Em cartaz,Baywatch (“Baywatch: S.O.S. Malibu”, Paramount) é a versão hollywoodiana do seriado-fetiche que dominou a TV entre 1989 e 2001. Série mais assistida de todos os tempos segundo o Guiness, com 1,1 bilhão de telespectadores de 142 países em 1996, era natural que este recorde acabasse levando a atração ao cinema. Considerando o seu DNA – muita testosterona, estrogênio e KY –, o enredo que mostra a musculosíssima equipe do salva-mar em ação na ensolarada Emerald Bay está com a faca e o queijo – ou a camisinha e o gel lubrificante – na mão. E, surpresa: num primeiro momento, a narrativa até consegue dar umas boas braçadas em alto-mar, ultrapassando marolas para mais adiante perder o fôlego sob um tsunami de lugares-comuns.

“Baywatch” 2017 – versão cinematográfica da antigas série de TV continua privilegiando o segredo do seu sucesso:  a boa forma do elenco. Com um porém: hoje, em tempos de internet, a fartura de carne exposta é muito maior… (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):  

Explica-se: enquanto revival atualizado, a produção acerta ao retomar os principais personagens da série clássica sob o bronzeado de uma turma anabolizada como Dwayne “The Rock” Johnson, Kelly Rohrbach, Alexandra Daddario e um Zac Efron aditivado com toneladas de Decarabolin. Ken Humano perde. E, mais que tudo, “Baywatch” impressiona pelo tom de paródia quando se despe do long john para envergar uma boa dose de autorreferência num debochado exercício de metalinguagem. Quando mantém esse clima, ironizando a si própria sem se levar a sério, e incrementando tudo com piadas eróticas capazes de fazer a Pequena Sereia corar, a coisa funciona.

Da esquerda para a direita, o time do novo “Baywatch”, no Brasil “S.O.S. Malibu”: o gordinho cômico Jon Bass, a morena Alexandra Daddario, a loura nórdica Kelly Rohrbach, o californiano de ascendência mezzo negra mezzo samoana The Rock, o estadounidense típico Zac Efron e a meio etíope e meio europeia Infenesh Hadera. Na mistureba étnica politicamente correta dos tempos atuais, só faltou um negro (Foto: Divulgação)

Com Pamela Anderson e David Hasselhoff ao centro, o elenco de “Baywatch” nos anos 1990. Os corpos eram sarados, mas de outra forma. A estética era outra, mas a cultura dos peitões femininos e dos tanquinhos masculinos já imperava… (Foto: Divulgação)

Bem verdade que a maioria das cenas humorísticas de baixíssimo calão já foram vistas em produções que apelavam para o cardápio de libido & mau-gosto, como a mãe das comedias juvenis safadinhas Porky’s (1981) ou pérolas noventistas tipo Quem vai ficar com Mary (1998), dos Irmãos Farrely, e Austin Powers: o agente bond de cama (1999), de Mike Miyers. Mas, até então nunca tinha sido por tal grupo de beldades com tantos atributos físicos. Em se tratando de uma realização cujo elenco quase esbarra nas realizações x-rated da produtora pornô Falcon, que fique claro: quando se menciona atributos, ninguém está falando de talento interpretativo, ainda que The Rock tenha lá seu carisma, Efron tenha potência visual para ser o novo Brad Pitt e Rohrbach e Daddario sejam pitéus.

Química e músculos: a interação entre Zac Efron e Dwayne Johnson é ponto positivo em “Baywatch”. Não que algum dos dois faça algo diferente daquilo que o público está acostumado a ver, mas o diretor de casting John Papsidera soube escalar o elenco… (Foto: Divulgação)

O problema começa quando o diretor Seth Gordon esquece que o grande barato é a dupla deboche & sexo para querer fazer um filme de ação. Aí, o jet ski naufraga sob a obrigação de fazer a trama policial causar. E não seguram a onda nem os espetaculares movimentos em câmera lenta – tão exagerados quanto a peitaca de Pamela Anderson, estrela número um da antiga atração televisiva.

O trio de beldades de “Baywatch”, gostosas, mas menos exuberantes que o time masculino: da esquerda para a direita, Alexandra Daddario, Kelly Rohrbach – que vive C. J. Parker, papel que imortalizou Pamela Anderson – e Ilfenesh Hadera (Foto: Divulgação)

Ao lado de Dwayne Johnson, a super top e angel da Victoria’s Secret Izabel Goulart (segunda da esq. para a dir.) – conhecida como “o corpo” – faz uma ponta em “Baywatch” (Foto: Divulgação)

Vale lembrar que a série fez sucesso como um exemplar tardio do culto ao corpo oitentista, pós-Jane Fonda, com tomadas que capturavam em slow motion os seios serelepes de intrépidas salva-vidas como Pamela, Alexandra Paul e Carmen Electra. Assim como é significativo que o seu ocaso após 11 temporadas coincida com as ascensão da internet, quando acessar de graça todo o tipo de libidinagem online sepultou paulatinamente o faturamento das publicações eróticas impressas, dos peep shows e hoje seja o responsável pela decadência dos moteis.

Como preencher um maiô selvagem: casada com o roqueiro Tommy Lee , do Mötley Crue, Pamela Anderson virou estrela da noite para o dia com “Baywatch” e seu par de seios avantajados entraram para os anais das revistas de celebridades, assim como as surras homéricas que costumava tomar do marido (Foto: Divulgação)

Antes de “Baywatch”, a típica  loura dourada de praia já comparecia em pouquíssimas e tímidas aparições no cinema e TV – se é que sua presença pode ser considerada sutil -, mas só estourou mesmo após o ingresso na série, já na terceria temporada (Foto: Divulgação)

Agora, como os tempos são de empoderamento feminino – tema banalizado pelas mídias sociais –, não pega bem reduzir as mulheres ao papel de sereias embaladas a vácuo por maiôs sumários. Por isso, o remake acaba fazendo a alegria dos públicos feminino e gay ao substituir a fetichização das melancias delas pelos tanquinhos deles. Afinal, hoje os macho men se refestelam em ocupar a posição de corpo-objeto que um dia pertenceu ao mulherio, e basta conferir a quantidade de corpos sarados masculinos em exibição no Instagram. Assim, se a editrix Miranda Priestly fizesse parte deste longa-metragem, certamente diria, se referindo a Efron e  Johnson: “estes são as novas Emillys”…

Grande aposta da geração Y na Hollywood atual e prestes a completar 30 anos, o ex-galinho chicken little das produções da Disney como “High School Musical” anda se esforçando bastante para angariar a posição de neo galã número um da telona. O trabalho de corpo – às custas de muita maromba e, certamente, boas doses de anabolizantes – remodelou seu antigo corpo de twink saradinho vertendo o moço no novo bombadão das telas (Foto: Divulgação)

Mitch Buchannon vezes dois: único personagem que sobreviveu às 11 temporadas de “Baywatch” – interpretado na tevê por David Hasselhoff, uma lenda da boa forma madura até hoje – agora é vivido no cinema por Dwayne Johnson. Entre os dois, além da evolução do tipo de corpo perseguido pela turma da malhação, persiste a canastrice (Foto: Divulgação)

Em tempo: absolutamente imperdível a presença da botocuda, bocuda, peituda e canastrona indiana Priyanka Chopra como a vilã Victoria Leeds. Ela entendeu melhor que ninguém que o divertido mesmo em “Baywatch” é ser fake como uma injeção de metacrilato e, sem medo de ser feliz, a ex-Miss Mundo, cantora, modelo, atriz e estrela da série Quântico” estreia em Hollywood na melhor forma, como quem participa de uma novela mexicana.

Muita mais “Baywatch” que qualquer outra colega do elenco, a ex-Misso Mundo 2000 Priyanka Chopra é a vilã da versão cinematográfica da série. Mas, vai ficar marcada pela opulência digna de Pamela Anderson e Carmen Electra (Foto: Divulgação)

Baywatch 2017 (Foto: Divulgação)

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