Pérola encravada entre Zona Sul e o Centro carioca, Santa Teresa agrada a locais e turistas que não veem a praia como o principal atrativo da Cidade Maravilha. Com seu casario secular, bondinho, ateliês de artistas plásticos, bares e restaurantes pulsantes, o bairro atrai os descolados que curtem boemia com inteligentsia, do tipo que nem sempre vê graça no bum-bum-tchaka do pancadão. E, no quesito gastrô, leva a pecha de pólo de boa comida regional. Pois bem. Apesar de incluir esse tipo de culinária em casas como o agradável Espírito Santa, que traz a boa comida do norte para os paladares do Rio, Santa Teresa quer mostrar que é abrangente, que tem até culinária contemporânea fusion. Por isso, acaba de lançar o festival Santa na Mesa, que vai até o dia 1º de outubro. Vale a subida no morro.

“Precisamos revelar ao público o quanto nossa localidade pode ser inclusiva”, ressalta Natacha Fink, à frente do Espírito Santa, com participação ativa no evento e no Amesanta de Bandeja, associação que cuida dessa revitalização da Santa Teresa e que promove o SNM.

O  bondinho de Santa Teresa, que voltou a rodar até o Largo do Guimarães em janeiro de 2016 – depois de alguns anos fora de circulação – é chamariz para o bairro carioca que se revitaliza com eventos como o Santa na Mesa (Foto: Reprodução)

Com levada retrô e lufada étnica, o Espírito Santa é um dos estabelecimentos que capitaneiam o festival gastronômico Santa na Mesa, em Snata Teresa (Foto: Reprodução)

A ambientação com aroma étnico chama a atenção dos clientes no Espírito Santa, que ainda oferece ao público uma varanda com vista (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

ÁS foi conferir o evento, que tem como epicentro o Parque das Ruínas, que inclui no final de semana aulas de cozinha com duplas de chefs locais e celebs: depois de Alda Maria e Flávia Quaresma, Neto Perrone e Lucinho Lef e Rafael Santana e Andressa Cabral, do Meza Bar, no final de semana que vem serão Natacha Fink e Teresa Corção, Raul Faria e Frederic Monnier, às12h e às 15h respectivamente.

E lá rola a Feira dos Produtores, com o que há de melhor entre produtos orgânicos, cervejas especiais, frutos do mar, cafés, queijos e laticínios, além de barraquinhas das casas da região com seus pratos mais badalados vertidos em comida de rua.

Uma das atrações turísticas do bairro, o Parque das Ruínas é o ponto central, nos finais de semana, do festival de gastronomia que movimenta Santa Teresa em setembro (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

Entre as delicinhas oferecidas, como não amar os açucarados quitutes portugueses da Alda Maria Doces, com bem-casados, toucinhos do céu, ovos moles e outras iguarias que há mais de 20 anos alegram os comensais das festas de casamento? Alda é a terceira geração de uma família portuga que migrou para o Rio. Aprendeu tudo com a avó. Seu filho Pedro, todo tatuado e roqueiro que toca com o Planet Hemp, manda ver no negócio com ela, mas já vem aí a quinta fornada do clã no Brasil: a mulher está grávida de oito meses de um moleque que vai ser sagitário. E vai a dica: o brigadeiro com recheio de ovos moles é de roer a unha. Só mesmo rezando para a prima que vai casar em novembro contratar os serviços da doceira.

Doces portugueses de gema de ovo – como toucinhos do céu, pasteis de Santa Clara e outras gostosuras – são especialidades de Alda Maria, doceira radicada na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa (Foto: Reprodução)

Os integrantes do Amesanta de Bandeja, além de comparecerem no Parque das Ruínas, também estão com seus estabelecimentos à disposição do público no Circuito Gastronômico durante todo o festival. Na verdade, essa entidade de fomento à região, mantida por cerca de 40 empresários da região, está cheia de planos. Sem querer depender apenas de ações governamentais, já pleiteia à Riotur que lhe seja cedida a pitoresca estação de bonde do Largo do Curvelo para que, após encampada, possa ser recuperada e mantida por ela mesma, como um ponto turístico de divulgação das novidades locais. Acredita-se que de novembro para dezembro a estação já esteja operante.

A pitoresca estação de bonde cravada no Largo do Curvelo, em Santa Teresa, vai ser encapada pela associação Amesanta de Bandeja, que vai utilizá-las como local para divulgação das delícias do bairro (Foto: Reprodução)

Entre as maravilhas experimentadas, destaque também para o pastel de camarão do Sobrenatural: duas unidades grandes a R$ 15. Vem o bicho mesmo, na responsa, em porções tenras e graúdas no recheio ao invés daquela pastaroca típica. Ou o bobó de camarão com abobrinha e farofa no lugar do arroz. Imperdível.

Andando pelo bairro, ÁS também provou outra gostosura: a porção de pedacinhos de carne, tipo filezinho aperitivo, super macios, servidos no interior de um pão artesanal que faz as vezes de uma moranga. De desmanchar na boca. Acompanham farofinha e vinagrete. Do Maloca Carioca Gastrobar, um lugarejo simpaticíssimo, apesar de os garçons ficarem assustados quando entra muita gente. O host é o Julio, que ÁS conhece de longa data; o rapaz veio do Recife na década passada para trabalhar como booker numa agência de modelos, mas hoje diversificou. Queridão.

Filezinho acebolado no recheio do pão: prato típico de boteco carioca foi renovado pelo Maloca Carioca, em Santa Teresa. A carne quase derrete na boca (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

Já no Espírito Santa, os bolinhos de tapioca com queijo parmesão e jambú são mara, assim como as rodelinhas de banana com a moqueca de peixe na cobertura  harmonizando o paladar. Um alerta: a caipirinha de frutas vermelhas com espumante é ótima, mas pega, viu?

Bolinho de tapioca com parmesão: iguaria do Espírito Santa é crocante e ainda dá aquela dormência na boca causada pelo uso do jambú (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

Caipirinha dos bem-nascidos: servida em flûte, a bebida tipicamente carioca tem o espumante como substituto da cachaça (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

Dentre os hotéis que estão no circuito, o Hotel Santa Teresa, que surgiu na década passada pelas mãos do François, que recuperou e repaginou o antigo Hotel dos Descasados, continua nos trinques depois que passou para as mãos do Sofitel. Vieram melhorias: o deck da piscina está mais largo, orquídeas envolvem os caules das árvores do jardim, o spa agora é L’Occitane.

Na área aberta principal do Hotel Santa Teresa, a piscina ganhou um deck prolongado que avança até o guardacorpo, onde antes ficava uma faixa de gramado (Foto: Divulgação)

O Térèse, restaurante do resortboutique, e o Bar dos Descasados continuam um arraso, e o welcome drink ao ar livre, com água aromatizada com frutas da estação, mix de sucos detox, cookies caseiros e croissants por si já valeria o passeio.

A decoração descontraída do Bar dos Descasados, no Hotel Santa Teresa, conta com os típicos “surubões”, camas em madeira de demolição que funcionam como sofás avantajados. Os tecidos deles e das cadeiras compõem com os ladrilhos hidráulicos, enquanto as luminárias são feias com bacias de alumínio (Foto: Divulgação)

Mas, também merece menção outro hotel do grupo, ali pertinho, o Mama Shelter Rio de Janeiro, com lifestyle mais endiabrado. É a sexta unidade da rede no mundo. O bar, um achado, tem ótimas cervejas especiais na temperatura certíssima, como a Original. E o pãozinho de linguiça é bem bom.

Vedete dentre os espaços descolados do Mama Shelter, o bar tem iluminação intimista s oferece boas opções de degustação (Foto: Divulgação)

É imperativo mencionar o ambiente, a começar pela decoração do lobby que mescla tradição arquitetônica com pop étnico. Entre o piso com desenho de azulejos de ladrilho hidráulico, em P&B, com motivos marajoaras, e os grafites super mega hiper blaster coloridos criados por índios do Acre, tudo é uma deliciosa mélange de sensações. ÁS recomenda e ainda quer voltar lá, nem que seja para jogar totó no mesão amarelo-canário. Quero.

A decoração artsy da recepção do Mama Shelter Rio de Janeiro conta com pinturas criadas por tribos indígenas da Amazônia e vitrines que oferecem aos hóspedes de itens de higiene personalizados a suvenires diferenciados, passando por artigos de sex shop (Foto: Divulgação)

Totó verde-amarelo: entre as muitas bossas do Mama Shelter carioca, uma mesa de pebolim se destaca na decoração (Foto: Alexandre Schnabl para Ás na Manga)

 

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