“A alma dela é diferente da minha”. Com essa frase, Elke Maravilha pôs uma pá de cal naqueles que forçavam a barra em uma comparação com Lady Gaga, buscando similaridade entre o exotismo de ambas. Era 2012, a loura norte-americana chegada a poker faces, telefones e Alejandros andava no auge e, nessa entrevista dada ao colunista Bruno Astuto na Revista Época, a russa naturalizada brasileira, que se tornou apátrida e depois ganhou cidadania alemã, também se dizia honrada com a associação, mas fazia a devida ressalva: “Os jovens podem fazer certas burrices, mas eu, que estou velha, não posso mais”.

Bom, mais ou menos. Afinal, a ex-modelo, atriz, apresentadora e jurada de programa de auditório fez muita coisa até o fim, aos 71 anos, nesta madrugada de 16 de agosto, após uma cirurgia seguida de coma induzido, por conta de uma úlcera duodenal. Ela estava internada desde 20 de junho na Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras. Em 2015, ÁS teve o prazer de entrevistá-la numa semana de moda em Belo Horizonte, quando ela abriu o verbo com a típica alegria contagiante, querendo dar selinho na boca: “O Brasil e o mundo estão caretérrimos, é preciso amar e fazer bastante de sexo”.

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Qualquer semelhança é mera coincidência: excesso visual da pop star Lady Gaga pode até ter vindo na esteira do desbunde da irreverente Elke Maravilha, mas, entre uma e outra existem anos-luz de espontaneidade e talento nato (Fotos: Reprodução)

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Sprit de vivre: no auge do sucesso, Elke Maravilha personificava o mix de alegria de viver, bom numor, irreverência e modernidade (Foto: Reprodução)

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Inesquecível: na 16ª edição do Minas Trend, Elke Maravilha pausa e posa para entrevista ao lado do ÁS, em BH (Foito: Arquivo pessoal)

Nascida Elke Georgievna Grunnupp em São Petersburgo, veio com a família para o Brasil aos seis anos, passou a infância em Itabira e a adolescência em Jaguaraçú, mas, apesar do período mineiro, se fez carioca da gema, absorvendo a irreverência da Cidade Maravilha em pleno desbunde. Elke foi a essência de um Rio luminoso, do tipo que não existe mais, a não ser no imaginário global. E faz parte daquela estirpe de criaturas acima do bem e do mal, a quem é impossível não amar, como Pelé, Fernanda Montenegro, Mussum, Luiza Brunet. Tipo amigo imaginário, mas bem mais colorida que aquelas entidades híbridas que só a imaginação das crianças pode conceber.

S11 SP 22-08-2007 VARIEDADES JT - Fotos da artista Elke Maravilha em exposição da Caixa Cultural, em São Paulo - FOTO DIVULGACAO

Doçura pré-explosão de personalidade: em sua adolescência vivida no interior de Minas, a russa Elke Grunnupp nem sequer desconfiaria que se transformaria numa das maravilhas da Cidade Maravilhosa (Foto: Reprodução)

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Espevitada & exótica: dotada de it, Elke se torna modelo requisitada no eixo Rio-São Paulo. A alcunha “Maravilha” seria conferida pelo desenhista e escritor Daniel Más, influente personagem do mundinho fashion (Foto: Reprodução)

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Fashionista: na juventude, Elke Maravilha personifica nos editoriais de moda e passarelas a alegria de um mundo irreverente pós-contracultura (Foto: Reprodução)

Louraça belzebu do calibre mais genuíno, casou oito vezes, era cosmopolita e cabeça-aberta, a ponto de morar até o final com o oitavo ex-consorte. Isso mesmo, quando o maridão se tornava alien, virava rapidinho o oitavo passageiro, sem precisar contudo saltar do trem.

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Elke Maravilha em três tempos: à esquerda, na fase de modelo com feições de estrela de cinema, no centro como criatura exótica da terceira idade e à direita, como atriz que participou de 30 produções cinematográficas, fora TV e teatro (Fotos: Reprodução)

Elke morou nos mais diferentes recônditos do planeta, sempre voltando para seu quartel-general no Leme, Zona Sul carioca e pontinha de Copa. A partir do glam rock dos Ziggys, aranhas de Marte e outras bizarras alucinações que dominaram o planeta na Swinging London, embarcou numa brasilidade burlesca tão seca quanto molhada, sobreviveu incólume à Era Disco e absorveu pílulas New Wave para, nas últimas décadas, assumir um inesperado multiculturalismo. Bruxa aborígene da Àsia Central, entidade afro-peruana ou neo gueixa zulu-masai? Não importa. Nessa mistureba étnica dos anos maduros, exibiu uma verve capaz de deixar Björk e John Galliano de queixo caído e Isabella Blow desconcertada, sabendo fazer sua própria moda, sem nunca cair na cilada do fast fashion.

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Poderosa: nos anos 1970, Elke Maravilha usa seu biotipo eslavo para impressionar fotógrafos nos editoriais de moda, numa profissão de modelo que ainda engatinhava no Brasil (Foto: Reprodução)

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Felliniana: já imbuída de sua verve exótica e alçada à condição de personalidade cult, Elke Maravilha rapidamente se transforma em criatura acima do bem e do mal no star system televisivo (Foto: Reprodução)

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Embalos de sábado à noite: na segunda metade dos anos setenta, Elke Maravilha incorpora elementos da estética disco à sua imagem (Foto: Reprodução)

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Diva queen: é na maturidade que Elke Maravilha assume sua persona mais carnavalesca, exagerando nos apliques, nos componentes tribais e na máscara facial teatral ao excesso. Ela afirmaria que “usava peruca até em casa”! (Foto: Reprodução)

Elke Maravilha foi a essência da vida vertida em espetáculo, possivelmente tomando para si os cânones absolutos de dândis notórios como Oscar Wilde e Baudelaire, mantendo a distinção num patamar jamais incensado, mas abdicando do sentido de elegância no sentido brummelliano para assumir o viés carnavalesco. Muito provavelmente deve ter sido Chacrinha, o eterno velho palhaço de Gilberto Gil, quem ajudou a moça a abrir mão do visual dos desfiles da Rhodia para imergir de vez no babado da folia.

Já Elke Maravilha veio a ser admirada pela comunidade LGBT por sua extravagância e espontaneidade

Musa LGBT: por sua espontaneidade e visão de mundo, Elke Maravilha se tornou musa gay para várias gerações (Foto: Reprodução)

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A vida é um espetáculo: entre sobreposições e estampas corridas, acessórios espalhafatosos, perucas frisadas e botas 7/8, Elke marcou década após década com um estilo ímpar no qual mais é mais mesmo! (Foto: Reprodução)

Elke Maravilha virou modelo pelas mãos de estilistas como Guilherme Guimarães e foi mais longe que todos eles, assumindo a pole position ao virar stylist de si mesma sem precisar jamais de produtor de moda. Sobreviveu a todos os fashion designers com quem se relacionou nas passarelas, inclusive a Zuzu Angel, de quem era amiga pessoal e embarcou ao lado na jornada em busca do filho desaparecido. Com Elke tudo era hipérbole, embora sua purpurinada persona fosse leve como uma pluma. Chegou a bater de frente com a ditadura, sabia virar bicho-papão quando precisava. E ai de quem estivesse na sua frente, como a polícia no dia em que protestou no Aeroporto Santos Dumont contra o então ainda suposto assassinato de Stuart Angel.

Na televisão sob a tutela de Chacrinha e Sílvio Santos, ganhou o grande público e virou unanimidade, não só pelo look, mas pela simpatia. Esbanjava carisma e sabia ter opinião sem descambar para a polêmica. Ficava no meio-termo, entre os arroubos de Araci de Almeida, a palhaçada de Pedro de Lara e o mau humor pseudo-letrado de Décio Piccinini.

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Estrela na TV, ao lado do “painho”: foi no “Cassino do Chacrinha” que Elke Maravilha consolidou sua personalidade extrovertida para as massas, se tornando presença indispensável na atração capitaneada pelo Velho Guerreiro (ao centro) e contracenando com grandes ídolos da MPB, como Roberto Carlos (segundo à direita) (Foto: Reprodução)

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Entre a Disco e o New Wave: na virada dos anos 1980, Elke Maravilha exibe um visual antenado com as grandes estrelas do pop norte-americano como Debbie Harry, do Blondie (Foto: Reprodução)

Elke Maravilha se tornou personalidade numa época em que o termo celebridade ainda não havia sido cunhado, e foi mais celebridade do que qualquer uma dessas que atende aos assovios da mídia via assessoria de imprensa e empresário, com o polegar roçando no indicador pedindo mufunfa. Se tivesse nascido há vinte anos e ainda assim mantivesse esse estilo pessoal único, talvez se tornasse blogueira. Por um acidente temporal, acabou nascendo muito antes desse fenômeno e, por isso, pode circular muito mais solta que os espécimes dessa exótica fauna atual, dependente da aprovação de incontáveis likes. Ao contrário dos ilustres habitantes das mídias digitais, Elke teve (e sempre terá) milhões de seguidores sem precisar contabilizá-los em redes sociais, conectando todos pelo seu savoir vivre. Sem ela e seu artificialismo estético, o mundo fica muito mais triste. E fake.

Confira abaixo a trajetória de Elke Maravilha (Fotos: Reprodução): 

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Elke Maravilha: 1945-2016 (Foto: Reprodução)

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