A semana começou agitada, com o Réveillon seguido da posse do presidente Jair Bolsonaro, e terminou com uma saraivada de posts criticando a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que afirmou em compromisso oficial que “menino deve vestir azul e menina rosa”.  Foi um auê. Bastou a polêmica declaração vazar na internet nesta quinta (3/21) para que famosos de todas as cores, como os casais Luciano Huck e Angélica e Di Ferrero e Isabeli,  ou anônimos de todos os naipes se insurgissem contra a sua declaração.

Tipo colônia para bebê: o músico Di Ferrero e sua namorada, a topérrima Isabeli Fonana, postaram no Instagram uma foto na qual, sob os parâmetros de Demares Alves, subvertiam a nova “cartilha oficial” do colorido oficial para rebentos (Foto: Reprodução)

Boa parte dos protestos foi tratada com humor, sobretudo por rapazes e moças da Geração Z, para quem os paradigmas da separação de sexos foram rompidos nos últimos anos. Muitos simplesmente abriram o guardarroupa e mandaram ver em fotos publicadas nos stories.

Baby rose: De Recife, o produtor de moda Paulo Rafael Costa reproduziu no Instagram o comportamento questionador da maioria dos integrantes da sua geração, para quem a linha divisória entre os sexos já não é mais um rígido travado de Tordesilhas (Foto: Reprodução)

Para eles, rosa pink, rosa-chá, fúcsia, magenta, rosé, mauve ou bois de rose, manga rosa, rosa púrpura do Cairo; para elas, royal, real, turquesa, cerúleo, anis, hortênsia, cobalto, marinho ou ultramarino. Azul pode ser a cor mais quente. E rosear é preciso para o Brasil não virar as cinzas de uma rosa de Hiroshima high tech.  

Rainbow queen: Quem diria, hein? O guardarroupa da outrora ultraconservadora Elizabeth II, durante décadas tida como a soberana britânica que era o suprassumo da tradição, acabou virando símbolo da panfletagem anticaretice que ridicularizou nas mídias sociais a declaração da ministra Demares Alves acerca do uso de cores pelos sexos (Foto: Reprodução)

Naturalmente a coisa esquentou e essa antítese jurássica entre os delicadinhos azul & rosa esbarrou no calor do Pantone Living Coral, eleito como a cor de 2019 que substituiu reinado fashion do calmante Ultra Violet.

O exotérico e relaxante Ultra Violeta foi a cor escolhida pela Pantone para representar a moda de 2018. Invadiu as ruas, vitrines e armários culminando em sua diluição nos lavandas que agora chegam às vitrines (Foto: Reprodução)

Em dezembro, a Pantone anunciou que a nova cor da moda, para 2019, seria o Living Coral – um misto de coral com flamingo que é a cara de Miami Beach. Katy Perry amaria! Pois então, no Brasil, mal o ano virou e a nova gama fashion se viu eclipsada pela fala da integrante do governo recém-empossado, que catapultou rosa e azul ao olho do furação fundamentalista que parece agora dominar o abecedário do poder público. Há muito o mimimi acerca de uma cor não rendia tanto pano para manga… (Foto: Reprodução)

ÁS conversou com o estilista Ronaldo Fraga, defensor ferrenho da diversidade e dos direitos humanos, que usa não apenas a presença nas mídias digitais, mas seus desfiles e coleções como panfletagem a favor de questões sociais que considera cruciais nos dias de hoje. Confira abaixo sua opinião sobre o assunto!

Slumber Jack fúcsia! Tão logo a polêmica sobre o sexo do rosa e azul se instaurou nas mídias digitais, o estilista Ronaldo Fraga tratou de mostrar o quanto esses conceitos semióticos são areia movediça. O mineiro foi espertíssimo: aproveitou a frondosa barba para incendiar o bochicho, envergando a típica camisa de xadrez de machão lenhador. “Pois vou de rosa-choque”, disparou o moço na legenda (Foto: Reprodução)

“Esse assunto de azul e rosa para menino e menina, respectivamente, é coisa que vem da Idade Média. Não é de hoje! Para a gente ver o quanto é polêmica batida”, dispara Ronaldo, de cara, para emendar: “No ambiente fundamentalista cristão que marcou a Europa Medieval, a sociedade acreditava que a mulher era impura, que causava a tentação do diabo. Daí o rosa para purificar os bebês e crianças do sexo feminino. Na contrapartida, se considerava o homem alinhado com os valores divinos; então foi adotado para ele o azul, que vinha da cor do céu, do celestial”.

“Que tudo vá para o inferno!” No mesmo dia, Ronaldo Fraga publicou na sua timeline a foto de um jovem Roberto Carlos em look hippie, cromaticamente híbrido dentro da ideologia de Demares Alves, mas inquestionável no que tange à sua masculinidade. Ao ironizar os preceitos da ministra a partir da imagem de um ícone nacional cuja opção heterossexual é conhecidíssima, o designer vai de encontro à tentativa do governo de reinserir na sociedade brasileira o debate de questão já embolorada, cujo prazo de validade já venceu há muito tempo (Foto: Reprodução)

Na opinião de Ronaldo, o Brasil hoje vive uma era difícil, na qual será preciso questionar conceitos que podem vir tanto de posicionamentos radicais de quem está agora no poder, quanto do fogo amigo das mídias sociais, do Twitter, Instagram e Facebook. “São tempos de pisar sobre crocodilos e tubarões. Apesar disso, o novo governo não vai encontrar facilidade para difundir pensamentos, pois é inevitável o tsunami avassalador do habitat internético. A história já provou que não se pode deter a evolução do comportamento”, comenta. Para ele, Donald Trump é exemplo do que deve acontecer no Brasil: “Ele já passa pela enxurrada da massa critica on-line nos Estados Unidos e no Brasil não será diferente. Vai ser porrada”.

Chupa essa! O ator e cantor Maurício Branco, que fez sucesso em 2018, no Rio e São Paulo, com a stand up comedy “As bibas são de Júpiter”, enverga o look rosa inspirado no andrógino David Bowie. No post do seu Instagram, ele se refere à foto como um “presente para a ministra sem noção”   (Foto: Reprodução)

Apesar de Ronaldo Fraga considerar o discurso de Damares Alves “um retrocesso”, o designer alerta para o que considera um mal maior: “Existe agora uma forte tendência ao que chamo de boi de piranha. Essas frases pseudoépicas lançadas ao vento para chamar atenção servem como um tipo de expediente para eclipsar ocorrências mais relevantes,  podendo ser tornar um fenômeno habitual de mascaramento. Por exemplo: agora, enquanto todo o país discute essa questão idiota do rosa e azul que só deveria interessar aos estudiosos de semiótica, ninguém dá realmente importância ao fato de os madeireiros terem invadido há dois dias um reserva indígena no Pará [perto da usina de Monte Belo, entre Uruará e Medicilândia]. A situação lá não está nem rosa nem azul, mas preta”.

Bordunas e pantones em riste! Prontos para enfrentar os madeireiros invasores, os índios da reserva Arara, próxima à Altamira no Pará, pintam e bordam com as cores na make e acessórios de confronto, sem que ninguém duvide da sua macheza. Vai encarar? (Foto: Reprodução)

Em relação à melhor forma para combater eventuais pensamentos reacionários que venham a eclodir na mídia, o estilista crê que a solução está no DNA do Brasil: “Nós temos o riso. A melhor resposta é a fina ironia”. Segundo ele, a própria natureza das mídias sociais é o humor. O brasileiro sempre soube lidar ao longo dos tempos com o sorriso como reação aos fatos. Daqui a dois meses temos o carnaval, e tudo o que está acontecendo nesse momento vai encontrar sua resposta espontânea nas ruas, nos blocos”.

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