Depois de filmes sombrios que não agradaram os fãs (“O Homem de Aço“, “Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida“) e uma bola dentro com Mulher-Maravilha“, a Warner Bros./DC Comics prova que encontrou seu eixo em Liga da Justiça” (Justice League, 2017), abrandando o clima realista sombrio e assumindo aquilo que os fãs sempre quiseram ver: uma versão carne & osso de desenhos animados tipo “Liga da Justiça Sem Limites“, turbinada por efeitos especiais de ponta. Deu certo.

“Liga da Justiça”: depois de décadas para trazer a equipe de super-heróis mais famosa do mundo à telona, a Warner Bros. – após alguns desacertos anteriores e o sucesso de “Mulher-Maravilha“, há seis meses – investe em trama descomplicada como um bom cartoon das manhãs de sábado. No périplo para por a produção e exibição, foi mais de uma década de roteiros inacabados e trocas de diretores. Em 2007, uma versão capitaneada por George Miller  (“Mad Max”) quase virou realidade, mas  greve dos roteiristas nocauteou o Superman e cia. (Foto: Divulgação)

Confira o trailer oficial legendado (Divulgação): 

A produção foi cercada de controvérsias, culminando no abandono do barco por Zack Snyder, que vinha dirigindo as adaptações dos encapuzados da DC na telona desde Watchmen (2009). Ele pulou fora por “problemas pessoais” (o suicídio da filha) no final de maio e foi substituído por Joss Whedon (à frente dos dois primeiros Os Vingadores“, da concorrente Marvel/Disney), que regravou de última hora, com a velocidade do Flash, uma penca de cenas e assina o roteiro junto com Chris Terrio.

“Wachtmen”(2009): longa-metragem sobre uma possível realidade de um mundo tomado por vigilantes mascarados – baseada na obra-prima das HQs criada por Allan Moore e Dave Gibbons nos anos 1980 – foi levada aos cinemas por Zack Snyder, após quase 25 anos de tentativa. O diretor conseguiu recriar no audiovisual a complexa narrativa quadrinesca – algo tido como impossível pelos fãs – e algumas soluções do roteiro se mostraram melhores que as da trama original. O problema veio depois: Snyder passou a acreditar que o tom soturno da adaptação deveria ser reproduzido ad eternum nas produções subsequentes da DC no cinema (Foto: Divulgação)

Não se sabe o que é mérito de quem, mas, ao abrir mão do realismo cínico pessimista de Allan Moore (autor da graphic novel “Watchmen”) para assumir a atmosfera de espanto mitológico de outro quadrinista incensado pelos nerds – Alex Ross, autor de pérolas dos gibis como Justiça e Reino do Amanhã –, a produção encontra o caminho das pedras, ou melhor, das nuvens, já que vários dos heróis voam. Para o alto e avante!

As imagens de divulgação de “Liga da Justiça” bebem da fonte das pinturas clássicas realistas que marcam o trabalho do quadrinista Alex Ross, expoente do setor reverenciado pelos fãs. Por sinal, o autor, nascido em 1970, reconhece em entrevistas que sua inspiração sempre foram os desenhos animados do super grupo nos anos 1970/80 (Foto: Divulgação)

O semblante altivo dos personagens, como se fossem divindades olimpianas, são a marca maior das ilustrações de Alex Ross. O efeito final mitológico é inegável (Foto: Divulgação)

“Liga da Justiça” é desenho animado de boa cepa, só que em filme: despretensioso, maniqueísta, pueril e otimista, como seria de se esperar desse tipo de fantasia, sem se contaminar com as complexidades político-existenciais que somente uma obra seminal – mas única! – como “Watchmen” poderia ter. Essa nova impressão, presente já nos cartazes de divulgação à la Alex Ross, dá a dica de que a simplificação tomou conta dos filmes de super-herói do estúdio e que nenhum executivo do seu alto escalão hoje está disposto a perder seus super poderes investindo em justiceiros mascarados que surpreendam o público com dilemas interiores dignos de Woody Allen. Tá bom, mano!

Versão quadrinizada de “Liga da Justiça” revela o quanto a preocupação em atualizar os uniformes dos super-heróis da DC Comics, tendo em vista a busca por um tom mais realista no cinema, precisou se adaptar  ao aspecto mitológico desse tipo de narrativa    (Foto: Divulgação)

O clima de camaradagem do desenho animado “Liga da Justiça Sem Limites”, em exibição na televisão na aurora do novo milênio, acabou se tornando inspiração para o filme live action que agora chega aos cinemas (Foto: Divulgação)

Após sua reformulação, em 2007, a Liga da Justiça revela sua imensa trupe de integrantes. Obviamente, os fãs esperam mais para frente encontrar na telona o grupo em todo esse esplendor (Foto: Divulgação)

Existem falhas, óbvio: a narrativa não é um primor e a trama boba transforma o simples em simplório. Pior: persiste o excesso de CGI na construção do vilão Lobo da Estepe, que desperdiça a presença do ótimo Ciarán Hinds (o Julio Cesar de “Roma“, da HBO), tal qual o Apocalipse de “Bvs.S”, a entidade demoníaca de “Esquadrão Suicida” e o Ares de “Mulher-Maravilha”, todos com acabamento de game. Sua irrealidade plástica afasta a catarse do público naquilo que deveria ser o clímax, exatamente o mesmo calcanhar de aquiles do longa que consolidou a princesa amazona da diretora Patty Jenkins como um dos grandes sucessos da indústria neste ano.

O vilão Lobo da Estepe foi selecionado para antagonizar a Liga da Justiça na sua primeira versão live action para Hollywood. Ele foi recriado digitalmente a partir dos movimentos do ator Ciarán Hinds (à direita, numa cena em “Game of Thrones”). Não é um personagem relevante na mitologia da DC Comics… (Fotos: Divulgação)

Chico Buarque é poderoso: as cenas adicionais acrescentadas por Joss Whedon após assumir a batuta de “Liga da Justiça” ganharam contornos folclóricos nos tabloides. Intérprete do Superman, Henri Cavill portava na época das refilmagens um farto bigode de cantor da MPB o qual, por questões contratuais com a produção de “Missão Impossível 6”, não poderia ser raspado. Resultado para driblar o impasse: eliminar a taturana indesejada na computação gráfica, gastando uma nota preta! (Foto: Divulgação)

Ainda assim, a DC mais uma vez mostra que, apesar de todo o mimimi prévio, as diretoras de casting Kristy Carlson e Lora Kennedy sabem escolher elenco. No início, os astros parecem mais inadequados para seus  papeis que Michael Keaton para o Batman (1989) de Tim Burton, mas… Que bom que as meninas, na labuta desde “O Homem de Aço”, sempre ligam o F@d%-s*! O resultado final prova o contrário.

Barba e bigode: ao invés do visual asséptico e até ridículo da sua caracterização original, o Aquaman de “Liga da Justiça” assume o aspecto de Netuno/Rei dos Mares que o personagem ganhou nos quadrinhos e desenhos animados na virada dos anos 2000. A ousadia acabou sendo um acerto, pois permitiu que Jason Momoa, o Khal Drogo de “Game of Thrones” se adequasse ao papel. Seu carisma, assim como o de Gal Gadot, é ponto alto da realização (Foto: Divulgação)

Assim como a Diana Prince de Gal Gadot e o Bruce Wayne de Ben Affleck receberam saraivadas de críticas só comparáveis aos disparos de guarda-chuva-metralhadora do Pinguim, mas, no frigir dos ovos se revelaram carismáticos acertos, o Aquaman viking, beberrão e heavy metal de Jason Momoa bate um bolão e a gente até esquece que ele não é o louro nórdico 11.0 da L’Oréal Imedia como manda o figurino.

Envergando a armadura de um ex-atleta universitário que se vê como aberração após o acidente que lhe mutilou na mesma proporção que lhe deu poderes, o Ciborgue de Ray Fisher se equipara à profundidade de uma piscina de plástico na varanda, mas ninguém vai ao cinema ver Liga da Justiça esperando encontrar Hedda Gabler, de Ibsen.

E a adição de elementos do terceiro Flash dos quadrinhos Wally West na composição da persona de Barry Allen se encarrega de acrescentar tempero millennial ao personagem, que ganha graça na pele do bonitinho Ezra Miller. Com aquela boca bem desenhada, pode rolar uma penca de garotas e garotos querendo dar beijo na boca, assim como quiseram fazer com Tobey aguire quando ele puxou para cima a máscara do Homem-Aranha par irar a casquinha de Mary Jane (Kirsten Dunst). Ah, os hormônios… 

Gay assumido e hipster vindo de produções cult como “Precisamos falar sobre o Kevin” (2011), Ezra Miller vem dando expediente em blockbusters da Warner, tipo “Animais fantásticos e onde habitam”. Ele é a ponte entre a quase sessentona Liga da Justiça, criada por Gardner Fox em 1960, e as novas gerações da plateia, equivalendo neste filme àquilo que Tom Holland representa no rejuvenescimento do Homem-Aranha (Foto: Divulgação)

Mas, o melhor mesmo é conferir que o Superman de Henri Cavill encontrou o tom, e isso não se resume ao fato de que o uniforme agora explode em azul e vermelho. Como símbolo supremo da esperança, sob a forma de divindade moderna, ele agora é exatamente aquilo que se espera, tendo bastado um tempinho no caixão para renascer em toda a sua glória. Aleluia, nem kriptonita seria capaz de tirar o seu brilho! Falecido em 2004, Christopher Reeve, o eterno filho de Kripton dos filmes de 1970/80 deve estar orgulhoso do sucessor.

Rainha da porra toda: o jargão, hoje em voga como uma das mais populares gírias millennial que tomam de assalto as mídias sociais, se aplica perfeitamente à Connie Nielsen, que volta à tela como a Hipólita, soberana das  amazonas e mãe da Mulher-Maravilha depois de comparecer no filme solo da super-heroína. Além da boa forma, sua presença no longa é avassaladora, mostrando que a atriz sueca ainda dá um caldo dos deuses, mesmo na maturidade (Foto: Divulgação)

Conhecido pelo preciosismo nas cenas de luta desde que dirigiu “300” (2006), o diretor Zack Snyder mantém sua marca indelével nas coreografias de batalha de “Liga da Justiça”, sobretudo nas sequências em que mostra as amazonas da mitologia grega, repetindo o impacto que já havia causado em Mulher-Maravilha, quando apresentou as personagens. O resultado épico, em tomadas abertas, pode até agradar ao fã mais xiita da trilogia de “O Senhor dos aneis” (Foto: Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.