Bastam apenas cinco minutos para o público realmente acreditar que Gary Oldman é Winston Churchill (1874-1965) no drama biográfico O destino de uma nação” (“Darkest Hour”, Working Title Films e Universal Pictures International, 2017). Não é a pesada e ótima maquiagem de caracterização a cargo de David Malinowski, nem os charutos, nem o declarado apreço por uma taça do seu champanhe favorito Pol Roger ou mesmo o impecável figurino sob a batuta de Jacqueline Durran (especialista em filmes de época, Oscar por Anna Karenina“, em 2012) que fazem do astro inglês o estadista no longa-metragem de Joe Wright, que estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (11/1).

O mérito maior é de Oldman, prestes a completar 60 anos em março, na vida real tão diferente do primeiro-ministro inglês quanto uma raposa de um buldogue, mas quase irreconhecível nas duas horas e cinco minutos de projeção, a não ser quando começam a sair chispas dos olhos azuis, como já visto em inúmeras outras produções das quais participou, como ator principal (“Sid & Nancy“, “O amor não tem sexo“, “Drácula de Bram Stoker“, Minha amada imortal“, “A letra escarlate“) ou como coadjuvante de luxo em sagas tipo Batman e Harry Potter.  Seu talento será posto à prova na noite deste domingo (7/11), quando concorre por este papel pela primeira vez ao Globo de Ouro.

Irreconhecível somente num primeiro momento: se a escolha para viver Sir Winston Churchill no cinema podia parecer insólita quando se verifica que, mesmo sob maquiagem pesada, o esguio Gary Oldman não teria o physique du rôle adequado para viver o primeiro-ministro britânico, sua interpretação inspiradíssima possibilita ao público vislumbrar o personagem histórico. Não é apenas a prótese facial que aproxima o astro do político: um trabalho corporal soberbo faz com que Oldman realmente seja Churchill! (Fotos: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

A tarefa é hercúlea: seus concorrentes são Daniel Day-Lewis (“Trama Fantasma“), Denzel Washington (“Roman J. Israel, esq.“), Tom Hanks (“The Post: a guerra secreta“, em mais uma produção sob o comando de Steven Spileberg) e o adolescente fetiche-sensação do momento, Timothée Chalamet, pelo aclamadíssimo e sensível romance gay Me chame pelo seu nome“, queridinho dos festivais (leia mais aqui).

Em mais uma parceria com Paul Thomas Anderson – cujo “Sangue Negro” (2007) lhe conferiu seu segundo Oscar -, Daniel Day-Lewis vive em “Trama Fanstasma” um conceituado estilista responsável por vestir a realeza e a elite britânica que tem a vida transformada quando conhece Alma (Vicky Krieps, à esq.) (Foto: Divulgação)

As bolsas de apostas apontam Day-Lewis, que alardeia uma possível aposentadoria precoce das telas, mas que já carrega nas costas dois Globos de Ouro e três Oscars, fora as indicações. Aliás, é pouco provável que Oldman fique fora da maior festa do cinema no próximo 4 de março. A seu favor, o fato de que seus concorrentes neste ano já decorem suas estantes com estatuetas, tanto de uma premiação quanto de outra.

Às vezes, tanto o júri de jornalistas internacionais da premiação de hoje à noite quanto os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood curtem reparar injustiças: ao longo das carreiras, Washington arrebatou dois Golden Globes e dois Oscars; Hanks quatro Globes e dois Oscars. Independente do conjunto da obra, Gary Oldman merece vencer por sua apuradíssima interpretação de Churchill.

Herói da Primeira Guerra Mundial e um dos protagonistas da Segunda, Winston Churchill se tornou um político lendário, inclusive pelo fato de ser tanto um hipnótico orador quanto um extraordinário frasista. Atualmente, o primeiro-ministro Do Reino Unido, Ministro da Defesa, Chanceler do Tesouro, Secretário de Estado para as Colônias e Prêmio Nobel de Literatura demonstra ser o queridinho dos roteiristas, dada a quantidade de produções que o incluem como personagem (Foto: Reprodução)

Churchillmania: da esquerda para a direita, Michael Gambon no telefilme “Churchill’s Secret”; Jonh Lightgow como o premier na aclamada série “The Crown” no papel que lhe concedeu o Emmy;  Gary Oldman em “O destino de uma nação”; e Brian Cox no recente “Churchill” (leia mais aqui), exibido no Brasil em setembro. Em comum nas quatro interpretações: o figurino garboso, a gravata borboleta, o charuto e muitas doses de álcool (Fotos: Divulgação)

Não é a primeira vez que Oldman vira outra pessoa sob pesado make-up: 25 anos antes de Churchill, ele viveu o vampiro mais famoso das telas nas versões dândi e em idade avançada em “Drácula de Bram Stoker” (1992). No longa, o diretor Francis Ford Coppola e a figurinista Eiko Ishioka (Oscar por esse trabalho) optaram por caracterizar o conde romeno ancião com um visual que remete aos quadros de Gustav Klimt (Foto: Divulgação)

Na narrativa, o diretor Joe Wright se concentra em maio de 1940, no momento em que o jornalista, militar, político, escritor e pintor britânico é convocado pelo Rei George VI (Ben Mendelsohn, ótimo) para assumir o governo, após a renúncia forçada de Neville Chamberlain (Ronald Pickup), como uma solução paliativa para agradar ao Partido Ttrabalhador, mesmo com as reservas daquele ao qual pertence, o Conservador. O momento é crítico: além do exército inglês se encontrar encurralado por uma poderosa divisão panzer em Dunquerque, no Norte da França, correndo o risco de ser dizimado, um possível armistício estava sendo costurado entre Grã-Bretanha e Alemanha, o que colocaria a Europa inteira sob a hegemonia ariana e Buckingham como corte lacaia à Hitler, situação considerada execrável para Churchill, que insistia no ingresso do país na Guerra Mundial, apesar do sacrifício que isso implicaria aos ingleses.

Considerado persona non grata para o ocupar o posto de Primeiro-Ministro tanto pelos seus colegas do Partido Conservador quanto pelo Rei George VI, Churchill (Gary Oldman) enfrenta forte oposição no início de seu governo, quando a Inglaterra cogitava a hipótese de fazer um acordo com a Alemanha nazista e não se envolver na 2ª Guerra (Foto: Divulgação)

Confira o trailer oficial abaixo (Divulgação): 

Ainda que o filme se enquadre no gênero biografia histórica, com caprichadíssima direção de arte,  de um diretor conhecido por produções de época como Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação (2007) e Anna Karenina(2012), é inegável a dimensão humana que Oldman acrescenta ao resultado, não apenas nas sequências em que precisa lidar com os ardis políticos, mas sobretudo quando se encontra em foro íntimo, em situações com a esposa Clemmie (Kristin Scott-Thomas envelhecida, mas num bom momento), com a sua datilógrafa (Lily James, de Downton Abbeye Cinderella“, soberba!) ou com o povo no metrô.

A boa química entre Scott-Thomas e Oldman garante cenas que impregnam a biografia política “O destino de uma nação” de teor humano adequado para estabelecer um olhar próximo da plateia em relação a figuras que costumam ser conhecidas por preencherem as páginas dos livros de história (Foto: Divulgação)

N vida real, o casal Winston e Clementine Churchill não era exatamente tão charmoso quanto a dupla de atores Gary Oldman-Kirstin Scott-Thomas, que o interpreta na telona. Pouco importa. Em comum entre a fantasia e a realidade, o fairplay e a elegância à Saville Row (Foto: Reprodução)

Garra: estrela de produções como o live action “Cinderella” e a fantasia de terror “Orgulho, preconceito e zumbis”, Lily James prova que tem vontade de crescer no cinema. A moça aceitou o terceiro papel de “O destino de uma nação” no papel da aparentemente apagada datilógrafa contratada para servir a Churchill. E se sai bem, mostrando que prefere uma boa oportunidade nas telas ao brilho red carpet (Foto: Divulgação)

A delicadeza com que Gary Oldman compõe o personagem suplanta qualquer intenção de considerar a realização um costume picture: este é, sem sombra de dúvida, um filme de ator, feito para o astro brilhar. E, como se estivesse com uma raquete na mão, o ator pega a bola no ar e a rebate de volta com toda a sua força.

Apesar do predomínio de personagens masculinos, “O destino de uma nação” é um genuíno costume picture – produção que impressiona pelo visual de época retratado no figurino. Os looks envergados pela esposa de Churchill Clemmie, interpretada por Kristin Scott-Thomas, é um dos pontos altos na direção de arte do longa (Foto: Divulgação)

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