Como bom francês, o fotógrafo Stéphane Munnier se amarra numa corzinha. Negro é com ele mesmo, apesar de ser mais branco que cera de vela e ter uma barba que por pouco não resvala em Van Gogh. No Rio desde 2003, ele veio buscar aprendizado com Mestre Marrom, bamba da capoeira. O assunto lhe é tão caro quanto grandes angulares e retratos intimistas. A viagem, que era para durar dois meses, virou um ano e já se passam 14 anos de paixão inveterada pela Cidade Maravilha Mutante. Agora, ele lança no Centro Cultural João Nogueira (Imperator), nesta terça-feira (13/6) às 19h, a expô Encontros – olhares e expressões da cultura popular“, que traz cliques dessa gente sofrida que quer mostrar seu valor. Em comum entre os retratados, pelo menos a negritude, mas também o ar de dignidade que Stéphane sabe captar como ninguém, num misto de arte com registro etnográfico.

Ao lado da namorada, a modelo Aline Carmo (à esq.), Stéphane Munnier (à dir.) se encarrega de registrar a beleza de gente comum de pele negra em suas andanças pela cidade (Foto: Reprodução)

A curadoria é namorada, a modelo negra Aline Carmo, que encantou a diva Grace Jones em sua última passagem pelo Rio em novembro. Na ocasião, ela ganhou até um beijo na boca em pleno show. Stephane estava ali, babando durante o inesperado encontro lesbian chic, e registrou o momento.

Expô “Encontros – olhares e expressões da cultura popular”, que traz fotografias de Stéphane Munnier, estreia nesta terça-feira (13/6) no Imperator (Foto: Divulgação)

Mas, antes da capoeira, ele já se encantava com outras manifestações: “O surfe e o skate me levaram à Califórnia, Havaí e Austrália antes de pisar no Rio 40º. Com sua estética particular, descobri o mundo das curvas magníficas. Mas, hoje, em vez de manobras radicais, prefiro clicar o povo do Rio e seu estilo ímpar”, conta Stéphane. “Isso é espetacular para mim…”, divaga.

Expô “Encontros – olhares e expressões da cultura popular”, que traz fotografias de Stéphane Munnier, estreia nesta terça-feira (13/6) no Imperator (Foto: Divulgação)

Por “povo do Rio”, ele toma as pessoas desconhecidas que circulam pela urbe, sempre negros. “Comecei a estudar capoeira em 1998 e me encantei pela cultura afro-brasileira”, revela com aquele verve de Pierre Verger do novo milênio. Na mostra, capoeiristas, bailarinas e músicos de várias gerações encaram a lente do fotógrafo, tendo em comum a cor da tez, provando que talvez Elza Soares esteja errada e que a carne mais barata do pedaço quem sabe não seja a negra. Sim, Stéphane sabe imprimir realeza em quem vem de baixo, e qualquer patinho vira filé mignon sob seu olhar.

Expô “Encontros – olhares e expressões da cultura popular”, que traz fotografias de Stéphane Munnier, estreia nesta terça-feira (13/6) no Imperator (Foto: Divulgação)

“Foi através da capoeira que me apaixonei pelas pessoas, pelo país e pela cultura. Através destas  manifestações populares, quase todas na cidade do Rio de Janeiro, experimento a beleza e a diversidade, e também a expressão de gente que é  esquecida, oprimida, mas tem seu valor”, entrega, se orgulhando de ir na contramão do espetáculo. “Todos só querem registrar celebridades. Meus anônimos são célebres para mim”.

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