O que fazer para aquecer o mercado de moda quando a política e a economia parecem estar estagnadas? Para Adelino Basílio, diretor comercial corporativo do Mega Polo Moda, potência situada no Brás paulistano que engloba 400 atacadistas, a resposta vem na ponta da língua: “O nosso Brasil aqui não é o país que a gente vê nos noticiários”, Formado em neurociência, o executivo foge do padrão blasê dos seus pares e aposta no afeto como mola propulsora do consumo. “O pessoal ficou encantado. Os lojistas do pólo já me pediram mais uma edição extra do evento, que faremos em outubro, já que nosso público são os lojistas que precisam abastecer com antecedência seus pontos de venda para o final de ano e alto verão”, entrega em primeira mão ao ÁS, enquanto celebra o sucesso da 23ª edição da Mega Fashion Week, badalo voltado para os confeccionistas que movimentou o centro de vendas de domingo (23/7) até a noite desta terça (25/7).

Passarela geométrica da 23ª MegaFashion Week: evento criado para turbinar as vendas no Brás paulistano se rende a pequenos detalhes conceituais para fugir do lugar comum e gerar apelo conceitual. O objetivo continua um só: lucrar. Mas, se for para usar o espetáculo para chamar atenção do público, que mal há? A produção dos desfiles fica a cargo da Cia. Paulista de Moda, de Reginaldo Fonseca (Fotos: Marcia Fasoli / Divulgação)

Nada sertaneja, mas cosmopolita: a dupla que toca o business no Mega Polo Moda – o diretor superintendente Evandro Lima (esq.) e o diretor comercial corporativo Adelino Basilio (dir.) comandam o dia a dia do shopping que engloba mais de 400 lojas com verve de psicanalista que lida com a profundidade da psiquê. Sem abrir mão dos resultados numéricos, os gestores valorizam o lado humano do comércio e mantém um relacionamento pessoal com os lojistas. Para Evandro, “o importante é focar nos clientes e apoiar os lojistas”. Já Basílio crê no investimento do capital humano: “Acredito que seja possível ser feliz no trabalho”. Pode até parecer papo de terapia motivacional, mas as vendas provam a veracidade da filosofia. 15 novas lojas acabam de inaugurar no pólo, a maioria do segmento plus size (Foto: Divulgação)

“É importante gerar experiência, se reinventar constantemente e, sobretudo, ter emoção”, arremata, enfatizando os diferenciais: show da dupla sertaneja Fernando e Sorocaba, mais de R$ 100.000 em sorteios e informações de tendências passadas em projeção pelo birô Fashion Trends Brasil antes de cada rodada de desfile, para orientar os compradores. No entorno, filas nababescas do público se formavam: eram oferecidas caipirinhas de morango, abacaxi e limão, como se tudo não passasse de uma grande festa. Só que não. A ideia é gerar business. “Por isso abrimos o Mega Polo num domingo, dia tradicionalmente morto, mas que se mostrou sucesso de vendas”, comemora Adelino sem entregar números.

Sem carão: longe da passarela tradicional das semanas de moda, celebridades como Cauã Reymond (nesta edição) e famosos como Monica Iozzi, Sabrina Sato e a Miss Brasil Plus Size Babi Monteiro fogem da postura seca da fórmula “celeb posando de topmodel” para assumir uma relação mais próxima com os fãs, que lotam o Mega Polo Moda para tirar uma casquinha dos seus ídolos (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Brás superstar: abertura da 23ª edição da MegaFashion Week encerrou com show sertanejo de Fernando e Sorocaba. 2.000 convidados se amontoaram diante do palco-passarela do Mega Polo Moda para acompanhar os sucessos da dupla e dinamizar suas redes sociais com selfies (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Enquanto os sertanejos Fernando e Sorocaba soltavam o gogó no palco armado no Mega Polo Moda, bartenders se encarregavam de animar os convidados na base de caipirinhas de frutas, transformando o marasmo do domingo no Brás em acontecimento imperdível (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

A frase, que poderia ser apenas para impressionar numa entrevista, soa verdadeira quando se constata a eficiência da MFW. Num momento de convergência, em que as semanas de moda oficiais se rendem a patrocinadores como fast fashions para sobreviver, abrem seus line ups para marcas “pé no chão” e ajustam seus calendários para se aproximar da realidade imediata do consumidor final, é curioso ver um evento de cunho comercial aos poucos ganhar certo fôlego inspiracional.

Confira abaixo imagens do desfile conceitual de abertura da 23ª edição da Mega Fashion Week. Sobreposições, dobraduras origâmicas, mix de prints exóticos, neo grunge, militarismo, orientalismo e o revival dos anos 1970/90 estão entre as tendências apresentadas (Fotos: Divulgação): 

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Pela primeira vez, o shopping produziu uma campanha no exterior, em Lisboa (leia mais aqui). Na abertura, no domingo, eram esperados 1.000 convidados vips, mas a casa lotou. Pelos corredores do shopping circulou o dobro e, enquanto na passarela era apresentado pela primeira vez um desfile conceitual, carrinhos de supermercado vermelhos congestionavam os corredores com lojistas arrebatando peças para compor seus estoques.

Dobro do público esperado lotou a abertura da 23ª rodada da Mega Fashion Week para conferir as novidades. Cerca de 2.000 compradores convidados do Brasil inteiro incendiaram o Brás num dia tradicionalmente morto, um domingo, revelando a avidez com que o mercado de moda pretende ultrapassar as dificuldades de um Brasil em crise econômica, política e moral (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Bem verdade que nada é supérfluo na estrutura do Mega Polo Moda: acima dos andares das lojas encontra-se o hotel criado para receber os lojistas do Brasil inteiro. Coladas existem as duas rodoviárias, de ônibus e de vans, que se encarregam de facilitar o vai-vem dos compradores. As suas vindas ao pólo são controladas por dados que funcionam como uma espécie de Big Brother do bem. O Irmão Olho, do clássico de George Orwell 1984aqui funciona como uma poderosa estratégia que agiliza o tour dos lojistas, com funcionários do MPM se encarregando, mediante dados de compra anteriores, de identificar as preferências de cada um direcionando-os para aquilo que eles gostariam de comprar. No andar superior, um restaurante cumpre a função de alimentar os visitantes, evitando que se perca tempo saindo do pólo para se forrar o estômago em outro lugar. E, bem do ladinho, um estúdio de impressão digital e adesivo de recorte oferece serviços para quem pretende dar aquela repaginada rápida na programação visual da sua vitrine. Ao lado, um escritório de vendas de revistas de tendências Arena e Guelfi oferece assinaturas para se manter bem informado. Loucura.

A modelo infantil manda beijinho para o público na ponta da passarela. A postura do Mega Polo Moda – de promover vendas através da mescla de capacitação, informação e emoção – se reflete na atitude das modelos na catwalk, nada cool… (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Garota bombom: os segmentos infantil e teen ganharam blocos de desfile próprios nas apresentações da 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

O objetivo é vender, e nesse aspecto, todo mundo faz seu dever de casa como uma colmeia, com rainhas, operárias e soldados cuidando cada um do seu favo de mel. Em meio ao burburinho dos três desfiles de tendências coletivos diários, era possível conferir lojistas, como a Ouro Prata e Presage, mimando seus clientes com corners de tapiocas feitas na hora. A 775, de óculos, oferecia à entrada pipoca quentinha. Pura sinestesia. Afinal, como resistir àquele cheiro, mesmo que o objetivo seja escolher armações babadeiras e o último grito em formato de lentes? Ali perto, marcas como a Zune Jeans e a Recruta investiam em boas soluções de vitrine para atrair clientes, transformando tendências militares em cenografia bacanuda.

Estampas, estampas & estampas: como seria de se esperar, a fartura de prints digitais tomaram conta do verão 18 na passarela da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

E, claro, a presença maciça de bloggers – os influenciadores digitais ou, na sua versão mais recente, content creators (Ai, meu Deus!) – é estimulada, para que rapidamente as novidades das marcas na passarela e nas vitrines apareçam online. Especializadas no atacadão, belezuras como Gabi Sales, Ariane Cânovas, Fê Marques, Raiza Marinari e Mari Dalla são tratadas a pão de ló pelo MPM da mesma forma com que Camila Coutinho e Thassia Naves são a alegria das grifes que frequentam a SPFW.

Mega Polo Moda inclusivo: a moda plus size foi destaque na passarela da Mega Fashion Week, com os desfiles coletivos privilegiando marcas voltadas para o segmento e um percentual de modelos que atendiam a ele (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Mega Polo Moda inclusivo: a moda plus size foi destaque na passarela da Mega Fashion Week, com os desfiles coletivos privilegiando marcas voltadas para o segmento e um percentual de modelos que atendiam a ele (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

“A família que toca o Mega Polo já está na terceira geração disso que surgiu como um sonho. É empresa familiar que dá certo”, infla o peito Adelino, ex-Procter & Gamble, ex-Revlon, ex-Bosch Siemens, ex-Paramount. Na empresa há onze anos, ele divide com o superintendente Evandro Lima o sonho de transformar o Brás numa espécie de ONU do consumo. De preferência, bem lucrativa. “Temos os libaneses, os coreanos, ainda temos judeus aqui, tem a turma que veio de Bangladesh e Índia também”, dispara Adelino: “Fomentamos a vocação de São Paulo, que é o turismo de negócios. Depois da construção civil, a moda é o setor que mais emprega no Brasil”.

Com sua metralhadora verborrágica, o executivo frenético (não por acaso sol em gêmeos e ascendente em áries) entrega o jogo: “Capacitação. Trazemos para os lojistas e seus clientes um manancial de informação de qualidade para ajudá-los a gerir seus negócios, a lucrar. E não medimos esforços. Foi graças a essa visão que eles deixaram de pensar em vitrinismo para compreender o que é merchadising visual. Daí, eles mesmos começaram a subir o pé direito das lojas. Agora vamos promover uma palestra com um juiz do trabalho para a turma entender como funciona a nova legislação. O treinamento é contínuo, e o Mega Polo Moda é isso: um garimpo de oportunidades. Mas tudo sem neura; não abrimos mão da humanização”, completa.

Confira abaixo as principais tendências apresentadas na Mega Fashion Week (Fotos: Divulgação):

Jeans delavê + branco na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Alfaiataria + streetstyle na montagem da camisa branca com índigo destroy na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Amarrações e dobraduras para imprimir bossa à produção de moda e valorizar o acessório básico na 23ª edição da Mega Fashion Week(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Clima de azulejaria portuguesa na 23ª edição da Mega Fashion Week(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Comprimento mullet (mais comprido atrás) e listras verticais na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Aspecto artesanal e maxi bijoux étnicas na 23ª edição da Mega Fashion Week(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Azul clarinho na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Composição de renda e listras no look que traz a pantacours na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Dândi futurista: babados e laçadas coordenadas com peças metalizadas na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Roda e volume nas saias dos vestidos de festa na 23ª edição da Mega Fashion Week(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Neo pin up: padronagem de xadrez vichy na blusa de decote ombro a ombro na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Florais luminosos e exuberantes na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Amarelo, ocre, coral e laranja despontam como contrapontos à profusão de azuis na 23ª edição da Mega Fashion Week  (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

Preto & branco na 23ª edição da Mega Fashion Week (Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

(Foto: Marcia Fasoli / Divulgação)

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