Vencedor do Globo de Ouro de ‘Melhor Filme – Comédia ou Musical’ e ‘Melhor Atriz m Comédia ou Musical”, Lady Bird A hora de voar” (Lady Bird, Scott Rudin Productions e outros, 017) é o típico filme ‘mulherzinha’ que se beneficia do burburinho em torno da diretora e autora Greta Gerwig  e de sua protagonista Saiorse Ronan, concorrendo ao Oscar em cinco categorias importantes (filme, atriz, direção, roteiro original e atriz coadjuvante para Laura Metcalf, brilhante e que também concorreu  essa categoria nos Golden Globes, perdendo para Octavia Spencer por A forma da água“).

Foto: Divulgação

Confira o trailer oficial legendado abaixo (Divulgação): 

A despeito de suas qualidades, o longa-metragem ganha alguns decibeis a mais de destaque por conta do atual barulho acerca da presença feminina em Hollywood, acirrado com as seguidas polêmicas sobre o empoderamento, a diferença de salários entre homens e mulheres e agora a questão do assédio. É escrito e dirigido por mulher e isso é mais que relevante é no momento.

No Globo de Ouro, ema janeiro, a trupe de “Lady Bird” sobe ao palco para receber o prêmio de ‘Melhor Filme – Comédia ou Musical’. A roteirista e diretora Gerta Gerwig encampou a função de porta-voz dos direitos femininos na Meca do Cinema (Foto: Divulgação)

É tipo um filme pequeno, daqueles que trata de ritual de passagem. No caso, do último ano de ensino médio de Christine McPherson (Ronan), que se autointitula Lady Bird, e seu desejo de ingressar numa universidade em um grande centro cosmopolita como Nova York, apesar das poucas condições de sua família.

Adolescente que aspira dias melhores, Lady Bird (Saiorse Ronan) contracena com Danny, personagem vivido pelo jovem ator Lucas Hedges, que concorreu a ‘Melhor Ator Coadjuvante’ em 2017 por “Manchester à beira-mar” (Foto: Divulgação)

Em termos de roteiro, nada de novo no front nesse drama passado em 2002/3 que traz como pano de fundo a desilusão dos norte-americanos pós-11 de setembro, com a Guerra do Iraque, a má distribuição de renda e a recessão. É uma produção que, apesar de passada no início da globalização e antes do surgimento das mídias sociais, atinge em cheio a geração zender, que vai se identificar com as questões de identidade e autoafirmação tão prementes hoje em dia.

Geração millennial: A diretora Greta Gerwig orienta Saiorse Ronan (24 anos) e o ator-fetiche do momento, Thimothée Chalamet (22 anos), que interpreta um crush da protagonista, interesse romântico que será responsável, de alguma forma, pelo amadurecimento de Lady Bird (Foto: Divulgação)

De quebra, a narrativa apresenta também uma América desigual, que não é exatamente a terra de oportunidades que se apregoa, já vista em produções recentes como Roda-gigante, de Woody Allen. As dificuldades vividas pela família de Lady Bird – o orçamento minguado, o dia a dia de labuta pesada, o desemprego do pai, sua desvantagem em relação a quem é mais novo na hora de se candidatar a uma vaga e a dura realidade do irmão e da cunhada que estudaram em Berkeley para acabarem como caixas de supermercado – contrasta com os sonhos da adolescente descolada que odeia a pequena Sacramento, no Centro-Oeste da Califórnia, idealiza o primeiro amor, deseja a primeira noite de sexo e almeja uma vida melhor, dando a si mesma a alcunha de “Senhora Pássaro” que indica sua condição de flapper, de quem pretende bater as asinhas para voar bem longe daquela vida, apesar dos prognósticos nada promissores.

Em interpretação inspirada, Laurie Meltcalf vive a desiludida e amarga mãe de Lady Bird, que se ressente da falta de oportunidades que a vida trouxe à sua família e se resigna com menos, em conformidade que a põe em rota de colisão com as aspirações da protagonista (Foto: Divulgação)

Esse tipo de roteiro com gente comum é fruto do cinema autoral norte-americano produzido a partir da virada dos anos 1960/70, quando Hollywood se afastou do escapismo para competir com a televisão apostando na retratação do cotidiano do público.

Agora, numa época em que a faturamento da indústria cinematográfica se ancora justamente no oposto, o espetáculo calcado nos efeitos digitais cuja síntese suprema é o filme de super-heroi, é significativa a presença de uma produção como “Lady Bird” na corrida ao Oscar.

Candidato os Oscar de ‘Melhor Ator’ por “Me chame pelo seu nome”, Timothée Chalamet revela sua versatilidade cênica em “Lady Bird” num papel completamente diferente do adolescente gay Elio que lhe rendeu a indicação da Academia: um hipster intelectual, charmoso e frio que acaba por catalisar as transformações pelas quais Lady Bird irá passar. O ator, que acabou de filmar há poucos meses a nova produção de Woody Allen, é a grande aposta da Geração Z atualmente em Hollywood (Foto: Divulgação)

Mesmo que não leve nada casa, e ainda tendo em conta que não seja exatamente original a não se pelo fato de ser uma produção concebida por mulheres, o longa cumpre tanto a função de apresentar esse tipo de temática à nova geração quanto a de filme de combate à infantilização de Hollywood, mesmo tendo adolescentes como personagens centrais, dentro daquilo que Jodie Foster afirmou na virada de ano em entrevista à revista Radio Times, quando ressaltou que as produções baseadas nos quadrinhos estariam detonando o cinema americano: “Isto está arruinando com o hábito de consumo de filmes do público americano e, no fim das contas, do resto do mundo. Eu não quero fazer um filme de US$ 200 milhões sobre super-heróis”.

No panorama de uma América na contramão do sucesso – justo aquele pelo qual Trump demonstra se preocupar ao negligenciar camadas menos favorecidas da população reduzindo direitos como o acesso a saúde pública -, Lady Bird e sua mãe Marion (Laurie Meltcalf) frequentam saldões de roupas baratas e liquidações de supermercado, sempre à cata de promoções que supram aquilo que não podem consumir normalmente (Foto: Divulgação)

Diante da declaração contundente de Foster, “Lady Bird” pode ser considerada uma produção de resistência, amplificado pelo fato de ser roteirizada e dirigida por uma mulher, equivalendo em muito menor escala, mas com bem mais prestígio à realização de destaque, em 2017, no gênero “filme de super-heroi”: o quebrador de recordes também capitaneado por outra exemplar do sexo outrora considerado frágil, Mulher-Maravilha“, sob a batuta de Patty Jenkins. Pelo jeito, em sua luta pelo empoderamento, são as mulheres que poderão frear a supremacia absoluta de uma Hollywood apenas comprometida com “apelos de massa e investimentos”, conforme citou Jodie Foster.       

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