Numa era de crise e renovação na qual os desfiles de moda mais que nunca enfatizam a sobrevivência comercial das labels, fashion shows como os de Ronaldo Fraga na SPFW são um alento. Sopro de criatividade é pouco. Dessa vez, o mineiro continua com a língua afiadíssima, ou melhor, com as ideias em riste. Seus desfiles nunca são gratuitos, além de apresentarem ótimas ideias de coleção. Dessa vez, uma fornada de looks majoritariamente em jeans escuros irrompeu a passarela, com belos trabalhos de richelieu.

 

Ronaldo Fraga – SPFW N46 (Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Completadas por peças em turquesa, as montagens amplas como de praxe traziam inscrições em corrosão ou cortadas a laser com nomes de cristãos novos: Oliveira, Pereira, Moreira, Carvalho, Pinheiro, Figueira, Lima, ao lado de bordados da hora que traziam ramos de oliveiras, estrelas de davi, laranjas das árvores que ele viu colorirem o perímetro urbano de Tel Aviv, aplicações, bolsas e adereços em forma de peixes, bordados na da menorá, o candelabro judaico de sete braços. Alguns looks foram arrematados com lenços palestinos, enquanto as hastes dos óculos escuros se prolongavam em trancinhas de cabelos iguais àquelas usadas pelos judeus ortodoxos. Visual mezzo “Yentl”, mezzo árabe.

Ronaldo Fraga – SPFW N46 (Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

E qual é exatamente a mensagem que Ronaldo quis passar? Tudo começou numa viagem feita ano passado à capital de Israel. Ao contrário do que ele esperava, uma metrópole cosmopolita e inclusiva, com alegres casais hétero e gays circulando, na qual as mesas ocupadas por judeus e árabes nos restaurantes ganhavam 50% de desconto. Coube ao designer, que ultimamente tem se revelado político ao extremo nas redes sociais, fazendo oposição ferrenha ao presidenciável Jair Bolsonaro, a missão de exaltar na coleção essa insuspeita tolerância encontrada em Tel Aviv.

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

“Onde está a guerra que eu esperava ver? A guerra está no Brasil. Existem conflitos em todos os lugares, mas precisamos abrir os olhos para o conflito que se infiltra em nosso país, tornando aceitáveis os ódios vistos e ditos à luz do dia”, alerta Ronaldo no release manifesto enviado por mail.

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Servia de cenário uma extensa mesa de jantar adornada para a ceia, com quitutes que podem ser pleiteados de cenário tanto por árabes quanto judeus. Esfihas, quibes, homus, gelfit fish, tudo a cargo do restaurante Arabek, com sede nos Jardins e filial na 25 de Março (ou o contrário!). Ela ia acolhedoramente acomodando os modelos como numa festa familiar, daquelas que podem ser judaicas, cristãs, católicas, muçulmanas, não importa o credo. Nessa imensa família composta por gente nova, velha, crianças, louros, morenos, portadores de necessidades especiais, modelos trans, negros como a top Mariane Calazan, ruivos de ascendência judia como Gabriel Sinnel, casais hétero ou homoafetivos (com direito a selinho na frente do pit dos fotógrafos), todos iam se sentando. Sentando, comendo, bebendo vinho, amando.

Ronaldo Fraga – SPFW N46
out/2018
foto: Gabriel Cappelletti / Fotosite

Na trilha, de Padam padam“, de Édit Piaf em arranjo judaico a My Way cantado em íidiche, além do clássico “Hava Nagila“. No final, plateia foi puxada para esse banquete multirracial e democrático. A esfiha estava uma delícia, aliás. Foi a mordida do ÁS contra a intolerância.

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

Ronaldo Fraga – SPFW N46(Foto: Divulgação / Marcelo Soubhia)

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