* Por Fátima Telles

Há dois anos, entrevistei Luís Carlos Miele no lançamento da minissérie A Teia“, na Globo, em que era um dos atores. Na ocasião, com 75 anos, continuava com seu bom humor e a vontade de realizar muitos projetos. Casado há 49 anos com a mesma mulher, Anita Miele, esperava completar 50 anos. A pauta “10 Coisas que ainda quero realizar”, acabou não sendo publicada. Numa conversa divertida, comentou que não tinha muito tempo para tantos itens, mas quando elogiei que estava muito bem, brincou: “Ninguém fala isso para o Brad Pitt. Quando se comenta isso de alguém é porque esse alguém não está bem.” Mas logo consertou: “Aproveitando a juventude que você acredita ainda estar vendo, pretendo encontrar um diretor corajoso que me dirija num show que eu possa me expor mais, dando o máximo.” Nesta quarta-feira (14/10), em sua casa, o inesquecível Miele morreu, de mal súbito, aos 77 anos. Nessa entrevista, a homenagem de Ás na Manga ao grande showman brasileiro.

Miele: vida dedicada à música, ao humor, ao showbiz e à arte de saber viver (Foto: Reprodução)

Miele: trajetória dedicada à música, ao humor, ao showbiz e à arte de saber viver (Foto: Reprodução)

10 coisas que ainda quero realizar

  • Estou para fazer o “Bar do Miele”. Tenho 50 anos de bares, onde fiz a maioria das minhas amizades e encontros com as pessoas mais importantes da literatura brasileira, do teatro, do cinema, da música popular brasileira e da minha trajetória com a Bossa Nova. Cada encontro desses rende uma boa história de humor ou algum momento musical interessante. Pretendo fazer no Teatro da Cidade, às 19h, quando as pessoas saem do trabalho. Estarei no palco recebendo as pessoas, num cenário de bar. Tive uma trajetória muito ligada à Bossa Nova, mas dessa vez, por conta da minha juventude atual (risos), e como já convivi muito com o pessoal da Bossa Nova, vou tentar me encontrar com pessoas de outra geração musical, do samba, por exemplo, como Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho. Farei como Nara Leão: vou subir o morro.
  • Queria voltar para a televisão dirigindo um musical, como fiz durante um tempo, com shows de Roberto Carlos, Sérgio Mendes e vários artistas. Acho que está faltando esse espaço na TV brasileira.
  • Espero continuar no cinema. Fiz várias participações em alguns filmes recentemente, todos papéis pequenos, como convém a uma pessoa que só recentemente foi integrada ao elenco de atores, pois sempre fui diretor, produtor ou tinha meus próprios shows.
  • Estou envolvido num projeto com a Fernanda Torres, que fez um sucesso extraordinário com seu livro Fim, e estamos fazendo esse projeto para o teatro.
  • Espero voltar à Nova York sempre.
  • Lula Vieira que era diretor da Ediouro e está abrindo sua própria editora, vai reeditar um livro meu Poeira de Estrelas com novas histórias e opiniões sobre meu trabalho, de uma forma mais divertida. Vai se chamar A Vida é um Show”. Usarei depoimentos sobre mim, de Elis Regina (nunca usados antes), de Afonso Romano de Sant’anna, Ziraldo, Zuenir Ventura, Chico Caruso entre outros.
  • Espero que o dinheiro deixe de me odiar, porque ele me odeia desde o início da minha carreira. Não quero ficar rico, só quero pagar as contas a cada segunda-feira.
  • Espero que no Brasil se cumpra a lei. Quero ver isso. Se isso ocorrer, já estarei satisfeito.
  • Voltar a mergulhar. Já mergulhei, mas tinha muitos problemas, porque a barba atrapalhava a adesão da máscara. Agora, com as novas tecnologias, as máscaras são melhores e vou tentar, para as pessoas falarem: “Olha aquele senhor velhinho mergulhando!”
  • Quero fazer um show que eu me exponha totalmente como nunca me expus. Um show que eu cante, dance, faça rir. Quero encontrar alguém que me dirija e tire de mim o que eu tenho a pretensão de fazer. Uma vez, numa entrevista, me perguntaram: “ Miele, você produz, canta, dança e dirige. É um artista que faz quase tudo? Respondi que não, que eu faço “tudo quase”: quase danço, quase sapateio, quase sou diretor. Fui mal interpretado pelo ator Walmor Chagas que me achou pretensioso, mas ao contrário, fui humilde. Faço “tudo quase”, porque não consegui dar acabamento a nenhuma dessas atividades. E agora espero encontrar um diretor que tire isso de mim, pois nunca fui dirigido, só no Mágico de Oz. Minha ideia é que, se eu tiver tempo, com essa juventude que você acredita estar vendo(risos), encontrar um diretor que tenha essa coragem.
À frenrte do programa "Sandra e Miele", na TV Globo em plenos anos 1970, quando comandava o showbiz na telinha ao lado de Sandra Bréa (Foto: Reprodução)

À frenrte do programa “Sandra e Miele”, na TV Globo, em plenos anos 1970, quando comandava o showbiz na telinha ao lado de Sandra Bréa (Foto: Reprodução)

Conheça um pouco da trajetória de Miele, na ribalta desde os anos 1960:

* Com artigos publicados nas principais revistas do país, blogs e sites, a jornalista tem bagagem em mídias digitais e content marketing, fazendo da delicadeza seu trunfo para extrair depoimentos das celebs. Mas não se deve confundir seu aspecto doce com serenidade. Amante de programas de viagem, a carioca é fogo! Sagitariana com ascendente em áries, defende as filhas com ímpeto de mãe-ursa – “elas são tudo para mim!” – e vai da água para o vinho: saboreia um suco de melancia na voracidade com que se entrega a churrascos.

 

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