Depois de vários acepipes mal temperados, a Warner Bros. finalmente consolida sua mordida no lucrativo cardápio cinematográfico dos filmes de super-herói, gênero que é responsável pela mais gorda fatia da bocada que compõe atualmente o mercado hollywoodiano. Ao lado do aclamado Mulher-Maravilha (2017), cuja continuação está a caminho, Aquaman(idem, de James Wan, 2018) é banquete  para se comer com os olhos, amparado pelo glacê de um roteiro que evoca as aventuras juvenis dos anos 1980. O longa estreia nesta quinta (13/12) nos cinemas com a pompa que merece, provando que o futuro nas telas da DC, editora de quadrinhos cuja propriedade é da Warner, pode estar longe do feijão com arroz representado pelos dois pratos principais que garantiram ao estúdio a digestão de fabulosas cifras nos últimos 40 anos, tornando-a precursora desse filão antes do fenômeno Marvel/Disney:  Superman e Batman.

Estonteante: o colorido que emula o bom e velho technicolor dos forties é recurso usado pelo diretor James Wan para colorir o universo da DC Comics nas relas, que andou bastante sombrio (Foto: Divulgação)

“Aquaman” traz uma narrativa amarradinha, o carisma indiscutível de Jason Momoa como o personagem título (como Gal Gadot já fizera um ano e meio antes pela princesa amazona Diana de Themiscyra), vilões críveis e efeitos decentes, ainda que em alguns momentos – tal qual já acontecera em Batman vs. Superman(2016), “MM” e “Liga da Justiça” (2017) – peque pelo resultado de jogos de RPG.

Despontado em produções épicas como “Game of Thrones” e “Conan, o bárbaro”, o filho de pai havaiano e mãe irlandesa Jason Momoa depura o arquétipo do grosseirão boa gente que, de anti-herói acaba salvando o mundo – personagem clássico da literatura que foi absorvido logo cedo pelo cinema (Foto: Divulgação)

E ainda se beneficia da onda dos modismos que viraram prato do dia: trufas brancas trazidas à mesa em produções bem-sucedidas como “Pantera Negra” (empoderamento negro, o vilão Arraia Negra  vivido por Yahya Abdul-Mateen II, de Handmaid’s Tale e “O Rei do Show“,  é puro reflexo disso) e “Mulher-Maravilha” (women power, garantem isso as presenças de Amber Heard como a coheroína Mera e uma avassaladora Nicole Kidman como a Rainha-Mãe Atlanna).

Jessica Rabbit ou Pequena Sereia: a ex-senhora Johnny Depp Amber Heard é a contraparte feminina de “Aquaman” que beneficia da amplitude da presença delas nos filmes geralmente estrelados por eles, a partir de Gal Gadot em “Mulher-Maravilha” e Scarlett Johansson em “Vingadores” (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):

A nova produção da DC ainda resolve a aresta mal resolvida de “Mulher-Maravilha”,  trazendo um final delirante, à altura do seu percurso épico. Que fique claro: a Warner/DC encontrou dentro do próprio umbigo a solução para voltar a brilhar no cinema. Sua carteira de personagens carrega aquilo com que a rival sonha sem jamais alcançar, exceto com Thor por razão óbvia: Superman, Batman, Capitão Marvel (Shazam), Flash, Lanterna Verde e tantos outros carregam nas costas o apelo mítico que a Marvel jamais terá. Em tempos de pós-modernidade, seus super-heróis correspondem ao rejuvenescimento das antigas epopéias: são lendas, nada diferentes dos Jasões, Hércules, Teseus, Davis, Noés e Gilgameshs que povoam o imaginário. Não por acaso, os dois sucessos atuais do estúdio são justamente esses que reciclam narrativas clássicas, Mulher-Maravilha (mitologia greco-romana) e Aquaman (mito de Atlântida).

Como uma antiga lenda: o caráter mitológico de “Aquaman” é exposto à plateia logo no início da projeção, quando o herói ainda criança é mostrado como o fruto do amor proibido entre um faroleiro (Tuemura Morrison) e uma rainha atlante (Nicole Kidman), bem ao gosto dos contos de fada e mitos clássicos (Foto: Divulgação)

Ao se libertar do tom sombrio-realista da respeitada trilogia catapultada por Christopher Nolan com Batman Begins (2005), que andou influenciando o diretor e produtor Zack Snyder, as mais recentes produções da DC recuperam o fluxo  mitológico, resgatando a simpatia do público, oferecendo a este o que ele quer ver. Para tanto, vale a máxima maior de Joãozinho Trinta: “O povo gosta é de luxo”.

Um clássico perde o tom de deboche: durante anos, os nerds se divertiram com piadinhas que tiravam onda de Aquaman e seus amigos cavalgando cavalos-marinhos. Ainda assim, essas imagens se tornaram tão anedotário quanto marca dos gibis do heróis submarino. No visual capitaneado pelo designer de produção Bill Brzeski, esses animais ganharam um aspecto mais feroz (Foto: Divulgação)

Se na forma de contar a trajetória, “Aquaman” é um filme que se assemelha aos clássicos de Ray Harryhausen – inclusive o “Fúria de Titãs” original (1980) –, se valendo da típica jornada do herói, na embalagem o carnavalesco fundo do mar de “Aquaman” é mais do que se poderia esperar, senão uma ótima colcha de retalhos: misto da fluorescência de Avatar” (2009) com as ruínas ancestrais de O Senhor dos Aneis (2001), aditivado pelo frenético tráfego de peixes e veículos atlantes, tipo o incessante trânsito da Coruscant de Star Wars: A Ameaça Fantasma (1999).

Debbie Harry amaria: as armaduras reluzentes com pegada “disco” usados pelos deuses e heróis em “Fúria de Titãs” e “Kull”, quem diria, encontraram eco nos uniformes atlantes de “Aquaman”. É a estética over oitentista renovando a dinâmica dos novos filmes da DC (Foto: Divulgação)

Para dar certo nos tempos atuais, a Warner/DC continua olhando para o passado, e que se mantenha assim. Se “Mulher-Maravilha” diverte com um cardápio que mistura o delírio visual dos épicos à la Cinecittà com a questão da emancipação feminina presente na cinematografia dos wartimes, “Aquaman” é puro delírio technicolor digital. O look do vestido composto por anêmonas envergado pela princesa Mera, na sequência da arena de luta, é tão deliciosamente kitsch quanto uma produção de Busby Berkeley para a Fox estrelada por ninguém menos que Carmen Miranda.

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