Quando se pensa em James Bond, o primeiro nome que vem à cabeça é o do ator que inaugurou a franquia 007 no cinema, Sean Connery. Mas, justiça seja feita, nenhum outro astro conseguiu imprimir ao personagem a mesma ironia e fleuma do britânico Roger Moore (1927-2017), que interpretou o agente por doze anos em sete longas e morreu por complicações com um câncer nesta terça-feira (23/5), ao 89 anos, na Suíça.

Meu nome é Moore, Roger Moore: nascido em baixa classe média, o ator era filho de um policial e uma dona de casa, mas conseguiu imprimir a sofisticação britânica nas telas, tanto na TV quanto no cinema (Foto: Reprodução)

Moore assumiu a série no clássico Com 007 viva e deixe morrer” (Live or Let Die, 1973) e foi o mais velho de todos os Bonds a sair de cena, aos 58 anos, em 007 Na mira dos assassinos” (A View to a Kill), em 1985. Acabou ficando marcado como o James Bond exagerado. Também pudera! Entrou em cena durante o derradeiro suspiro de uma Swinging London marcada pelo glam, contemporâneo de um David Bowie chegado às aranhas de Marte. Depois, esse novo Bond atravessou a cafonice da Era Disco (com direito a muito glitter nas suas bond girls) e acabou desembarcando nos conturbados anos oitenta, época de recessão, mas também de excessos profundos na estética, graças ao visual new wave e às novidades tecnológicas de então, como o surgimento dos videoclipes e do videocassete.

Foi na encarnação de Roger Moore como 007 que a programação visual dos cartazes da série adquiriu aquela interpretação que se tornaria marca gráfica da série: a imagem ao fundo do agente de smoking com a pistola em riste enquadrada entre as pernas de uma bond girl em primeiro plano (Foto: Reprodução)

Sua participação na telona como o terceiro 007 se deu numa crise: o ator George Lazenby, que substituiu Sean Connery quando este desistiu do personagem, não foi bem aceiro pelo público e 007 –  a serviço secreto de sua majestade” (On Her Majesty’s Secre Service, 1970) foi um fiasco de faturamento e de crítica, apesar da qualidade da realização. Connery logo voltaria ao papel que o consagrou em Hollywood, em 007 – os diamantes são eternos” (Diamonds are forever, 1971), mas impôs uma condição: tapar o buraco somente esta vez.

Roger Moore representou a síntese perfeita da elegância e sofisticação britânicas durante os sete filmes em que viveu um dos personagens mais icônicos da Sétima Arte (Foto: Reprodução)

A solução dos produtores Albert “Cubby” Broccoli e Harry Saltzman pode ter parecida arriscada na época, pois Moore nunca tinha feito sucesso na telona, embora tivesse se tornado um ator de prestígio na TV, com duas séries detetivescas que beliscavam pelas beiradas o charme de James Bond: O Santo (1962-69) e The  Persuaders” (1971-72) na qual o astro contracenava com Tony Curtis no papel do irônico Lorde Brett Sinclair, num contraponto divertido com o americano Danny Wilde vivido pelo primeiro nesta narrativa que explorava os contrastes culturais entre Inglaterra e Estados Unidos.

O papel de Simon Templar, de “O Santo”, foi o passaporte que concedeu o estrelato a Roger Moore na TV, após duas décadas atuando em pontas no cinema. Sua boa pinta – que lhe rendia dinheiro suficiente para sobreviver como garoto-propaganda numa época em que dificilmente os modelos masculinos poderiam ser considerados tops – ajudou a consolidar a fama de conquistador, motivo pelo qual costumava apanhar das duas primeiras mulheres, que desconfiavam de sua fidelidade. O ator se casou quatro vezes, mas só na terceira tentativa deixaria de receber safanões em casa… (Foto: Reprodução)

Na virada da década de setenta, Moore atuava ao lado de Tony Curtis em “The Persuaders”, série que contrapunha a fleuma do ator britânico à modernidade norte-americana do astro que conquistou Hollywood em produções como “Trapézio” e “Spartacus”.  Nos episódios, os amigos rivais disputavam carros, doses de uísque e mulheres, bem ao gosto da época, que incensava a postura de macho alfa. Foi esse segundo sucesso na TV – que chegou tardiamente no Brasil na segunda metade da década de 1970 – que garantiu a Roger Moore as credenciais para assumir o posto do agente secreto a serviço de Sua Majestade (Foto: Reprodução)

A escolha dos realizadores da franquia 007 se mostrou tiro e queda: para a surpresa geral, Moore acabou se revelando o Bond mais cínico e fleumático de toda a longeva franquia, o que combinava perfeitamente o período histórico que correspondeu à sua presença na série: o auge da guerra fria e seu posterior declínio, num momento de grana curta e desesperança político-social. Por isso, o modo mais divertido de o ator de tocar o agente com licença para matar caiu nas graças da audiência.

Papel perfeito: nos backstages e aparições públicas, Roger Moore de certa forma prolongava a encarnação do agente que o projetou no cinema. A pose de galã cínico e viril pode ser atestada nos registros de filmagem do ator ao lado da modelo Barbara Bach, esposa do Beatle Ring Star e coestrela de “007 – o espião que me amava” (Foto: Reprodução)

Afinal, sua afetação e cinismo, foram pura consequência da revolução de comportamento que desaguou nos setenta, quando o jet set imperava e era possível deglutir sem culpa intermináveis litros de champanhe numa única noite, com direito ao corpo recoberto por joias caríssimas, de preferência professando o amor livre num flerte entre baforadas de cigarro em ambientes luxuosos e com a percepção devidamente alterada pelos efeitos da cocaína, pièce de resistance nas noitadas do grand monde. Sim, a crise do petróleo já gritava, mas o mundo ainda não havia mesmo se dado conta disso. Pior: nem desconfiava de que a AIDS estava por vir, nem o mundo encaretado sob o álibi do “politicamente correto”.

Eram outros tempos: nos anos 1970/80, não havia esse tipo de patrulha ideológica e o consumo era liberado, geral e irrestrito. Roger Moore foi fotografado inúmeras vezes fumando e bebendo como mandava a cartilha de bom e viril garanhão, sem que ninguém considerasse seu comportamento inadequado. E pior: como seria de se esperar do agente que tem licença para matar (Foto: Reprodução)

A imagem de Roger Moore ficou eternamente vinculada a uma virilidade que hoje é criticada pela turma politicamente correta, que nomina seus códigos e representações como heteronormatividade. Entretanto, o astro ganhou em seu tempo rios de dinheiro justamente promovendo e divulgando produtos através desse lifestyle, que se mistura com a própria trajetória do agente com licença para matar, uma das mais antigas de Hollywood enquanto indústria cultural. Veja abaixo o comercial para TV da marca de cigarros japonesa Lark (Reprodução):     

Moore representa esse agente bon vivant ao extremo capaz de cometer, a serviço de Sua Majestade, desatinos muito mais imperdoáveis pelos carolas de hoje do que matar os inimigos com uma única pistolada.

Com a fama mundial expandida pelo agente 007, de quebra o inglês saiu no lucro: virou astro do primeríssimo time na Meca do Cinema, conseguindo finalmente ludibriar a sorte depois de muito tempo: quando jovem, enquanto ainda ganhava a vida como modelo, tentava a todo custo emplacar a carreira no cinema, mas não rolava. Somente entre 1945 e 1951 participou de dez filmes, nove deles sem que seu nome fosse sequer creditado. Nos anos seguintes, a coisa melhorou um pouquinho, pero no mucho. Só conseguia amealhar papeis secundários na MGM e, para precisar virar o jogo, se rendeu à TV num período em que estar na telinha ainda não conferia aos atores o mesmo prestígio de hoje. Daí, decolou.

Ternos impecáveis: enquanto Bond, Moore consolidou de vez a elegância de Saville Row nas telas e não se sabe até hoje como ele conseguia manter os ternos sem amarrotar, mesmo realizando verdadeiros “balés” para golpear seus inimigos… (Foto: Reprodução)

Após ser aposentado os filmes de James Bond, o ator foi pouco a pouco desaparecendo das telas e as oportunidades rarearam. Afinal, já estava ficando velho e seu jeito de interpretar não era exatamente marcado pela versatilidade. Mas a imagem ficou e foi decisiva para que se tornasse em 1991 embaixador da Unicef e ganhasse de rabeta o título de “Sir”. Por sinal, da soberana por quem cometeu tantos assassinatos na pele de Bond.

Veja abaixo sete momentos imperdíveis do astro, na pele de James Bond ou não (Reprodução):

Em 2002, Roger Moore participou da comédia “Cruzeiro das Loucas”, na qual o protagonista hétero vivido por Cuba Gooding Jr. embarca por engano num navio ocupado pela turma LGBTTT. O ex-007 interpreta um homossexual inglês da terceira idade (Foto: Reprodução)

A ótima audiência de “O Santo” garantiu a Roger Bond o pão de cada dia durante seis longas temporadas e o total de 118 episódios, e ainda recheou de dinheiro os cofres da montadora sueca Volvo, que produzia o P1800, possante usado por Simon Templar nas histórias Foto: Reprodução)

O bonequinho do logotipo da abertura de “O Santo” se tornou extremamente popular, virou ícone da moda lounge que permeou os anos 1960 e seu estilo de traço fez história, influenciando designers gráficos mundo afora até hoje (Foto: Reprodução)

Em sua estreia, o 007 de Roger Moore teve de enfrentar pela primeira vez um time de vilões negros encabeçado por Kananga (Yaphet Koto, à direita) – ou Mr. Big, homônimo que nada tem a ver com o par romântico da protagonista de “Sex and the City”. O motivo dessa escolha tem tudo a ver: era 1973, os afroamericanos já haviam conquistado os direitos civis há pouco tempo, o black power estava no auge e um dos gêneros que mais fazia dinheiro nas salas de exibição era o blaxploitation, filmes policiais estrelados por astros negros, cujo maior sucesso foi “Shaft”, com Richard Rountree (Foto: Reprodução)

Confira abaixo uma das mais famosas cenas do agente britânico, pinçada de “Com 007 viva e deixe morrer”. O trecho acabou entrando para os anais da Sétima Arte como uma das mais descaradas (e divertidas!) mentiras do cinema, somente possíveis nas peripécias vividas por James Bond (Reprodução):     

Com parte das cenas filmadas no Rio, “0o7 contra o foguete da morte” (Moonraker, 1979) ficou marcado pelas tomadas em que o vilão vivido por Richard Kiel dentava os cabos do bondinho do pão de açúcar. O que se soube depois é que a produção trocou o modelo do transporte-emblema do cartão postal da cidade por outro transparente e que parte das imagens foi produzida nos Estúdios Pinewood, na Inglaterra, onde os longas-metragens da franquia são rodados. Veja a galeria abaixo (Reprodução):   

Apenas um ano depois de “Live or Let Die” estourar nos cinemas, Roger Moore voltou ao papel de James Bond num longa-metragem que foi recorde de produção. Novamente bem-sucedido, “007 contra o homem da pistola de ouro” (The Man with the Golden Gun”) trazia Christopher Lee como o vilão da vez, Scaramanga (Foto: Reprodução)

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