Quando a cerimônia do Oscar deu partida na noite desse domingo (24/2), em Los Angeles, pouca coisa tinha a ver com o burburinho que tomou conta da premiação há três anos. Na ocasião, a hashtag #OscarSoWhite (Oscar muito branco) dominou as mídias sociais numa edição na qual não havia indicação alguma para filme de temática negra ou negros indicados nas categorias principais. De lá para cá, muita coisa mudou: esse ano, quatro produções sobre o assunto concorreram a ‘Melhor Filme’: a comédia “Green Book – o Guia(Green Book, , de Peter Farrelly, cinco indicações e três vitórias), que ganhou o título de ‘Melhor Filme’; o drama “Se a Rua Beale falasse(If Beale Stree could talk, três indicações e uma vitória, do diretor que arrancou o Oscar de “La La Land” há dois anos, Barry Jenkins, com “Moonlight: sob a luz do luar“), o ótimo “Infiltrado na Klan(BlacKkKlanman, seis indicações e uma vitória, do celebrado Spike Lee, que concorreu pela primeira vez como ‘Melhor Diretor’); e “Pantera Negra(Black Panther, sete indicações e três vitórias, de Ryan Coogler, leia mais aqui), primeira vez que um filme de super-heroi disputou a principal categoria.

Passado na Nova York do início dos anos 1970 durante o processo de emancipação social da população negra, o drama romântico “Se a Rua Beale falasse” é tão seco, pessimista e realista quanto a produção anterior de Barry Jenkins, “Moonlight”‘, se distanciando de outras produções recentes que abordam delicadamente o tema da segregação racial, como “Green Book”, Histórias cruzadas” (2011) e “Estrelas além do tempo” (2016) (Foto: Divulgação)

Além disso, desde o red carpet Regina King e Mahershala Ali já eram fortes candidatos a saírem do Teatro Dolby com as estatuetas, respectivamente de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ e ‘Melhor Ator Coadjuvante’, no bolso: em janeiro, ambos paparam essas categorias no Globo de Ouro pelos mesmos papeis, com um detalhe: o astro negro que é bola da vez, participando até de blockbusters como “Alita: Anjo de Combate” (em cartaz, leia mais aqui) já havia arrebatado esse prêmio há dois anos por “Moonlight”. Os dois deixaram o recinto devidamente agraciados.

Pérola maior de “Se a Rua Beale falasse”, Regina King rouba a cena como a mãe de uma família negra do Bronx que procura a justiça para solucionar o caso do namorado da filha grávida encarcerado por um crime que não cometeu. Esta realização não se prende ao artifício de cativar o público através do romance dramático, mas pretende ser um soco no estômago, emoldurada por uma excelente reconstituição de época (Foto: Divulgação)

De fato, a presença negra a granel na lista de indicados da celebração é nova no histórico da Academia das Artes e Ciências de Hollywood. Veio na rebarba do ativismo nas redes sociais, temperada pelo medo do establishment de o evento ser rejeitado em números, na audiência televisiva das premiações – e no faturamento com os patrocinadores –, causando o maior prejuízo caso a celebração se contrapusesse às demandas surgidas pelas novas gerações de consumidores que têm como centro da vida a interação digital.

Água e vinho: comédia leve feita para agradar um público piegas “Green Book” é o tipo de narrativa edificante que a Academia tanto aprecia, chupando de canudinho a fórmula incessantemente copiada dos opostos que se atraem após a repulsa inicial e que fez a carreira de diretores lendários como Frank Capra (Foto: Divulgação)

Surgiu aí um informal sistema de cotas nas indicações para o prêmio máximo do cinema, cuja validade precisa ainda ser muito discutida, já que para ser indicada a produção precisa ser boa, e não apenas ocupar um nicho de engajamento social, sem necessariamente preencher os quesitos da meritocracia. Hoje, o Oscar inclui quase religiosamente no páreo minorias como diretoras mulheres e artistas negros, gays, ou aqueles de origem  latina ou árabe, como o caso do filho de imigrantes egípcios Rami Malek, que faturou agora ‘Melhor Ator’ por uma atuação mesmo brilhante, aliás, em Bohemian Rapshody“.

Rami Malek celebra sua vitória na Academia ‘Melhor Ator’ por seu Freddie Mercury de “Bohemian Rhapsody”, seguindo a trajetória que vem lhe concedendo uma coleção de estatuetas desde o início de janeiro, quando começou a temporada de premiações (Foto: Divulgação)

Independente da importância política desse tipo de contemplação e de as realizações serem realmente de fato grandes filmes, alguns estão ali mais pelo tititi que causam. Algo similar a convidar influencers para eventos pela quantidade dos seus seguidores, sem saber se aquilo realmente traz retorno ou se eles escrevem ou não bullshit nos seus instagrams.

Conduzindo Mr. Shirley: em “Green Book – o Guia”, Viggo Morensen é o italiano grosseirão que é contratado por um refinadíssimo pianista negro de Nova York para conduzi-lo em uma turnê pelo racista sul dos Estados Unidos,no início dos anos 1960 (Foto: Divulgação)

Negro no banco de trás: ao revelar ao público a história real (romanceada, diga-se de passagem) do sofisticado e esnobe músico Don Shirley, o longa-metragem de Peter Farrelly (“Quem vai ficar com Mary”, 1998) se encarrega de estabelecer um paralelo entre o protagonista afro-americano e seu chauffeur branco e a senhora judia racista (Jessica Tandy) e seu motorista negro (Morgan Freeman), do clássico “Conduzindo Mrs. Daisy”, exibido exatos 30 anos antes (Foto: Divulgação)

Sagaz e instigante, “Infiltrado na Klan” é outra narrativa dessa safra do Oscar que se baseia numa história real. A diferença entre essa pequena obra-prima do irreverente Spike Lee e “Green Book” é a exata dimensão que separa a pieguice de apelo fácil e o cinismo mordaz, cada uma atingindo um certo tipo de plateia. Curiosamente, as duas saíram vitoriosas da cerimônia da Academia na categoria ‘Roteiro’, a primeira por uma adaptação e a segunda por uma história original (Foto: Divulgação)

Por sinal, de Alfonso Cuarón com “Gravidade(Gravity) em 2014, com sete Oscars, a Guillermo Del Toro ano passado com a “A forma da água(The Shape of Water), com quatro, os mexicanos têm se dado muito bem nos últimos anos. Nestes cinco últimos, quatro diretores nascidos abaixo do Rio Grande venceram a categoria. Em 2019, não foi diferente: Cuarón repetiu a façanha com “Roma” que, com suas 10 indicações não fez nada feio: além da direção, saiu vitorioso em ‘Melhor Fotografia’ e ‘Melhor Filme Estrangeiro’, confirmando, a despeito da qualidade do longa, a percepção de que a ordem é resistir nesse momento em que Trump anda rodando a baiana para construir o tal muro.

Produção da Netflix, “Roma” também introduziu os descendentes da população indígena original das Américas na rota das minorias que concorreram ao Oscar 2019. A mexicana novata Yalitza Aparicio foi uma das cinco candidatas a ‘Melhor Atriz’    (Foto: Divulgação)

Entre os as celebridades de língua nativa espanhola que apresentaram o Oscar, inclusive os mexicanos Diego Luna e o próprio Del Toro, Javier Bardem mandou o recado de Hollywood para o homem mais poderoso do mundo: “Não há fronteiras nem muros que possam segurar o talento”.

Mexicanos e negros: numa noite que procurou se mostrar inclusiva, o espanhol Javier Bardem e o celebrado Samuel L. Jackson, astro-fetiche de diretores cult como Quentin Tarantino, foram algumas das escolhas dos organizadores para estampar a pluralidade (Fotos: Divulgação)

Isso sugere muito papo de alcova entre os organizadores da cerimônia, cobrados até a raiz dos cabelos pelos executivos de contas das emissoras de TV para criar um espetáculo que, enquanto produto, dê um lucro danado. Números que se traduzem nos milhões de espectadores ávidos por verem realizados seus anseios previamente expressos nas mídias digitais. E que assim, óbvio, deixem os patrocinadores das emissoras espocando champanhe. O que se vê agora – e isso pode ser aquele tiro no dedão do pé –, é um longa por vezes concorrer numa determinada categoria porque ocupa aquele espaço perfeitinho para agradar aos usuários das redes sociais, espécie de premiação tão “chapa branca” quanto a crítica de moda que não detona desfile ruim porque a grife é anunciante da revista.

No caso dos filmes de temática negra dessa vez, é visível o benefício vindo do lobby das majors da indústria. Merece o Oscar de ‘Melhor Lobista’ o time de publicistas da Disney que fez com que o público de “Pantera Negra”, um ótimo filme de super-heroi, acreditasse tratar-se de uma produção seríssima que lida com a questão racial nos tempos atuais, brecha encontrada pelo estúdio para garantir-lhe uma vaga no bonde dos indicados a ‘Melhor Filme’.

Com elenco quase totalmente negro, “Pantera Negra” foi o termômetro do quanto os filmes de temática racial negra são a cereja do bolo nessa temporada. É a primeira vez que o assunto é visto como mote central num filme de super-heroi e que este gênero concorre a ‘Melhor Filme’ no Oscar, ao lado de uma comédia suave, outra de humor negro e um drama (Foto: Divulgação)

Obviamente, é um feito considerável a presença, dentre os oito indicados à categoria mais importante da noite, deste exemplar do cinema-pipoca – gênero que hoje sustenta a receita anual dos estúdios, amealhando uma nota preta, sem trocadilho. Sobretudo quando se leva em conta o tititi geral que nocauteou a intenção frustrada dos realizadores estabelecerem um prêmio para ‘Melhor Filme Popular’…

“Pantera Negra” foi para a casa com a sacola cheia de prêmios charmosos na noite do Oscar: levou trilha sonora, direção de arte e figurino (Foto: Divulgação)

Como se não bastasse, a 91ª edição do Oscar também foi recorde no número de apresentadores negros. Entre os muitos, Samuel L. Jackson, Chadwick Boseman, John Lewis, Whoopy Goldberg, Tessa Thompson, Michael B. Jordan, Pharrell Williams, Angela Bassett, Queen Latifah, Jennifer Hudson, Tyler Perry, Danai Gurira e até a desportista Serena Williams. A carne mais barata do pedaço não é mais a carne negra.

Uma das tenistas mais famosas da história, com 23 torneios de Grand Slam em simples ganhos no currículo, Serena Williams foi a negra celebridade escolhida para estabelecer a ponte entre o esporte e o showbizz no Oscar 2019 (Foto: Divulgação)

Ainda assim – e apesar dessa “novidade” midiática –, o surgimento de produções de temática negra está longe de ser uma invenção da década permeada pela mobilização a favor do politicamente correto. Eclodiu bem antes, com a evolução dos anseios do público na chamada Nova Hollywood, termo cunhado na virada dos anos 1960/70 quando, para concorrer mais uma vez com o apelo da televisão e com os novos comportamentos sociais surgidos com a revolução de costumes que ameaçavam a venda de ingressos nas salas de exibição, o cinema americano “aposentou” em escala industrial antigos astros e estrelas do star system, substituindo-os por novos rostos mais próximos da realidade da plateia.

Esse novo panteão de atores passava ao largo do caráter olimpiano do time forjado durante a Era de Ouro. Agora eram gente como a gente. E foram lançados no atacado, dispostos como acepipes num vasto cardápio iguarias: narrativas palatáveis que reproduziam o dia a dia de um público que cada vez menos pagava o tíquete para viver escapismos fantasiosos, só abrindo a carteira para vivenciar o seu próprio cotidiano nas telas em histórias com as quais se identificava intimamente.

Com estrelas que se fizeram como efígies de uma Hollywood realista, como Jane Fonda, e astros que perfizeram a passagem da Era de Ouro para a Nova Hollywood, “Caçada Humana” é uma produção típica do anos 1960, quando Hollywood se pretendia madura, antes do surgimento dos blockbusters que paulatinamente infantilizariam a produção cinematográfica americana (Foto: Reprodução)

Nesse casamento da indústria cinematográfica com a realidade, sobressaíram várias realizações que lidavam com a questão do racismo, fosse na exposição de suas feriadas, fosse no aspecto revolucionário de mostrar brancos e negros interagindo dentro de novos paradigmas.

O primeiro encontro do namorado negro com os pais da moça branca que sequer desconfiavam carregar nas veias o racismo é a premissa de “Adivinha quem vem para jantar”, que põe face a face o então símbolo maior do negro de sucesso reconhecido pelo mainstream – Sidney Poitier – com dois astros de grandeza maior do cinemão, Katherine Hepburn e Spencer Tracy. Era 1967 e, fora dos cinemas, a Guerra do Vietnã estava no auge e a pancadaria entre bancos e negros já era fato no processo emancipatório destes últimos em solo americano (Foto: Reprodução)

Exemplos clássicos dessa safra são produções como “Caçada Humana” (The Chase, de Arthur Penn, 1966), com um elenco majoritariamente branco encabeçado por Marlon BrandoRobert Redford Jane Fonda inserido num drama pungente; “Adivinha quem vem para jantar” (Guess Who’s Coming to Dinner, de Stanley Kramer, 1967), no qual Sidney Poitier interpreta o namorado negro de uma moça loura (Katherine Houghton) que vai apresentá-lo aos pais, racistas velados vividos por Katherine Hepburn e Spencer Tracy;  e “100 rifles” (1969), trama que trazia o sex symbol supremo da época Raquel Welch performando tórridas cenas de sexo com o ator negro Jim Brown.

O romance interracial entre a morena Raquel Welch e o negro Jim Brown deu o que falar no final dos sixties e sucedeu em apenas um ano, na tela grande, o beijo entre uma negra (Nichelle Nichols)  e um branco (William Shatner), de “Star Trek”, que impactou a telinha (Foto: Reprodução)

Apesar de todo esse bochicho, havia limites. A sociedade do viradão dos setenta ainda estava se acostumando com a recente igualdade de direitos conquistada pelos negros, o black power se concentrava no gueto musical da Motown, Michael Jackson era criança e os Panteras Negras ainda faziam o maior estrago num Estados Unidos no qual Martin Luther King havia morrido há pouco.

Entre o Oscar de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ dado a Hattie McDaniel por “… E o vento levou!(Gone with the Wind) em 1940 e o recebido por Sidney Poitier em 1964 por sua atuação em “Uma voz nas sombras(Lilies of the Field) passou um quarto de século.

Hattie McDaniel recebe o Oscar de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ das mãos de Fay Bainter, Criticada pelos negros do seu tempo de só fazer papeis de empregada – aquilo que de fato lhe era oferecido pela indústria cinematográfica -, não se fez de rogada:  “Por que reclamaria em ganhar US$ 700 por semana para interpretar uma doméstica? Se não o fizesse, eu estaria ganhando US$ 7 por semana sendo uma”. (Foto: Reprodução)

Ao lado de mitos como Gregory Peck (à esq.), Sidney Poitier comemora o inédito Oscar de ‘Melhor Ator’ para um negro em meados dos anos 1960 (Foto: Reprodução)

E quase quarenta anos entre esse momento e o ápice, na noite de 2002 em que três negros subiram ao palco do Teatro Kodak para serem homenageados por seus pares: além do Oscar honorífico concedido a Poitier pelo conjunto da obra, Halle Berry e Denzel Washington puseram na estante os prêmios de ‘Melhor Atriz’ por “A última ceia(Monster Ball, 2001) e ‘Melhor Ator’ “Dia de treinamento” (Training Day, 2001), seu segundo Oscar e o primeiro com ator principal.

A vitória simultânea de Denzel Washington e Halle Berry no Oscar que marcou a virada do milênio foi o início de um processo que aos poucos inseriria os astros e atrizes afrodescendentes no mais alto patamar do olimpo hollywoodiano: o de premiados da Academia (Foto: Divulgação)

De lá para cá, os negros foram aparecendo com mais frequência nas listas de vencedores do prêmio da Academia aqui e ali: Jamie Foxx (“Ray“, ‘Melhor Ator’) e Morgan Freeman (“Menina de Ouro“, ‘Melhor Ator Coadjuvante’) em 2005, Jennifer Hudson e 2007 (“Dreamgirls“), Octavia Spencer em 2012 (“Histórias cruzadas“), Lupita N’yongo (“12 anos de escravidão“, que levou ‘Melhor Filme’ e ‘Melhor Diretor’ para o negro Steve McQueen), Viola Davis em 2017 (“Um limite entre nós“). Mas até então, nunca com o prestígio com que bateram ponto neste 91ª cerimônia do Oscar. Black is beautiful.

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