Está em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro, Mulheres à beira de um ataque de nervos o musical“, adaptação dirigida por Miguel Falabella a partir do espetáculo da Broadway que estreou no Lincoln Center Theatre em 2010, baseado no livro de Jeffrey Lane, com músicas de David Yazbek, por sua vez inspirado no longa-metragem homônimo que transformou Pedro Almodóvar em cineasta-fetiche de toda uma geração de espectadores. Estrelando o papel que foi de Carmen Maura na tela, Marisa Orth encabeça grande elenco, como é de se esperar desse tipo de produção. O enredo – um dramalhão cômico kitsch bem ao gosto da segunda fase do diretor – narra o turbilhão emocional que se passa na cabeça da protagonista, uma atriz e dubladora de filmes que se vê abandonada pelo amante canastrão Ivan (Juan Alba).

Mulheres à beira de um ataque de nervos_CreditoPapricaFotografia_Cena_00321

“Mulheres à beira de um ataque de nervos – o musical”: com Marisa Orth à frente do elenco, Miguel Falabella encontra no universo de Pedro Almodóvar prato cheio para exercitar sua visão de mundo (Foto: Divulgação)

É impossível falar da peça sem pensar no filme que a inspirou, e que fique claro que o roteiro segue ipsis literis o desenrolar cinematográfico, quase situação após situação, acrescido dos devidos números musicais com direito às cenas de terraço, gaspacho aditivado com valium (sim, rivotril ainda não existia), mambo táxi e desencontros em cabines telefônicas numa era anterior à revolução digital, quando o aparato tecnológico acessível se resumia a recados nas jurássicas secretárias eletrônicas dos telefones fixos. Nesse aspecto, Falabella se diverte com esse delicioso panorama dos anos oitenta, que hoje parece tão distante quanto a época em que as pessoas faziam uso dos perfumes para disfarçar a falta de água encanada para tomar banho.

Mulheres à beira de um ataque de nervos_CreditoPapricaFotografia_Cena_00078

Pepa (Marisa Orth) e as mensagens gravadas em seu telefone: retrato de uma época, “Mulheres à beira de um ataque de nervos” traz a antiga secretária eletrônica como personagem ativo da narrativa (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

Vale ressaltar que, no panteão de tipos que Miguel Falabella cria, em obras tão diversas como Sexo e as Negas“, Toma lá, dá cá e Pé na Cova“, predomina o apreço não exatamente pelo bizarro, mas por tudo aquilo que foge da mesmice. No fundo, a vida não é nada convencional e o diretor parece sempre querer revelar ao público o quanto de perto ninguém é nada normal. Quem negaria que, por trás da estranheza freak não persistem os traços que, no frigir dos ovos, tornam todos humanos? Nesse âmbito, a galeria de tipos de “Mulheres à beira de um ataque de nervos” é massinha de modelar para o responsável pela montagem brasileira.

Quando “Mulheres à beira de um ataque de nervos” (Mujeres ao borde de un ataque de nervios, El Deseo, 1988) foi às telas, Pedro Almodóvar ainda estava restrito a um circuito alternativo de cinéfilos, distante da postura do diretor celebrity que arrebataria futuramente o Oscar de ‘Melhor Roteiro Original’ e concorreria ao de ‘Melhor Diretor’ por “Fale com Ela” (Hable con ella, El Deseo e outros, 2003).

mulheres a beira de um ataque de nervos cartaz filme final

Cartaz original do longa-metragem “Mulheres à beira de um ataque de nervos”: filme que concedeu o estrelato ao cineasta Pedro Almodóvar é retrato dos exageros oitentistas (Foto: Reprodução)

Mujeres+al+borde+de+un+ataque+de+nervios+1 final

Da esquerda para a direita, o escrete feminino principald e “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, o longa original: María Barranco, Rossy de Palma, Julieta Serrano e Carmen Maura, todas escandalosíssimas (Foto: Divulgação)

Retrato cafona tardio da sua década (e dos exageros estéticos e passionais new wave), o filme rapidamente se verteu em coqueluche global, projetando o nome do diretor, lançando Carmen Maura como diva, transformando a diferentona Rossy de Palma em criatura celebrada pelos modernos e lhe conferindo o passaporte para o estrelato fashion, como personalidade na passarela de Jean Paul Gaultier na Semana de Moda de Paris.

Ícone da moda, Rossy de Palma em três momentos, após ganhar notoriedade em “Mulheres à beira de um ataque de nervos”:

jean-paul-gaultier-spring-1994-rtw-detail-65-rossy-de-palma final

Multiculturalismo na moda: Rossy de Palma desfila para Jean Paul Gaultier na Semana de Moda de Paris, durante a temporada da primavera verão 1994 (Foto: Reprodução)

rossy de palma final

Para não dizer que não falei de flores: no auge, Rossy de Palma posa para a celebrada dupla de diretor de arte e fotógrafo Pierre et Gilles (Foto: Reprodução)

rossy_de_palma jean_paul_gaultier_en_paris_ spring summer 2015 final

Shape à la Botero não intimida: recentemente, Rossy de Palma apareceu com uns quilinhos a mais no desfile da coleção haute couture verão 2015 de Jean Paul Gaultier (Foto: Reprodução)

O sucesso do filme foi tanto que credenciou o então ator-emblema de Almodóvar, Antonio Banderas, a ocupar o posto de latino da vez em Hollywood, a começar por uma participação ainda tímida em Filadélfia (Philadelphia, de Jonathan Demme, TrisStar Pictures, 1993), depois de ter seu nome devidamente alardeado ao quatro ventos por uma Madonna no auge, fã convicta do cineasta espanhol.

banderas e maria barranco final

Um Antonio Banderas nerd (Carlos, à esquerda) e a aspirante a modelo Candela (María Barranco, á direita) fazem ar de surpresa no histérico “Mulheres à beira de um ataque de nervos” (Foto: Reprodução)

E, mais que tudo, o longa formatou no imaginário do grande público aquilo que se configuraria a partir de então em “um filme de Almodóvar”, registrando o estilo verborrágico nervoso e as imagens coloridas como digital do diretor, que passou a fazer parte do panteão daqueles realizadores com marca inconfundível e ponto de vista único, como Woody Allen, Fellini e Hitchcock.

almodóvar final

Pedro Almodóvar: com visão da existência particularíssima, o cineasta espanhol conseguiu filme após filme deixar sua marca pessoal no cinema, aspecto que o musical inspirado em “Mulheres à beira de um ataque de nervos” tenta emular (Foto: Reprodução)

Confira abaixo três momentos que ficaram na memória do público que assistiu à trama de “Mulheres à beira de um ataque de nervos” nas salas de exibição:

Nesse âmbito, o musical cumpre parcialmente sua função. Se no aspecto visual reproduz fielmente a estética que caracteriza o cineasta espanhol, é na ausência do aprofundamento das nuances que definem a amplitude da humanidade – aspecto fundamental da obra de Almodóvar –, que se o conjunto fica a dever, apesar de bem embalado pela casca de narrar a história naquele formato esquemático de musical.

Em relação às músicas, também acontece fato curioso: se o repertório musical de Almodóvar é tão rico, resgatando pérolas da cultura popular, por que não fazer uso delas ao invés de canções criadas especificamente para o musical? Afinal, é notório o gosto peculiar do cineasta para escolher os hits que compõem a ambiência de seus filmes e dificilmente melodias compostas especialmente para o musical estariam à altura da pesquisa musical original.

Mas, tudo bem. Se as músicas não são conhecidas (ou não empolgam como deveriam), como em outros espetáculos do gênero, e se a duração da peça é um pouco maior do que poderia, não é culpa do diretor. Falabella tem tanto expertise de sobra quanto noção de timing e, claro, provavelmente precisou se render a alguns excessos contratuais que devem estar amarrados no papel.

Confira abaixo um trecho do musical (Reprodução):

Ainda assim, a peça dá cabo de sua divertida função de revelar o quanto os espanhois (e os brasileiros!) podem ser ridículos diante dos meandros da paixão. O cenário de J. C. Serroni é delicioso e a maneira como os diversos elementos cênicos entram e saem em movimentos circulares revela o redemoinho de sentimentos contraditórios que se passa na mente dos personagens. A opção por mesclar elementos sólidos com projeções, a cargo de Rico e Renato Vilarouca, resolve uma série de questões de produção e ainda insere o contexto naquela histeria dos primórdios da computação gráfica, quando os clipes multimídia de gente como Grace Jones, a efervescência visual da MTV e os programas de Max Headroom sintetizavam tresloucadamente a essência pré-telêmica do período, já repleta de layers.

O figurino de Fabio Namatame é bom e se contenta em reproduzir a atmosfera hilária do longa-metragem, com o mix entre cores fortes, oncinhas e prints dignos de uma Lupe Velez oitentista. É sensacional o figurino de Lucía – a esposa de Ivan que saiu do sanatório e mãe de Carlos –, que desloca a Jovem Guarda dos anos 1960 para uma mulher que já passou da idade e não quer nem saber. Como se Wanderléa surgisse num Chacrinha de final de carreira envergando um modelito de Perdidos no Espaço.

Mulheres à beira de um ataque de nervos Marisa_Stella

Marisa Orth e Stella Miranda em “Mulheres à beira de um ataque de nervos – o musical”: figurinista Fabio Namatame pinta e borda com o visual que celebra a cafonice em boa parte dos filmes de Pedro Almodóvar (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

A escolha de Marisa Orth para o papel principal é um acerto: além de sua boa voz de mezzo-soprano e do physique du rôle perfeito, ela transita com a desenvoltura que se espera entre a cafonice da dubladora dublê de mulher abandonada e o desespero da quarentona grávida que vê sua vida de pernas para o ar, mas precisa manter o prumo. Afinal, sua própria trajetória artística se mistura com a influência almodovariana, tendo iniciado a carreira  em espetáculos underground nos quais mesclava comédia com música, como a os shows das bandas Luni e Vexame, os quais, junto com o seu primeiro sucesso no palco – Fica comigo esta noite(1988) – lhe deram o salvo conduto para ingressar na TV como a impagável Nicinha, de Rainha da Sucata (1990).

Mulheres à beira de um ataque de nervos

De volta às origens: em papel que foi de Carmen Maura no cinema, Marisa Orth dá vazão ao duo “atuação kitsch & gogó rasgado”, sua marca na época que começou a despontar na cena teatral, como vocalista das bandas Luni e Vexame, nos anos 1980/90 (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

Como a modelo Candela, a melhor amiga de Pepa que se envolve com um terrorista xiíta, Helga Nemeczyk continua sua trajetória de sucesso no teatro, emendando papel após papel com destaque e impressionando todos com sua voz límpida e interpretações deliciosas. Ela imprime um jeito mais infantil à personagem que María Barranco viveu no longa-metragem, “un tanto más blasé”.

mulheres a beira de um ataaque de nervos o musical Helga 2

Helga Nemeczyk vive a modelo Candela, envolvida com um terrorista: “Mulheres a beira de um ataque de nervos – o musical” explora a humanidade que existe por trás do insólito (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

Na pele de Carlos, Daniel Torres tira proveito do seu biotipo frágil para dar vida ao rapaz que quer sair da aba da mãe dominadora. Juan Alba está adequadíssimo ao seu garanhão Ivan e sua voz afinada surpreende quem está costumado a vê-lo nas novelas. Se sai bem, quase um Agnaldo Rayol hétero. Já Carla Vazquez consegue sobressair na difícil missão de compor uma personagem tão estranhamente ímpar quanto a que ganhou os contornos de Rossy de Palma nas telas. Ela manda bem. Para quem viveu criaturas como Patsy em Crazy For You“, não basta apenas o ótimo visagismo de Dicko Lorenzo para dar cabo da composição.

Erika Riba segura um papel que não é nada simpático e, conduzindo a história em vários trechos, Ivan Parente faz o taxista do mambo táxi com afinco, ainda que um pouco mais doce do que deveria. Poderia ser menos piegas e mais cínico como convém a alguém que leva e traz criaturas que se movem entre a corte e a movida madrilenha.

No corpo de baile, se destacam a boa Bruna Pazinato e o versátil Oscar Fabião, que não ser rende à cilada de ser bonito para cair com garra na sucessão de tipos que interpreta, sempre com limpeza de movimento. E como não destacar o veterano Carlos Leça, três décadas de ótimos serviços prestados ao teatro musical, uma delícia de se ver em cena?

mulheres a beira de um ataque de nervos

Da esquerda para direita: em cima, Daniel Torres, Marisa Orth, Juan Alba, Stella Miranda e Erika Riba; embaixo, Helga Nemeczyk, Ivan Parente e  Carla Vazquez: linha de frente do musical “Mulheres à beira de um ataque de nervos” compõe o panorama de tipos que formatam o ponto de vista almodovariano de se ver a vida (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

Mas, no geral, é Stella Miranda na pele de Lucía quem rouba a cena a cada aparição, na interpretação e na voz. Em assombrosa caracterização que remete àquela vivida por Julieta Serrano no cinema e vem na exata medida do ridículo, ela se mostra a mais desesperada de todas as mulheres do sistema solar e, quando abre a boca, a plateia só não se cala porque é impossível conter o riso. Se “Mulheres à beira de um ataque de nervos” não tivesse qualidades, a atriz por si só já valeria o ingresso.

Mulheres à beira de um ataque de nervos Stella Miranda

Dá um close que eu estraçalho: no papel da desequilibrada Lucía, Stella Miranda engole o espetáculo “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Quando entra em cena, a veterana – que já trabalhou com Miguel Falabella em “South American Way” -, não sobra pedra sobre pedra (Foto: Páprica Fotografia / Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.