A questão do envelhecimento, da decadência física e da constatação daquilo que se deixou de fazer na trajetória da existência é constante na filmografia de Clint Eastwood, 88, pelo menos desde “Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992). Aparece, em menor ou maior proporção, em produções como “As pontes de Madison(The Bridges of Madison County, 1996), “Cowboys do Espaço(Space Cowboys, 2000), “Menina de Ouro(Million Dollar Baby, 2004) e “Gran Torino(idem, 2008), todos obras-primas. Agora, ele retoma o tema como questão central – como fizera no western que lhe rendeu quatro Oscars, inclusive ‘Melhor Filme’ e ‘Melhor Diretor’ – em “A Mula(The Mule, Warner Bros., 2019), baseado numa história real.

(Foto: Divulgação)

Inspirado num caso real, “A Mula” narra a tentativa de reviravolta do ancião Earl Stone (Clint Eastwood),que fracassou com a família ao exercer o papel de profissional responsável que a América impõe e agora, no ocaso da vida, aceita corre o risco de ir para a cadeia quando surge a possibilidade de retomar seu eixo afetivo (Foto: Divulgação)

No limiar da vida, o veterano de guerra Earl Stone (Eastwood) cruza os Estados Unidos ao aceitar uns bicos como motorista de um cartel mexicano de drogas comandado por Laton (Andy Garcia) para pagar umas dívidas, enquanto tenta se reaproximar da família que negligenciou pelo trabalho. Sua filha Iris (Allison Eastwood, também rebenta na vida real), por exemplo, não fala com ele há dez anos, desde quando “matou” o casamento da moça para participar de uma convenção de cultivadores de orquídeas.

Eastwood constroi a figura de um velho sem filtros de super ego para acentuar a percepção de que, nocauteado pelo tempo, o protagonista de “A Mula” não viu os anos passarem. Agora, pode tarde demais para lidar com as escolhas tomadas ao longo da vida. Esse componente da sua personalidade reforça o sentimento de inadequação do ancião Earl Stone dentro do mundo que o cerca, como se fosse um fóssil vivo (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):  

A mesma estoica obstinação que o levou a se dedicar ao trabalho, causando a ruptura nos laços familiares da qual se tanto se arrepende, é o segredo do seu sucesso como mula, nome dado àqueles que perfazem as rotas de envio das drogas pela rodovias. Ao arriscar a pele pelas highways país afora, transportando remessas cada vez nababescas de cocaína graças à confiança que os traficantes vão adquirindo na sua expertise, apesar da fragilidade da sua idade avançada, o ancião descobre um meio para recuperar o tempo perdido e se reaproximar dos entes queridos, inclusive a ex-mulher Mary (Dianne Wiest, dos filmes de Wood Allen, maravilhosa em cada frame).

O homem que, no auge da idade, revisita sua trajetória e procura surpreender, a todos e a si mesmo com uma reviravolta é figura recorrente na perspectiva filmográfica de Clint Eastwood (Foto: Divulgação)

Earl vai pegando o gosto pela coisa, conforme vai aceitando um trabalhinho após outro. Fatura cada vez mais uma nota preta e, assim, o igualmente desesperançado e vaidoso senhor segue viabilizando gracinhas para aqueles cujo afeto pretende novamente amealhar, embarcando num círculo tão vicioso quanto o hábito de quem cafunga a droga que transporta, enquanto segue no seu encalço uma burocrática divisão do FBI que precisa mostrar produtividade, em operações chefiadas pelo agente Bates (Bradley Cooper).

Velhinho da mufunfa: o ingresso no lucrativo mercado do tráfico de drogas começa sob uma uma necessidade circunstancial. Aos poucos, Earl Stone (Eastwood) pega no tranco, mostra seu valor e se torna “uma mula” de responsa, ganhando aquela grana na contravenção (Foto: Divulgação)

Eastwood se cerca como de praxe de bons atores (Cooper, Garcia, Wiest, Laurence Fishburne, Michael Peña, Ignacio Serricchio, Taissa Farmiga), mas é a sua porção ator quem brilha nesse longa feito para ser veículo de si próprio. O diretor-intérprete se despe da virilidade que construiu ao longo das décadas, dos caubóis movidos por punhados de dólares a Dirty Harry, para apresentar ao público a força que pode ser resgatada da alma, quando quase à véspera da morte o ser humano precisa se reinventar.

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