*Por Andrey Costa

Há quem se engane ao achar que, no mundo das letras, o autor sempre dá conta de expor seus meandros mais íntimos. É essa questão que vem à tona em “Poderia me perdoar?(Can You Ever Forgive Me?, de Marielle Heller, Fox Searchlight Pictures e Archer Gray, 2018) , que teve duas indicações ao Globo de Ouro, três ao Oscar e que acaba de estrear no Brasil. Estrelado por uma atriz mais conhecida pela veia cômica, Melissa McCarthy (candidata da Academia à ‘Melhor Atriz’) essa produção se baseia em fatos reais, o que acaba conferindo um viés mais dramático ainda à trajetória da escritora Lee Israel (1939 – 2014) que, no limiar dos seus 50 anos e na crise da meia-idade, enxerga-se no ostracismo, sem o estofo da sua agente (Jane Curtin) para escrever uma biografia sobre a atriz Fanny Brice, como as que já escrevera sobre outros baluartes da arte da encenação, Katharine Hepburn e Tallulah Bankhead.

O filme começa escrachado, já na abertura, e rende boas risadas com o pedido de perdão de Lee acerca da tendência ao fracasso de escritores que se utilizam da obra alheia como fonte de inspiração.

“Poderia Me Perdoar?” (Foto: Divulgação)

A narrativa, dirigida pela cineasta Marielle Heller e recontada pelos roteiristas Nicole Holofcener e Jeff Whitty (estas também candidatas ao prêmio da Academia por ‘Melhor Roteiro Adaptado’), se passa nos anos 1990, em Nova Iorque, e conta com uma trilha sonora que merece destaque. Blues e jazz embalam essa saga ao mesmo tempo sofrida e hilária da escritora, que vem de um hiato causado por um bloqueio criativo que a deixa fora de um meio pelo qual ela já evitava transitar sempre que podia, causando completa indiferença na fogueira de vaidades abastecida pelos demais escritores, editoras e, principalmente, os seus leitores. Após receber um “chega para lá” da sua relações públicas, a moça decide que é hora de dar um sacode na sua carreira.

Lee Israel: de romancista biográfica à diva do crime, a escritora nos questiona se podemos perdoá-la por ser uma voz “mais potente” do que aqueles cujas cartas ela falsifica (Foto: Divulgação)

Confira abaixo a canção de Jeri Southern – “I Thought of You Last Night”-, que faz parte da trilha sonora de “Poderia me perdoar?”:

Na desesperada tentativa de descolar uns trocados, Lee Israel surrupia cartas originais de escritores famosos para dar cabo da sua estratégia de sobrevivência (Foto: Divulgação)

É aí que a história começa para valer: com as contas começando a se acumular na escrivaninha e o estopim da doença de sua gatinha de 12 anos, cujo atendimento na veterinária do bairro é negado, vem o insight de voltar a produzir. Bom, mais ou menos. Seu bloqueio criativo ainda a persegue e, numa dessas sentadas na cadeira para escrever, Lee se distrai com uma carta original de Fanny Brice, fazendo uma intervenção ao inserir um “P.S.” um tanto ácido. Nessa demonstração do quanto a protagonista se sente mais segura se passando por outra pessoa que investindo numa potente produção autoral, o roteiro confirma a ideia de que nem sempre se extrai ideias edificantes das adversidades, mas, muitas vezes vem à superfície o pior. E, no caso, é esse ar carregado de imperfeição que se encarrega de humanizar o périplo da escritora.

Confira abaixo o trailer oficial legendado de “Poderia Me Perdoar? (Divulgação):

Para fazer uma dinheirama express, Lee vai a uma livraria para vender a carta adulterada, comprada instantaneamente pela dona do estabelecimento. Quem acompanha a nova falsária do pedaço nesse lucrativo business de memorabilia fake, é Jack Hock (Richard E. Grant), um antigo conhecido, bon-vivant e traficante, chegado a todo tipo de falcatruas. Juntos, eles passam a causar um tumulto literário enganando livreiros e colecionadores com as tais cartas falsificadas de escritores famosos e antigas estrelas de Hollywood, tão sinceras quanto declarações de amor de viciados sexuais e relíquias arqueológicas confeccionadas em argila em biroscas nas imediações do Cairo.

Partners do crime: Lee e John (Richard E. Grant, que concorre ao Oscar de ‘Melhor Ator Coadjuvante’) brindam às numerosas rasteiras passadas em colecionadores ávidos pelas cartas que Lee falsifica (Foto: Divulgação)

Com sua arma em punho – a cópia do seu contrato editorial que justifica visitas às bibliotecas numa pesquisa científica sobre escritores alcoólatras -, Lee se torna expert na difícil arte de surrupiar cartas originais, substituindo-as por falsificações baratas para vender as originais com suas alterações plenas de humor. Com interpretações que valem o ingresso e um bom roteiro, apesar de previsível, a produção traz o doce charme da contravenção repleta de argúcia e carrega naturalmente aquele fascínio do público pelo desfecho. E, assim como o pedido de Lee no início da projeção, qualquer lugar comum na trama é perdoável.

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