André Almada é praticamente uma força da natureza. Com sua The Week no Rio e em São Paulo – e ainda à frente do site Universo AA –, o empresário investe pesado no mercado alternativo como gente grande, o transforma em mainstream, mas não perde o entusiasmo de garoto. Tem esse jeitão de criatura elemental do cosmos. Visionário, foi um dos primeiros a apostar na revitalização da região portuária carioca, abrindo há oito anos a casa noturna que revolucionou a cena noturna na Cidade Maravilha. E, para este último trimestre de 2015, se vale de uma série de ações para badalar o espaço carioca, provando que, se o Brasil está em crise, mesmo com cautela ainda há espaço para arrojar. ÁS bate um papo exclusivo com André, que revela: “Gastos com a noite são sempre os últimos a serem afetados pela crise econômica. O consumidor corta despesas de supermercado, economiza no cafezinho, compra menos roupa, não troca de carro, deixa de viajar e de jantar fora. Mas sair na balada é como uma válvula de escape. Ele até diminui, consome menos na night, mas essa funciona como um relax para segurar a pressão toda. Tipo psicanálise com molejo na cintura”.

André Almada final

André Almada: abertura do Festival do Rio, alegria com a revitalização do Porto Maravilha, sequência de festas para celebrar o niver da The Week e até planos para realizar um bloco de carnaval com a chancela TW (Foto: Danilo Borges / Divulgação)

Ele desenvolve sua linha de raciocínio: “Não é brincadeira manter a estrutura de uma casa como essa. Quando vim para o Rio, queria mostrar que havia espaço para um produto de qualidade no Rio, uma casa onde era até possível fazer uso de cenografia especial para as festas num padrão internacional. Um sonho que já acontecia em SP, mas que todo mundo dizia que não era viável fazer acontecer aqui. Deu certo, embora tenha sido chamado de louco por instalar a The Week ali na Sacadura Cabral, na Gamboa. Hoje vejo que estava certíssimo e me sinto orgulhoso de, em certo aspecto, ter colaborado para essa retomada do centro da cidade antes mesmo de a prefeitura ter investido em massa no Porto Maravilha. Hoje o clube está ao lado de uma Praça Mauá padrão classe A, toda repaginada, e pertinho de dois museus incríveis. E vizinho de outras boates que vieram a reboque. Isso me dá orgulho”.

Luzes psicodélicas: a inauguração da The Week (Foto: Ricardo Nunes / Divulgação)

Luzes psicodélicas e público animadão: inauguração da The Week (Foto: Ricardo Nunes / Divulgação)

Ele cita que a filial do Rio fatura em média menos 30% que a matriz paulista, mas revela: “São Paulo tem quase o dobro de gente, ué. Natural, né?” E avança na linha de pensamento: “A opção pela infraestrutura não é luxo, mas questão de sobrevivência. E, claro, existe a meta de diversificar para não morrer na praia. Logo no início, defini que, às sexta-feiras, o público seria hétero em sua maioria e, aos sábados, homo. Preta Gil me ajudou muito com sua Noite Preta. Festas segmentadas funcionam no Rio, que pode ter pecha de balneário, mas tem verve cosmopolita sim, doa a quem doer. Isso desmistificou a casa como boate gay, abrindo um leque de possibilidades mais plural, pronta para atender aos produtores de festa e aos eventos fechados do mercado corporativo, que perdeu o medo de associar suas marcas a um suposto bafão homoerótico, que seria, em outros tempos, sinônimo de perversão”, conta.

E vai além: “Ora, gente enfiando o pé na jaca pode existir em qualquer lugar, independente de opção sexual, não é mesmo? Eu particularmente não aprovo derrapada e tomo meus cuidados, mas elas existem do basfond às altas rodas. Associá-las ao mundo gay não é correto”, rebate, exemplificando: “Nos anos 1920 as pessoas compravam rapé na farmácia, para não falar outra coisa. E isso, afinal, acontecia no grand monde, ao som de Cole Porter…”

Almada e sua equação: infraestrutura diferenciada, espetáculo e aposta em boas atrações para criar clientela fiel (Foto: Divulgação)

Almada e sua equação ideal para a noite carioca: infraestrutura de qualidade, espetáculo, pluralidade e aposta em boas atrações para manter clientela fiel (Foto: Paschoal Rodrigues /Divulgação)

Por falar em ir além da conta, André conta que a crise, ao contrário, anda levando a rapaziada a certo comedimento: “O pessoal não deixa de ir ao badalo, mas consome menos. Em São Paulo, o consumo de Chandon caiu em 30%. No Rio ainda não fiz as contas. O povo tem se divertido mais a seco nesse tempos de bolso apertado. Gay não tem filho, não paga escola de moleque, não tem no mínimo quatro bocas para alimentar e acaba sobrando um pouco mais, mas isso não quer dizer que a turma não se esprema também”, comenta em tom de normalidade.

Entre os investimentos em festas, ele cita que no dia 1º de outubro a casa será palco do agito de abertura do Festival do Rio pela segunda vez: “Amo isso, a vocação festiva do meu negócio”. Mas a coisa não para por aí: “Vamos ter uma dupla comemoração da The Week carioca em dois sábados seguidos: 28 de novembro e 5 de dezembro, que é a data do seu niver. Não quero assinalar o primeiro ano das novas instalações no Rio, mas os oito anos de estrada desde vim para o Rio. Isso é emblema!”

(Foto: Ricardo Nunes / Divulgação)

Sonhos de uma noite de verão: “É importante trazer ao público aquilo que ele sonha encontrar na noite”, afirma Almada (Foto: Ricardo Nunes / Divulgação)

Em primeira mão, ele revela: “Faço parte do Distrito Criativo do Porto; queremos tocar festas no MAR (Museu de Arte do Rio) com a chancela do Universo AA, nas quais a gente mescla parte do público da TW com uma turma bacana pinçada de vários habitats, como produtores de moda, decoradores e jornalistas. Essa mistura dá liga.  A primeira foi em junho, durante o Casa Cor paulista, depois fizemos uma bacana na cobertura do Davi Bastos (arquiteto) e assim a coisa tem crescido. Agora a vontade é produzir esse tipo de agito no Rio também”.

Mas ele não para por aí: já em 2016, a ideia é por o bloco na rua literalmente: o carnaval da The Week pode, se tudo der certo, parar no asfalto”.

André Almada  2 final

(Foto: Danilo Borges /Divulgação)

E as novidades não param por aí: “No pré-aniversário teremos o espanhol Carlos Gallardo e no agito do dia 5/12 o norte-americano Ralphi Rosario. Preciso começar a pensar na decoração especial”, elucubra.

Confira abaixo o estilo inconfundível do espanhol Carlos Gallardo: exato mix entre eletrônica e toques de guitarra flamenca (Divulgação)

E, sobre o fato de ter rompido paradigmas com a The Week e desta ter se tornado um espaço acima de guetos e opções sexuais, ele a compara com a recente “Babilônia”, a novela de Gilberto Braga que foi tanto criticada: “Dois gays bonitões tipo Félix e o Carneirinho pode. Duas senhoras respeitáveis que se amam e um casal de homens que lida com sua sexualidade sem afetações e sem se prender a arquétipos ultrapassados não é aceito”, devaneia. “Agora toda a dramaturgia da Globo tem cota de gay. ‘Império’ tinha uma super lotação de homossexuais, vários caricatos, o que torna a coisa mais confortável para o grande público, sobretudo aquele manipulado pelas igrejas. Mas a vida real não é assim e me sinto feliz em colaborar para desmistificar esses conceitos cretáceos”.

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