil também.

ÁS: Então, diga lá! Qual a carta na manga para o Brasil? Algum projeto em andamento?

AH: Houve um convite simpático do Universo Paralello, na Bahia, para onde vamos levar três artistas: o Magazino, João e o Kaesar, que se apresentam no palco Tortuga (o principal) no dia 2 de janeiro, entre 0h e 6h. Estamos ansiosos!

Eletrônica, suor e ouriço: Universo Paralello Festival, que será realizado na Bahia, entre 27/12 e 4/1, será palco para a primeira experiência da Bloop na Terra Brasiliis (Foto: Reprodução)

Eletrônica, suor e ouriço: Universo Paralello Festival, que será realizado na Bahia entre 27/12 e 4/1, será palco para a primeira experiência da Bloop na Terra Brasilis (Foto: Reprodução)

ÁS: Como vocês percebem a cena eletrônica no Brasil?

JC: Acho que os brasileiros estão começando a nos olhar e buscando música daqui. Temos boa imagem do Brasil nesse campo, mas tenho a curiosa impressão que existe um certo delay. Nunca trouxemos um brasileiro, mas isso pode acontecer porque há muitos bons DJs por lá. Tive o prazer de conhecer o Gui Boratto numa festa que houve por aqui e depois ele apareceu num after no qual ambos iríamos tocar. O papo foi ótimo e achei divertido o interesse dele ao me ver tocar com vinil. Falei da Bloop, ele ouviu algumas faixas que conhecia e até comentou que acredita que o Brasil estagnou um pouco em relação à música.

AH: Ah, creio que, até por conta da variedade de estilos musicais no Brasil, bem diferente de Portugal, a disseminação da música eletrônica seja outra, limitada se comparada com a música mais comercial. Há ritmos bem desenvolvidos pela indústria –sertanejo, pagode, samba, funk –, com tanta força de penetração, que a tal onda eletrônica deve levar mais tempo, até porquê é uma cultura. Existe, claro, tudo aquilo que te faz curtir música eletrônica: as sensações que se sente quando está dançando e todo o ambiente no entorno. Isso é cultural.

Gui Bratto: brasileiro é referência para André Henriques, do Bloop, quando se fala de música eletrônica no Brasil (Foto: Reprodução)

Gui Boratto: brasileiro é referência para André Henriques, da Bloop, quando se fala de música eletrônica no Brasil (Foto: Reprodução)

* Carioca de nascença e cidadão do mundo, Bruno Muratori vive a saga da reinvenção. Em 2009, saiu do Brasil para morar em Paris e se tornou produtor de festas. Depois foi para Lisboa, desvendou a terrinha para os brazucas e renasceu como um porto seguro, fornecendo preciosas dicas da night na metrópole. Há dois anos, retornou ao Rio, trabalhou com publicidade, marcou presença e colaborou com sites de comportamento. Agora de volta à Europa, faz a ponte entre a cultura mainstream de lá e aqueles badalos com jeitinho de alcova.

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