À primeira vista, trata-se de um filme de sci-fi: num futuro indeterminado,  a humanidade coloniza planetas e um casal acorda da hibernação muito antes do tempo, a bordo de uma imensa espaçonave-resort que ainda levaria mais 90 anos para chegar ao seu destino: um paradisíaco planeta selvagem, pronto a ser habitado por aqueles que, cansados da Terra e de seus recursos esgotados, pretendem reescrever sua história. Sem poder voltar aos seus respectivos estados de animação suspensa e sob o risco de passar o resto das suas vidas neste cruzeiro-fantasma, mas com as possibilidades abortadas de um futuro de verdade, eles precisam tanto aprender a conviver quanto a lidar com as agruras de uma nave que está prestes a entrar em colapso, pondo em risco a vida dos 5000 passageiros em sono profundo, mais a tripulação idem.

Esse é o mote de Passageiros” (Passengers, de Morten Tyldum, Columbia Pictures, 2016) que entra em cartaz nesta quinta-feira (5/1), estrelado pelos queridinhos da vez, Jennifer Lawrence (das séries “X-Men” e “Jogos Vorazes”) e o ex-gorducho e hoje bonitão Chris Pratt (“Jurassic World” e “Guardiões da Galáxia”).

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Jennifer Lawrence e Chris Pratt estrelam essa espécie de “A gata e o rato” passado nos confins do espaço sideral, a bordo de uma nave espacial capaz de deixar Dubai no chinelo (Foto: Divulgação)

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A dupla bem que tenta, mas é impossível entrar no controle central da espaçonave e despertar a tripulação em hibernação, em “Passageiros”. A solução é relaxar e gozar das benesses desse resort, sob a luz das estrelas e admirando as nebulosas (Foto: Divulgação)

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DR a bordo: não importa quando. Segundo o roteirista Jon Spaihts, no futuro os casais vão querer discutir a relação igualzinho aos dias atuais. A diferença? Bom, o céu é o limite! (Foto: Divulgação)

O que poderia render um filme de ação ambientado no espaço sideral se revela um história romântica água com açúcar, tipo Ghost“, como toques de dramalhão mexicano: após um ano de solidão no espaço, o mocinho Jim Preston (Pratt), primeiro a acordar por acidente, toma a difícil decisão de tirar do sono induzido a escritora Aurora Lane (Lawrence), por quem se apaixonou platonicamente, condenando a moça ao seu mesmo fim: envelhecer claustrofobicamente até a morte dentro dessa nave sem jamais ir a lugar algum.

Confira a trailer abaixo (Divulgação):  

Com um detalhe: dada a qualidade das instalações, das cabines de luxo, dos restaurantes, piscinas, quadras e dos fabulosos dispositivos de entretenimento, seria algo como passar o resto da vida a dois, aproveitando a vida irreal de plástico de um cruzeiro qualquer, tipo MSC Splendida, rodeado de robôs, mas sem nenhum contato externo.

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Entre o terno e o tubinho: Chris Pratt e Jennifer Lawrence se rendem aos modelitos de grife para armar aquele encontrozinho gostoso, com uma vantagem: na nave espacial não é preciso abrir a carteira na hora! (Foto: Divulgação)

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Tipo telemarketing: na espaçonave da corporação de colonização Homestead, os passageiros também têm dificuldade de interagir com seus interlocutores holográficos. Parece até atendimento de telefonia celular no Brasil… (Foto: Divulgação)

Claro que, a partir daí, o filme descamba para o dramalhão piegas, com cara de novela da sete e com direito até a um bartender androide (Michael Sheen ótimo, precisa dizer mais?) que dá conselhos amorosos, enquanto o casal de pombinhos às turras tomam porres homéricos sob a luz das estrelas.

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Em “Passageiros”, Michael Sheen enxuga copos, serve drinks e ainda faz as vezes daquele garçom bacana que segura as dores de cotovelo dos clientes. Prova de que não importa quando, se hoje ou no futuro, os romances não sobrevivem sem o conselho de alguém experiente (Foto: Divulgação)

No fundo, a ideia mesmo é sublinhar que, no fundo, a grande viagem é a das relações humanas e que o universo de quem se ama pode ser muito mais vasto do que a imensidão do espaço sideral. Portanto, o filme deve agradar em cheio aos casais de namorados e àqueles que se derretem com narrativas plenas de amor para dar, como A culpa é das estrelas“. Trata-se de mais um exemplar do atual processo de infantilização de Hollywood, com longas de super-herói, contos de fada live action, filmes de zumbi e pencas de sagas que transformam vampiros, lobisomens, bruxos, cavaleiros e toda a sorte de arquétipos imortalizados pela Sétima Arte em meros adolescentes impúberes prontos a sapecar um beijo de língua. Só falta Ripley (Sigourney Weaver) aparecer numa ponta de mãos dados com o seu oitavo passageiro, num rala-rala alien gostosinho.

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