Parece mentira, mas houve um período da história do cinema em que o império prateado de Hollywood chegou a ser seriamente desafiado por outra cinematografia. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Itália invadia amplamente não só as telas dos circuitos de arte, através de um pelotão de cineastas que dificilmente serão superados – como De Sica, Fellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Bertolucci, Zeffirelli e Germi, entre tantos outros –, como também arrastava multidões aos grandes cinemas e às salas “poeiras” em todas as partes do mundo, atraídas por uma produção maciça em vários gêneros que caíram no gosto do povão, como os épicos mitológicos e sua procissão de Hércules, Macistes e Ursus; os melodramas urbanos e de época, a comédia erótica, o thriller policial; o giallo – uma mistura de thriller psicológico com filme de mistério, turbinada com altas doses de erotismo e violência, e – é claro – o famigerado western spaghetti, com seu bando de Ringos, Sartanas, Sabatas, Djangos, Johnnys e Trinità, vividos por estrelas como Franco Nero, Giuliano Gemma, Clint Eastwood, Terence Hill e – the last, but not the leastGeorge Hilton. Tudo e todos menosprezados em suas respectivas épocas pela crítica marxista ou acadêmica, mas agora transformados em objetos de culto.

George Hilton 5

O uruguaio George Hilton foi um dos maiores símbolos do western spaghetti ao lado de Giuliano Gemma, Franco Nero, Terence Hill e Clint Eastwood. O gênero, conhecido também como western alla italiana e macarroni western, floresceu durante os anos 1960 nas mãos de diretores como Sergio Leone e Sergio Corbucci, que influenciam até hoje Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Sam Raimi e Roberto Rodriguez (Foto: Reprodução)

George Hilton 6 final

George Hilton (à esquerda), com 82 anos e ainda ativo, esteve na semana passada no Rio de Janeiro para participar de homenagem à sua carreira na Cinemateca do MAM e de gravações para o documentário sobre o astro dirigido por Daniel Camargo (à direita) (Foto: Divulgação)

Com 82 anos bem vividos e ainda em excelente forma, George Hilton – que mora em Roma – permaneceu três dias no Rio de Janeiro a fim de participar de uma sessão especial na Cinemateca do MAM de um dos seus títulos mais emblemáticos O estranho vício da Senhora Wardh (Lo strano vizio della Signora Wardh, 1970) com a presença de autoridades consulares do Uruguai, seu país de origem, e para conceder entrevistas ao diretor Daniel Camargo e ao pesquisador da Cinemateca do MAM-Rio Fábio Vellozo. Esse material integrará um documentário sobre a sua longa trajetória no cinema [leia entrevista abaixo] que permanece ativa até hoje já que continua trabalhando no cinema e na TV italiana.

No encontro, recordou aqueles anos espetaculares não só para a cinematografia da Itália, como a de outros países que tentavam explorar a janela aberta entre o fim da Era de Ouro de Hollywood e seus estúdios – cujo marco é o colossal Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz, com Elizabeth Taylor – e a invenção da Nova Hollywood, no meio dos anos 1970.

George Hilton george-hilton-edwige-fenech-wardh

George Hilton atuou diversas vezes com a estrela franco-italiana Edwige Fenech, rainha do giallo e diva da comédia erótica italiana dos anos 1970. A química entre os dois colaborou para o sucesso de “O estranho vício da Senhora Wardh” (1970), rodado em Viena por Sergio Martino, mestre dos thrillers de horror (Foto: Reprodução)

Vale a pena relembrar esta famosa cena de erotismo sadomasoquista do giallo “O estranho vício da Senhora Wardh” (1970), com o macabro tema musical de Nora Orlandi, posteriormente reutilizado por Quentin Tarantino em “Kill Bill Vol. 2” (Reprodução): 

É óbvio que George Hilton é um nome artístico. E sob ele está o cidadão uruguaio Jorge Hill Acosta y Lara, nascido em Montevidéu em 1932. Em 1955, transferiu-se para a Argentina onde o meio artístico-teatral era mais desenvolvido. De lá, no início dos anos 1960 seguiu para a Itália, completamente por acaso, onde foi tragado pela dolce vita romana. A mitológica Via Veneto era, então, a passarela do mundo cinematográfico e foi também por acaso que, na sua calçada, acabou sendo convidado a entrar para o cinema num momento em que Roma era chamada de “Hollywood sobre o Tibre”. O resto é história. Foi por causa desses golpes do destino que Hilton, quando perguntado sobre como um sul-americano conquistou uma carreira de tamanho destaque no cinema, ele respondeu sem pestanejar e com evidente modéstia: “Suerte, suerte y suerte”.

George Hilton 2

Assim como seus “concorrentes” no gênero, George Hilton imortalizou entre 1971-74 dois personagens do panteão do western spaghetti: os pistoleiros Aleluia e Tresette, embora tenha interpretado um Sartana, em 1970. Nessa fase, os spaghettis derivaram para uma veia mais cômica como em “Chamam-me Aleluia” (1971) (Foto: Reprodução)

George Hilton anthony-steffen-blood-at-sundown final

Outro sul-americano também integra a história do western spaghetti: o ítalo-brasileiro Anthony Steffen (Antonio Luiz de Teffé, 1930-2004), filho de embaixador e sobrinho-neto de Nair de Teffé. Depois de atuar em dezenas de filmes de todos os gêneros populares italianos durante três décadas (1950-70) ao lado de estrelas como Sophia Loren e Claudia Cardinale, tornou-se figura do jet set internacional. Faleceu no Rio, vitimado por um câncer. (Foto: Reprodução)

Essa “sorte” fez com que trabalhasse com ou desfrutasse da companhia dos maiores diretores, atores e atrizes do cinema mundial, já que para a Itália se dirigiam artistas cinematográficos do mundo inteiro, inclusive dos Estados Unidos. Dessa experiência, veio a sua admiração pelo extraordinário profissionalismo dos intérpretes norte-americanos, com quem atuou, como Carroll Baker, Ernest Borgnine (1917-2012) ou Michael Rennie (1909-1971), assim como suas críticas em relação à improvisação “à italiana” ou aos excessos de temperamento, como os do bizarro Klaus Kinsky (1926-1991, pai da maravilhosa Nastassja Kinsky) ou do grande diretor Lucio Fulci (1927-1996) que em seus célebres acessos de fúria esfrangalhava o roteiro que estivesse à mão.

George Hilton 3

George Hilton é esmurrado por Franco Nero no seu filme de estreia no western spaghetti “Tempo de matança” (Tempo di massacro, 1966), de Lucio Fulci, mestre do horror italiano e que também fazia sua primeira incursão com sucesso estrondoso no gênero que conquistava o público mundial não só pela violência como pelo estilo inconfundível (Foto: Reprodução)

Confira abaixo o trailer de “Tempo de Massacre” (1966), um verdadeiro compêndio do estilo italiano de fazer western (Reprodução):

Hoje, Hilton reconhece que esse apogeu da cinematografia italiana, assim como a dolce vita romana jamais se repetirão, e por duas razões. A primeira é que cinema mudou completamente, e a segunda é a violência nas grandes cidades, como Roma, que impede as pessoas de sair de casa tranquilamente para tornar a noite um grande, interminável, livre e fértil encontro. Mas quando questionado sobre Florinda Bolkan, a estrela brasileira que mais fez sucesso internacional no cinema depois de Carmen Miranda e figura de proa desse momento mágico das telas italianas, George Hilton respondeu: “Há muito tempo que não a vejo. Era maravilhosa!”.

George Hilton trust-me

Além da virilidade, George Hilton passava um fascínio lânguido e sinistro que o tornou muito requisitado em outros dois gêneros Made in Italy super populares na década de 1970: o giallo (thrillers eróticos e violentos) e os polizzieschi (thrillers policiais). Um dos seus maiores triunfos no giallo foi o hoje clássico “A cauda do escorpião” (1971) (Foto: Reprodução)

Um dos filmes preferidos de George Hilton é “A cauda do escorpião” (1971), de Lucio Fulci, outro giallo que entrou na história do cinema, até porque tinha no elenco, além de Hilton, a sueca Anita Strindberg, uma das mas belas atrizes europeias do seu tempo e música de Bruno Nicolai. Confira neste tributo disponível no YouTube:

 UMA HOMENAGEM, MAIS DO QUE UM DOCUMENTO

O diretor, produtor e pesquisador carioca Daniel Camargo – co-autor do livro “Anthony Steffen-A saga do brasileiro que se tornou astro do bangue-bangue à italiana” e diretor da minissérie Boca do Lixo: a Bollywood brasileira para o Canal Brasil/Globosat – esteve à frente do projeto que trouxe George Hilton ao Brasil, enquanto prepara a série Rio de topless – com a diretora Ana Paula Nogueira, também para o Canal Brasil. Logo após o evento no MAM-Rio, ele concedeu ao ÁS entrevista exclusiva:

ÁS: Como nasceu a ideia do documentário “George Hilton, uma viagem pelo cinema popular italiano“?

DANIEL CAMARGO: Graças ao primo de Hilton, Pablo de Arteaga Hill, eu soube de sua visita ao Brasil. Isso não pode passar em branco, pensei, e logo me juntei a Fábio Vellozo, um dos curadores da Cinemateca do MAM, para organizar uma merecida homenagem brasileira a Hilton. Contudo, uma homenagem pode ser esquecida. Já um documentário, fica. A vida e carreira de Hilton merecem um registro audiovisual digno, desta forma nasceu o filme – primeiro trabalho de 2017 da minha empresa Elka Filmes.

George Hilton final

George Hilton é sabatinado por Fábio Vellozo, curador adjunto e pesquisador da Cinemateca do MAM após a projeção de “O estranho vício da Senhora Wardh” (Foto: Flávio Di Cola)

ÁS: Na abertura da sessão no MAM-Rio, a sua fala apontou para certo desconhecimento do que foi a potência do cinema italiano entre as décadas de 1960 e 1970  uma época em que os italianos chegaram a ameaçar a supremacia de Hollywood. Seu projeto pretende algum tipo de resgate?

DC: Não um resgate, pois a história está aí para quem quiser pesquisar. Nosso objetivo é facilitar o acesso a esta informação, criando um filme agradável e instrutivo a respeito de uma época áurea do cinema italiano.

ÁS: Como o cinema italiano perdeu essa primazia?

DC: Não apenas o cinema italiano, mas várias cinematografias tiveram suas atividades reduzidas a partir dos anos oitenta. O modo de produção mudou, os custos aumentaram e recuperá-los tornou-se muito difícil. Por mais que a tecnologia atual tenha barateado a realização, a exibição ainda é o grande gargalo.

ÁS: Qual o legado desses ciclos e gêneros populares da cinematografia italiana popular como o filme mitológico, o western spaghetti e o giallo para o cinema contemporâneo?

DC: O bom cinema é feito de referências e conhecimento. A linguagem, a narrativa e o estilo desses gêneros populares tornaram-se elementos de formação de novos realizadores, como Quentin Tarantino. Desta forma, suas interpretações destes códigos e símbolos mantém vivo este legado.

ÁS: Quando poderemos ver o seu documentário pronto? Pretende exibi-lo na Itália também?

DC: A previsão é de “George Hilton, uma viagem pelo cinema popular italiano” estar pronto em abril. Sendo seu tema muito popular e com admiradores no mundo inteiro, faremos o circuito dos festivais internacionais. A Itália, sem dúvida, como em um western com George Hilton, é um de nossos alvos.

George Hilton if_vadolammazzo_3

Em 1967, George Hilton estrelou, dirigido por Enzo Castellari, “Vou, mato e volto” (Vado…l’amazzo e torno), uma resposta ao grande clássico do western spaghetti “O bom, o mau e o feio” (1966), de Sergio Leone. Ambas as produções foram um tremendo sucesso, inclusive no Brasil (Foto: Reprodução)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.