O momento não poderia ser mais oportuno. Começa nesse final de semana a exposição que celebra os 30 anos da morte de Jean-Michel Basquiat no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, após passagens por São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. A mostra, que vai até 7 de janeiro, encontra-se em sintonia com o momento político-social do país e da cidade, pelo menos sob a perspectiva do curador holandês Pieter Tjabbes, da Art Unlimited, que negociou as 80 obras exibidas com a família Mugrabi, dona das maiores coleções do artista e de Andy Warhol, amigo e influência direta de Basquiat. “O legado dele é fruto do período em que viveu, dos anos 1970 a 1988, quando Nova York, sua cidade, vivia um contexto de falência econômica e moral, parecido com o que se vive aqui agora. A genialidade desse pintor tem origem no caos urbano”.

O legado de Jean-Michel Basquiat encontra-se pela primeira vez no Brasil, exposto no Centro Cultural Banco do Brasil. “Já houve mostras do artista antes no país, mas nunca desse porte”, afirma o curador Pieter Tjabbes. A obra é “Coelho vermelho” [Red Rabbit], 1982 | Acrílica e tinta a óleo em bastão sobre tela | 162,6 x 175,3 cm | © Estate of Jean-Michel Basquiat Licenciada por Artestar, Nova York (Foto: Divulgação)

Basquiat: sua trajetória fugaz no universo das artes foi resultado do contexto urbano em que o novaiorquino foi criado. muito parecido co o do Rio de Janeiro atual (Foto: Reprodução)

Tjabbes sabe o que fala. Ele começa afirmando que levou tempo para reconhecer e apreciar a obra de Basquiat, que conheceu no início dos anos 1980 e não deu muita bola. “Depois estive com ele na Bienal de Paris, em 1985, e também não dei a devida importância. Em 1996 realizei meu primeiro indulto em relação a esse afastamento inicial. Agora, no Brasil, finalmente faço jus ao seu talento. Essa expo nunca foi feita antes”, ressalta o expert, que já trouxe para cá duas outras que foram sucesso: a de Escher em 2011 e a de Mondrian há dois anos.

Deitado em berço esplêndido: o curador Pieter Tjabbes se beneficiou do sucesso das exposições que produziu, como a de Mondrian, para conseguir por de pé a de Basquiat. “É preciso pensar no público em geral e promover espaços de interatividade para criar apelo” (Foto: Divulgação)

E completa: “Não é fácil para um colecionador particular ceder tal quantidade de peças por um período de um ano. Foi preciso mostrar aos proprietários que aqui teríamos um recorde de público nunca visto. A do Escher é a maior exposição de público da história. No caso de Basquiat, ficamos nas mãos dos colecionadores particulares porque os museus têm pouquíssimos itens seus nos acervos, já que dificilmente investem na aquisição de novos artistas. A ascensão de Basquiat foi meteórica. Quando se deram conta, as criações dele já valiam um absurdo”, arremata ressaltando que, antes do seu desaparecimento súbito por overdose, ele já era equiparado em cifras a baluartes como Jackson Pollock, Pablo Picasso e o próprio Warhol. “Há pouco tempo um quadro seu foi vendido por US$ 110 milhões que, com as taxas e comissões, alcança quase 125 milhões”, dispara.

Sem título [Untitled] (Bracco di Ferro), 1983 | Acrílica e tinta a óleo em bastão sobre tela com suportes de madeira | 183 x 183 cm | Copyright © The Estate of Jean-Michel Basquiat. Licenciado por Artestar, Nova York (Foto: Divulgação)

Para o curador, Basquiat tinha vocação nata para o tipo de espetáculo que hoje é essencial para celebridades de qualquer espécie: “Ele se tornou famoso muito  jovem, morreu com 28 anos, aos 20 já estava ficando bem conhecido. Fez exposições fora dos Estados Unidos quando era ainda um garoto. E tinha um sentido de showbizz em torno de sua pessoa. Warhol, talvez o artista plástico que melhor soube catapultar a sua persona, transformando a sua própria vida em obra de arte, identificou rapidamente esse componente de sua personalidade. Viraram grandes amigos e a sua morte apenas um ano antes da de Basquiat é a prova de sua influência”.

A amizade entre Andy Warhol e Basquiat deu início em 1982 e perdurou até a morte do primeiro em 1987. Foi intenda, fugaz e regada a toda espécie e aditivos químicos (Foto: Reprodução)

Unha e Carne: a relação entre Warhol e Basquiat foi retratado pelo segundo em quadro (Foto: Divulgação)

Esse aspecto midiático de Basquiat se deu em várias direções, segundo Pieter Tjabbes. Ele se refere, por exemplo ao mito que se formou sobre ele ser um morador de rua e grafiteiro. “Ele nunca foi pobre, estudou e bons colégios, teve acesso à informação. E sua família, de imigrantes, pai do Haiti e mãe de Porto Rico, tinha uma boa casa no Brooklyn que hoje não sairia por menos de 3 milhões de dólares, ainda que naquela época essa região não tivesse a valorização atual”.

Artista-ostentação: no auge do sucesso – e do dinheiro! – Basquiat comprava ternos Armani que usava enquanto criava suas obras no ateliê. As barras das calças comumente ficavam respingadas de tinta, como nessa icônica imagem que foi capa do suplemento dominical do New York Times (Foto: Divulgação)

Outra crença que não procede é a de que ele começou fazendo grafite. “Quando adolescente, Basquiat escrevia frases de efeito nos muros abandonados da Big Apple, época do Grande Blecaute. O sul de Manhattan estava em convulsão, com os prédios degradados, de fabricas e escritórios falidos, naquele pedaço que depois ressurgiria como o Soho revitalizado. Em seu estilo artístico, ele trabalhava a inserção de letras e palavras, ocupava a tela inteira sem centro e ainda fazia uso da planificação, sem nenhuma profundidade. Isso tudo, mais a rapidez com que executava as obras, se afinava com a urgência de se realizar rapidamente um grafite, antes que as autoridades pegassem o infrator. Daí essa impressão”, revela o curador.

Almost like a virgin! O habitat novaiorquino de Basquiat era efervescente: eram tempos de disco e new wave, e ele conviveu com talentos do calibre de Keith Haring, de que ficou muito amigo, Grace Jones e Robert Mapplethorpe. E ainda namorou uma Madonna em início de percurso (Foto: Reprodução)

E enfatiza: “Ele foi genial e hoje me redimo. Além de ele introduzir gás novo, com um trabalho visceral, na cena artística novaiorquina fria e cerebral – que incensava movimentos ipo a pop art, o op art, o minimalismo e arte conceitual –, ele ainda foi na contramão do mercado, se afirmando como um exponencial artista negro num meio racista, dominado pelos brancos numa era em que o sucesso só era permitido aos afro-descendentes nos campos da música pop e do esporte”.

JEAN-MICHEL BASQUIAT e ANDY WARHOL | Ataque de coração [Heart Attack], 1984 | Acrílica sobre tela, em duas partes | 194 x 396 cm | Copyright © The Estate of Jean-Michel Basquiat. Licenciado por Artestar, Nova York (Foto: Divulgação)

Serviço

Jean-Michel Basquiat | Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB
De 12 de outubro de 2018 a 07 de janeiro de 2019 – CCBB Rio de Janeiro
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro
CEP: 20010-000 / Rio de Janeiro (RJ)
(21) 3808-2020 | Quarta a segunda, das 9h às 21 horas
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