A existência de um jornalista que cobre gastronomia pode, de uma forma menos óbvia do que parece, ter a ver com o filme Comer, rezar, amar” (Eat Pray Love, 2010), sucesso estrelado por Julia Roberts e Javier Bardem. Se come muito, muitas vezes se reza antes para se surpreender com um prato, outras se ora (em silêncio, como num convento de irmãs carmelitas) para acabarem os suplícios de um rega-bofe nada inspirado. Nem sempre se ama. Ou, às vezes, o amor vem de onde menos se espera. Todo esse blablablá judaico-cristão de alguém criado em colégio de padre (mas comumente associado aos desvarios pantagruélicos do insaciável Império Romano; fabricantes de jujubas que o digam!) serve para ilustrar as percepções sentidas nesta última semana quando o ÁS compareceu àquela conferida básica que a Pizzaria Bráz promove toda virada de estação para apresentar as novas receitas da temporada.

Todos sabem que o ÁS é suspeito. Aliás, suspeitíssimo: sim, ele ama de carteirinha a casa, gosta da decoração com cara de mercearia retrô e o estilo british industry que rememora a Grã-Bretanha arts & crafts de William Morris; é tarado por ladrilhos. E curte de montão o clima, a massa e os sabores da Bráz.

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Calzone do Mercado: sanduíches de mortadela dos mercados municipais com cara de Tancinha de “Haja Coração” ganha interpretação chique, sin perder la textura jamás! (Foto: Divulgação)

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Calzone do Mercado, na Bráz: visual para agradar a artista bacanudo e recheio farto para deixar caminhoneiro esfomeado de butuca acesa (Foto: Fabio Ramalho / Reprodução)

Agora, a bola da vez é o Calzone do Mercado, gostosura digna de estar pincelada num cantinho qualquer do Jardim das Delícias de Hieronymus Bosch (1450-1516), na parte esquerda do tríptico que interpreta o paraíso. De fato, a pizza coberta inspirada nos famosos sanduíches do Mercado de São Paulo – os tais recheados com uma talagada de mortadela – não deixa nada a dever ao quitute original. Farta, interior no ponto certo, a combinação do queijo com o embutido é dos deuses (romanos) e ainda vem com aquele sabor da infância, como no prato do desenho animado da Pixar Ratatouille que resgata a infância perdida do empedernido crítico gastronômico da narrativa.

E mais: o calzone lembrou o delicioso sanduíche de pão francês com queijo prato e toneladas de mortadela que a saudosa avó Luciana (da parte dos portugueses, não dos austríacos) costumava fazer para o neto (euzinho, óbvio!) na mais tenra idade. Saudade. Uma das melhores novidades da casa nos últimos tempos, vale ida imediata ao Bráz, sob o risco de, caso não o faça, o comensal figurar entre os desafortunados que se arrependem dos pecadilhos na extrema-direita do quadro do Bosch…

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“Jardim das Delícias”: obra de Bosch serve de ponto de partida para uma análise ecumênica das novidades da Bráz Pizzaria, que vão do cristianismo carola ao paganismo total (Foto: Reprodução)

Mas, quando ÁS se refere às surpresas que uma jornada devotada aos prazeres da carne (do prato, viu?), a menção vai para a Dona Rosa, uma espécie de enroladinho de pizza com recheio no meio – que parece um canelone, mas trata-se de uma entrada clássica da Bráz – que este colunista relapso ainda não conhecia.

Agora apresentada nos novos sabores provenientes de pizzas bacanudas da casa – Carbonara (a melhor, capaz de causar quebra-quebra e pancadaria na mesa, na hora de disputar o último pedaço), Sopressata (embutido com cortes magros de porco) e Quatro Queijos (boa surpresa, com sabor que foge do batidão). ÁS comeu, rezou, amou, rodopiou.

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A Dona Rosa de sopressata, da Bráz: acepipe lúdico para comer e viajar na macarronada (Foto: Sorrimoss / Reprodução)

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No período entre Cosme & Damião e o Halloween, delicinhas que remetem às travessuras de criança: Bráz Pizzaria lança novos sabores de Dona Rosa (Foto: Maria Helena Esteban / Reprodução)

Num final de semana pontuado pelas artes plásticas e o design, com o ArtRio, IDA e Joia Brasil preenchendo os armazéns de 1 a 4 no Píer Mauá (programa tão obrigatório quanto renovador), vale brincar com as impressões que a Dona Rosa trouxe à mente pérfida deste jornalista, algumas impublicáveis. Entre piões e rosetas, ÁS deve passar mesmo o finde com a imaginação à solta: como deveria ser um dos famosos retratos de Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), o milanês que entrou para a história da arte com as pinturas de figuras forjadas à base de legumes e verduras? Já pensaram num rostinho básico todo de Donas Rosas?

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Arcimboldo: pintor renascentista que é unanimidade entre os chefs evoca a imaginação do Ás na Manga a partir de degustação na Bráz Pizzaria (Foto: Reprodução)

Em tempo: numa noite de recordações, ÁS agradece aos amigos e colegas Maria Helena Estaban, Fabio Ramalho e as meninas do Sorrimoss pelas imagens. Melhor que isso, só surrupiando doce de criança…

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