Nenhuma dúvida de que, com todo o tititi nos últimos anos acerca da valorização das mulheres em Hollywood, a coisa pode estar tomando jeito. Pelo menos um pouquinho. Afinal, há menos de três anos, o grande barulho no Oscar era o bochicho sobre elas receberem menores salários que eles, seja na frente ou por detrás das câmeras. Entretanto, nesse verão norte-americano que se aproxima do fim, foram as mulheres que mostraram a que vieram dando um banho nos rapazes. Atual cereja do bolo na pauta dos grandes estúdios, os filmes de super-herói reencontraram o fôlego em Mulher-Maravilha“, primeiro longa desse tipo dirigido por uma diretora e estrelado por uma paladina dos quadrinhos.

“Mulher-Maravilha”: de emblema master do movimento feminista, a personagem agora também representa o êxito delas pela busca de melhores condições de trabalho numa Hollywood machista e misógina (Foto: Divulgação)

Não uma personagem qualquer, diga-se de passagem, mas “A Personagem”. Assim mesmo, com maiúscula. Se o fato de a princesa amazona ser a principal heroína dos gibis e um produto de lança na indústria cultural, com faturamento miliardário e implicações em processos sociais como a emancipação feminina, nada disso impediu que a produção levasse 20 anos para conseguir sair do papel, pulando de mão em mão.

Por duas décadas, tudo não passou de esboço de roteiro, seja através de produtores consagrados como Joel Silver, cineastas de prestígio como George Miller e diretores blockbusteiros queridinhos dos estúdios, tipo Joss Whedon. Sim, os homens não conseguiram dar cabo dessa tarefa e a vergonha é quase equivalente a uma ereção falha.

No frigir dos ovos, foi o talento de duas mulheres quem salvou a pátria: o carisma inegável da israelense Gal Gadot no papel-título e a mão firme, quase bissexta no cinemão, de Patty Jenkins, que soube criar um blockbuster que renovou o gênero, ultimamente bastante criticado por aqueles que consideram que a eficiente fórmula Disney/Marvel Studios está desaguando na mesmice.

Mulheres no comando: Patty Jenkins orienta Gal Gadot numa sequência de batalha de “Mulher-Maravilha“. Fora do set, a guerra está lançada: o ótimo desempenho da produção nos cinemas mundiais credenciou a diretora a pleitear o maior salário já pago a uma mulher para comandar um filme! (Foto: Divulgação)

Filme-fetiche das férias de verão em cartaz desde o final de maio, bem recebido por público e crítica, o longa-metragem já fez mais de 800 milhões de dólares de bilheteria, ultrapassou o faturamento de Batman vs. Supermane deu um rolezão daqueles, em território estadounidense, no estimado Guardiões da Galáxia Vol.2: 400 milhões de dólares contra 390 milhões até o início de agosto. Turbinadíssimo, é considerado o maior filme do gênero em 2017 e teve o melhor desempenho de um filme de super-herói nos últimos 15 anos. Detalhe: o filme ainda vai estrear no Japão.

Ao romper o paradigma de que longa de super-heroína não dá receita satisfatória nem vende bonequinho feito água em loja de brinquedos, “Mulher-Maravilha” se tornou coqueluche e pôs a Warner Bros. nos trinques. Diana Prince agora é figura de ponta nas realizações do estúdio: aparece na frente dos marmanjos encapuzados nos cartazes de divulgação de Liga da Justiça e promete o sucesso nessa produção a estrear em novembro. E mais: há rumores de que a moça deve dar aquela pinta básica no filme-solo do Flash para alavancar a plateia, em 2020, ano seguinte da sua já planejada continuação, programada para 13 de dezembro de 2019.

Figura central: Quem diria? Se a Mulher-Maravilha, quando foi integrada à Liga da Justiça, nas HQs dos anos 1940, cumpria inicialmente a função de secretária para heróis de capa, hoje – após o enorme sucesso na telona – é ela que toma a dianteira no cartaz do novo longa-metragem da WB que vai estrear em novembro. O motivo? Bom, ela  fatura mais que seus colegas barbudos… (Foto: Divulgação)

Apesar de todo o barulho, somente há pouquíssimo tempo Patty Jenkins ainda não foi confirmada na direção de Mulher-Maravilha 2“, e houve quem bradasse impropérios quando circulou na mídia, no início de julho, que Gadot haveria recebido apenas 300 mil dólares para interpretar a guerreira enquanto Henry Cavill embolsou 14 milhões por O Homem de Aço. Sei…

Todavia, saiu no instagram @dc_extended_universe nesta noite de quinta-feira (17/8) um post informando que Jenkins está em vias de fechar o contrato para conduzir a continuação. E, poucas horas antes, o site Deadline, que não costuma errar, deu que a diretora está prestes a se tornar a mais bem paga do cinemão. Segundo o site, ela ainda não fechou o negócio porque almeja receber o mesmo que um diretor do sexo masculino e, de acordo com uma fonte da Warner, “os executivos estariam confiantes de que o acordo será alcançado em breve”.

(Foto: Instagram / Reprodução)

(Foto: Instagram / Reprodução)

Além de quebrar recordes em Hollywood, incluindo a melhor receita de abertura de filme dirigido por uma diretora mulher, trata-se da terceira maior bilheteria da história da Warner Bros., que já se movimenta para emplacar a produção na corrida ao Oscar 2018. Sim, Jenkins – que já havia possibilitado a Charlize Theron ganhar um Oscar – é mulher, mas picuda!

Na outra ponta, Sofia Coppola é a outra fêmea-destaque desse verão no Hemisfério Norte. Á frente do remake de O estranho que nós amamos” (The Beguiled), ela papou em Cannes a Palma de Ouro de ‘Melhor Direção’, ainda que o filme não seja nenhuma Brastemp. Diante disso, foi parar nas manchetes de todo o planeta, mesmo com o longa sendo recebido com frieza durante a sessão de gala, após a toda expectativa na Croisette.

No set: Sofia Coppola dirige sua atriz predileta Kirsten Dunst na refilmagem de “O estranho que nós amamos” (2017). Entre várias deficiências, nesse campo o longa deu certo: a interpretação da atriz é um dos pontos fortes da produção (Foto: Divulgação)

Bem verdade que a produção é mesmo uma belezura em termos imagéticos. São de cair o queixo a fotografia onírica, o figurino inspiradíssimo (por sinal de uma mulher, Stacey Battat, que já havia colaborado com a diretora em The Bling Ring“) e a deslumbrante direção de arte (a cargo de outra criatura de saias, Jennifer Dehghan. E que fique claro que, a despeito das novas fronteiras de identidade de gênero, Dehghan nasceu mesmo sem o pingulim). E para por aí.

Figurinista competente, Stacey Bartett já havia trabalhado com Sofia Coppola em “The Bling Ring” (foto). Agora, seu apuro visual é um dos aspectos que salva a controversa adaptação de Sofia Coppola para o livro de Thomas Cullinan (Foto: Divulgação)

Okay, apesar da estatueta, quando comparada com o original homônimo de 1971 dirigido por Don Siegel  e protagonizado por Clint Eastwood e Geraldine Page, a versão de Coppola do livro de Thomas Cullinan deixa muito a desejar. A sublimação da cenas fortes como o beijo do soldado yankee em uma pré-adolescente, a supressão do personagem da escrava negra e, sobretudo, a ausência explícita de uma assustadora sequência de amputação que define o rumo da narrativa são pecados tão mortais nessa adaptação da diretora quanto a distinção de cachês entre homens e mulheres na Meca do Cinema.

Clint Eastwood em ação: numa época na qual o conceito de “politicamente correto” ainda não havia sido forjado, o astro de filmes western passa o rodo no pensionato da história de “O estranho que nós amamos” (The Beguiled). Nem menina-moça ele perdoa! (Foto: Reprodução)

É possível culpar a filha de Francis Ford, sem qualquer misoginia, de ter preferido filmar uma produção “mulherzinha” pseudo politicamente correta ao invés de cair de cabeça na visceralidade contida nessa obra literária e na sua primeira realização  para as telas. Tanto o livro quanto a produção que trouxe Eastwood de volta aos EUA lidam de forma muito mais crua com a repressão feminina das pulsões sexuais e daquilo que uma mulher no cio é capaz de fazer para segurar um macho.

Sofia Coppola demonstra a opção de por de pé mais um editorial de moda no estilo gótico sulista que uma narrativa para valer. O resultado quase esbarra no vazio de um fashion film: é lindo de doer e ponto. E, nesse âmbito, é outra mulher quem consegue salvar a escolha de Sofia: a montadora Sarah Flack. Apesar de lenta, a edição é primorosa.

Fashionista, e só! Sofia Coppola demonstra se interessar mais pelos aspectos visuais de “O estranho que nós amamos” que pela força da história. No resultado, os elementos estéticos formais são os que seguram a narrativa (Foto: Divulgação)

Apesar disso, a imprensa especializada, óbvio, caiu na pele da cineasta, mesmo vendo certas qualidades no trabalho. Ainda assim, Sofia não parece estar nem aí: não saiu de mãos abanando do Festival de Cannes e tudo indica que, nas categorias visuais, esta sua última empreitada pode vir a concorrer a alguns Oscars em 2018.  Quem sabe…

Para consagrar mais ainda a percepção de que, nessa temporada quente, são as mulheres que dão as cartas, basta fechar no elenco de “O estranho que nós amamos”: como a preceptora de um pensionato de moças Nicole Kidman está bem e Elle Fanning até dá conta do recado, mas é Kirsten Dunst – velha colaboradora de Coppola, brilhante mesmo gorda – quem leva todas na palma da mão.

É o escrete feminino de “O estranho que nós amamos”  – Elle Fanning, Nicole Kidman e Kirsten Dunst – que segura o filme de Sofia Coppola (à esq.). Se na versão original Clint Eastwood interagia de igual para igual com Geraldine Page, agora a força do protagonista masculino é esvaziada a um patamar de um bonequinho inflável (Foto: Reprodução)

Tadinho do Colin Farrell no papel que coube ao velho Clint defender com tanta garra quase 50 anos antes. Dessa vez, o cabo da União se mostra tão insípido quanto uma sopinha de maçã, sendo a prova cabal de que, nessa estação, os homens não têm mesmo vez. Pobrezinhos…

Assim mesmo, apagadinho: a fotografia lúgubre e soturna de “O estranho que nós amamos” acabou sendo adequadíssima. Ajudou a por o machão Colin Farrell na penumbra, eclipsado pelo elenco feminino (Foto: Divulgação)

 

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