Imagine os grandes nomes da fotografia mundial no lado de frente da câmera. Então, numa época em que nunca se produziu tanta imagem como nestes tempos de selfies, tratamentos digitais e mídias sociais, a expo Face to face Retratos de mestres da fotografia contemporânea“, que estreou nesta semana no Museu Histórico Nacional, Rio, vale ser conferida. A mostra, com curadoria de Jean-Luc Monterosso e Milton Guran, é capitaneada pelo fotógrafo e colecionador de arte chinês Zhong Weixing, bamba em fotografias de paisagens e viagem, que desde 2015 eterniza no preto & branco aqueles que são conhecidos majoritariamente por sua obra, e não pelo semblante.

Da esquerda para direita, Sebastião Salgado, Cristina DeMiddel, o próprio Zhong Weixing e Martin Parr. Com Paris como epicentro da produção das imagens da mostra, “Face to face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea” apresenta bambas dos instante da Europa, Américas e Ásia (Foto: Divulgação)

Zhong Weixing se diverte folheando um álbum de fotografias ao lado de uma turma de colaboradores e discípulos (Foto: Reprodução)

“Peru Photographic Travelogue – Woodstock on the Summit” é um dos registros que Zhong Weixing realizou pelo planeta, em suas andanças para capturar momentos que revelam a poesia do mundo sob seu olhar único. Em seu portfolio, o artista inclui obras reconhecidas como “Sri Lanka Photographic Travelogue – A Momentary Reincarnation”, “Madagascar Photographic Travelogue”, “Carnet de Route Photographique”, “Obscure Sky with Yellow Land” e “Lost Paradise”, com a qual ganhou o Grand Jury Prize no 12th Pingyao International Photography Festival em Pingyao, China (Foto: Divulgação)

Entre os retratados, brasileiros como Sebastião Salgado, Vik Muniz e Miguel Rio Branco surgem em meio a feras do panorama internacional como Bernard Plossu, Cristina de Middel, Martin Parr, William Klein e até a celebrada dupla do meio da moda e publicidade Pierre et Gilles. A exposição teve como ponto de partida uma prancha litográfica do fotógrafo e caricaturista francês Félix Nadar que retratava, em 1854, mais de 250 escritores e jornalistas do seu tempo e que entrou para a história como o Panteão Nadar.

Artista plástico, diretor de cinema e fotógrafo, Miguel Rio Branco é espanhol de Las Palmas de Gran Canária com porto seguro no Rio de Janeiro. Aclamado mundialmente como um criador plural, suas obras constam em acervos públicos e particulares do mundo inteiro, e ele tem fotografias publicadas em importantes veículos como Stern e National Geographic. No registro de Weixing, ele parece repousar sob o suave sol da primavera, como se houvesse cumprido uma missão (Foto: Divulgação)

A aridez P&B contida nas imagens que Sebastião Salgado usa para denunciar a miséria global acaba se tornando um norte na hora de Zhong Weixing retratar o artista mineiro. As texturas deslumbrantes usadas por Salgado para estetizar as condições limítrofes da pobreza humana ressurgem na marcas de sua própria pele no clique do chinês (Foto: Divulgação)

A ideia de Weixing, membro da China Photographers Association e presidente da Chengdu International Photography Exchange Association, foi buscar a personalidade de cada fotógrafo por trás das lentes. O resultado, além da plasticidade, tem o mérito de elevar em alguns bons decibeis a percepção dessa mídia num momento social em que a fotografia corre o risco de ficar marcada pela banalidade. Afinal, como o badalado Bob Wolfenson já decretou em uma entrevista exclusiva ao ÁS, “nunca se veiculou tanta imagem, e a Era do Photoshop produz tanto talento quanto porcaria” (leia mais aqui).

Celebrado no mundo inteiro por transformar o lixo e o descarte em material para suas fotografias, Vik Muniz ressurge eternizado na imagem  de Zhong Weixing como personagem underground, cuja estética beira a periferia, assunto caro ao brasileiro (Foto: Divulgação)

Espanhola em constante ponte entre o México e Brasil, a fotojornalista Cristina De Middel mostra na imagem de Zhon Weixing a elasticidade do jogo de cintura que afirma possuir “no uso da ludicidade para revelar a realidade dos lugares que nem sempre é o rela da mídia” (Foto: Divulgação)

Clicados em estúdio, os fotografados posaram quase sempre sobre fundo preto e luz difusa. Zhong Weixing “se propõe a renovar o gênero do retrato e a retratar o fotógrafo por trás da pessoa, e não exatamente a pessoa por trás do personagem”, afirmam os curadores.

Assim, o trabalho do chinês segue na contramão do descartável, ou do simplesmente palatável, registrando com brilho uma nata de autores que, pelas próprias trajetórias e obras fotográficas, são por si mesmos um oásis qualitativo numa época em que o conceito de “uma ideia na cabeça e uma máquina na mão (no caso, um smartphone)” atinge o patamar do insuportável.

O britânico Martin Parr pousa para o chá das cinco e encara a câmera de Weixing na expo “Face to face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea”, em cartaz no Rio (Foto: Divulgação)

No final, a galeria de personalidades em exibição, além da inegável qualidade das belas imagens de Weixing, funciona também como uma espécie de inventário de uma turma que não se rende à boçalidade fugaz daquilo que atualmente se produz sem qualquer critério em termos de fotografia, se mostrando única neste no sentido do registro e no caráter da “aura de raridade”, na perspectiva preconizada pelo celebrado filósofo Walter Benjamin (1892-1940). Um alento, tendo em vista as contradições pós-modernas, quando se celebra os sentidos de individualidade e singularidade com o mesmo clamor com que se diminiu qualquer produção dita artística reproduzida à exaustão

Junto com a mostra, que fica em cartaz até meados de julho, foi lançado o livro “Face to Face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea”, da editora Bazar do Tempo, com a série de retratos feitos por Zhong Weixing.

A fotógrafa francesa Christine Spengler explode em cores sobre o fundo em preto & branco da imagem concebida por Zhong Weixing para a exposição “Face to face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea” (Foto: Divulgação)

Fotógrafos retratados na exposição

  • Alain Fleischer, francês, vive e trabalha na França. Fresnoy, 2016.
  • Alberto Garcia Alix, espanhol, vive e trabalha na Espanha. Paris, 2016.
  • Andres Serrano, norte-americano, vive e trabalha nos Estados Unidos. Paris, 2016.
  • Arno Rafael Minkkinen, finlandês, vive e trabalha nos Estados Unidos. Paris, 2017.
  • Bernard Faucon, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Bernard Plossu, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Bruno Barbey, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Christine Spengler, francesa, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • Cristina De Middel, espanhola, vive e trabalha no México e no Brasil. Paris, 2016.
  • Daido Moriyama, japonês, vive e trabalha em Tóquio. Tóquio, 2016.
  • Duane Michals, norte-americano, vive e trabalha em Nova York. Nova York, 2016.
  • Elliott Erwitt, norte-americano, vive e trabalha em Nova York. Nova York, 2016.
  • Gianni Berengo Gardin, italiano, vive e trabalha em Milão. Milão, 2016.
  • Harry Gruyaert, belga, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Jean-Pierre Laffont, francês, vive e trabalha em Nova York. Nova York, 2016.
  • Joan Fontcuberta, espanhol, vive e trabalha em Barcelona. Paris, 2017.
  • JR, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Klavdij Sluban, esloveno, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Martin D’Orgeval, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • Martin Parr, inglês, vive e trabalha na Inglaterra. Paris, 2016.
  • Martine Barrat, francesa, vive e trabalha em Nova York. Paris, 2016.
  • Miguel Rio Branco, brasileiro, vive e trabalha no Brasil. Paris, 2016.
  • Neal Slavin, norte-americano, vive e trabalha em Nova York. Nova York, 2016.
  • Nobuyoshi Araki, japonês, vive e trabalha em Tóquio. Tóquio, 2016.
  • Orlan, francesa, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Patrick Zackmann, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2017.
  • Pierre et Gille, franceses, vivem e trabalham em Paris. Paris, 2017.
  • Ralph Gibson, norte-americano, vive e trabalha em Nova York. Paris, 2016.
  • Robert Frank, suíço, vive e trabalha em Nova York. Nova York, 2016.
  • Sabine Weiss, suíça, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • Sebastião Salgado, brasileiro, vive e trabalha em Paris. Paris, 2015.
  • Valérie Belin, francesa, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • Vik Muniz, brasileiro, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Paris, 2016.
  • Vincent Perez, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • William Klein, norte-americano, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.
  • Yann Arthus-Bertrand, francês, vive e trabalha em Paris. Paris, 2016.

Serviço:

Exposição “Face to face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea”, do fotógrafo Zhong Weixing

Museu Histórico Nacional
Endereço: Praça Marechal Âncora, s/n – Centro – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3299-0324

11/5 a 16/7

Terça a sexta, das 10h às 17h30. Sábado, domingo e feriados, de 13h às 17h
Entrada: R$ 10,00 – grátis aos domingos.

Livro “Face to face – Retratos de mestres da fotografia contemporânea”, de Zhong Weixing R$ 55

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