Ela foi a quintessência das vilãs de novela. Embora rejeitasse o rótulo por se considerar capaz de interpretar muitos outros papeis no teatro, televisão e cinema, a carioca Beatriz Segall (1926-2018), morta nesta quarta-feira (5/9) aos 92 anos por complicações respiratórias em São Paulo, sintetiza – na aparência, na mecha branca de madrasta à la Disney, nas sobrancelhas arqueadas, no discurso, na arrogância e no tailleur de ombreiras exageradas que fariam Lady Gaga convulsionar, com direito a broche milionário na lapela – a maldade absoluta na TV, através do sua personagem mais conhecida, um ícone, a Odete Roitman de “Vale Tudo” (de Gilberto Braga, 1988).

Elegante, megera e do mundo corporativo: em 1988 a inescrutável Odete Roitman tornou instantaneamente a esnobíssima Beatriz Segall, já conhecida do grande público há pelo menos dez anos, desde “Dancing Days”, uma celebridade imediata e símbolo de ponta na cultura de massa dos anos 1980 (Foto: Reprodução)

Odete (ou Beatriz, difícil separar criador de criatura, ainda mais considerando a verve esnobe da atriz na vida real, casada com Mauricio, filho do pintor Lasar Segall) representa aquilo que há de melhor na memória afetiva do grande público que se divide entre a atração fatal e o ódio mortal quando se trata de reverenciar a típica bitch da dramaturgia televisiva nacional.

Grosso modo, Odete fez pela telinha brazuca o que Miranda Priestly causou na telona hollywoodiana: aglutinou o misto de indignação e fascínio que só são capazes de despertar as personagens nascidas com língua ferina, sofisticação ímpar e conta bancária digna cobrir os dedos com os aneis de saturno. Sim, para Odete, joia mesmo tem que ser sideral, de preferência confeccionada bem longe do Brasil, “uma mistura de raças que não deu certo”, só para citar uma de suas máximas mais famosas, saídas da mente plena do escritor Gilberto Braga.

Para a compreensão do povão: inicialmente com o nome Odete Reutemann, em alemão, a vilã mais famosa da televisão brasileira teve a grafia do seu nome simplificada pelo autor Gilberto Braga, que preferiu manter a sonoridade sem enfeitar demais o pavão (Foto: Reprodução)

O autor, em sua fase mais fértil, foi capaz com sua cultura cinematográfica de forjar uma galeria vilãs do naipe de Miranda, na qual a personagem de Beatriz pontifica, inserindo nas bocas de suas Odetes pérolas da maldade passíveis de fazer lacrimejarem os olhos de avatares do  equilíbrio emocional como Buda, Confúcio, Jesus e Gandhi. A Gilberto credita-se três das maquiavélicas mulheres vividas por Beatriz nas novelas globais: além de Odete, a recalcada Lurdes em “Água Viva” e uma meiavilã, a Celina de “Dancing Days“, não exatamente má, mas uma daquelas moradoras tradicionais de uma Copacabana refinada de outrora, do tipo que odeia misturar morangos com jerimum, ou seja, ricos com pobres.

Egressa do time de atores da TV Tupi que migrou para a Globo no final dos anos 1970, com a falência da primeira, Beatriz Segall estreou na emissora carioca em “Dancing Days” no papel da possessiva mãe do diplomata vivido por Antonio Fagundes. Sua opositora era a mocinha Julia Mattos, vivida pela superstar Sonia Braga (Foto: Reprodução)

Em entrevista ao Canal Viva, na série de entrevistas “Donos da história“, dirigida por Hermes Frederico, o novelista revela que Beatriz quase perdeu Odete: “O Daniel Filho [que dirigia a dramaturgia na Globo] implicava com a Beatriz Segall. Não queria de jeito nenhum que ela fizesse Odete Roitman. Eu achava que era a atriz ideal, e o Paulo Ubiratan [diretor artístico da emissora e produtor da trama], que era o segundo homem de novela, abaixo do Daniel, me deu todo apoio para que ela fosse aceita. Só soube que Daniel tinha liberado o nome da Beatriz na reunião geral com os atores. Ele é tão teimoso que até hoje ele diz que ele tinha razão, que Beatriz não era boa atriz não, que ela fez sucesso porque Odete Roitman era um papel muito bom”, conta.      

Da esquerda para a direita: Gilberto Braga, Daniel Filho e Beatriz Segall nos bastidores do imbroglio que o povo não soube, mas que quase impediu o Brasil de ter sua maior vilã da TV. A personagem levou algumas semanas para entrar no ar, após a estreia da atração, e o sucesso foi imediato. Boa parte, por conta de declarações de pavor ao Brasil, tão coloniais quanto preconceituosas, que só aqueles tempos pré-politicamente corretos permitiam. Sob a empáfia de Odete, o resultado era mais que folclórico, era sensacional, e as frases ficaram para a história. Como a hoje clássica – e bem de acordo com o atual ódio que parte dos brasileiros anda exalando pelo país da lava-jato: “Só de botar os pés no Galeão você começa sentir um calor horroroso. Gente horrível no caminho, uma gente feia parada esperando uns ônibus caquéticos!” (Foto: Reprodução)

Deu no que deu. Odete virou a essência da vilã global. Vai ser sempre reverenciada, pelo menos enquanto for amada pelos meros mortais, justo aqueles que ela insistia em pernosticamente pisotear na trama. Curiosamente, a inescrupulosa empresária da aviação civil, a fictícia TCA, decolou para sempre no imaginário dramatúrgico da TV para que sua autora nunca mais depois alçasse tamanho voo em popularidade: com os anos, enquanto a fama de Odete Roitman ainda atravessa gerações, a presença de Beatriz na televisão foi minguando.

Aos poucos, como uma Varig que vai falindo paulatinamente. Falta de talento? Não. Ausência de papeis para uma intérprete que foi envelhecendo fisicamente? Não se sabe. Talvez, a pouca presença de Beatriz nas novelas, nos últimos 20 e poucos anos, tenha a ver com o surgimento da cultura do “politicamente correto” que se consagrou a partir dos anos 1990 e estourou definitivamente com as mídias sociais: mesclada de tal forma à personagem, pode ser que Beatriz Segall não haja encontrado mais tanto espaço para atuar, visto que se tornou impossível dissociá-la de Odete, e essa representa um passado corrupto que hoje o Brasil tanto anseia se desvencilhar.

Bonequinha de luxo: o potiguar criado em Niterói, no Rio de Janeiro, o técnico em edificações Marcus Baby criou em 2015 uma boneca Odete Roitman confeccionada a partir de duas Barbies. Ele expõe o modelo no blog (http://bonecosdobaby.blogspot.com) da sua coleção, e não vende, nem aceita encomendas. A boneca usa cópia do traje usado por Beatriz na cena em que a personagem é assassinada (Foto: Reprodução)

Óbvio que existiram outras megeras antes e depois de Odete. Vão continuar existindo: a Veridiana de Neuza Amaral nos anos 1970 (quem lembra?), a Yolanda Pratini (“Dancing Days”) e Perpétua (“Tieta“), ambas encarnadas por Joana Fomm, a Chica Newman (“Brilhante“) e a Bia Falcão (“Belíssima“) de Fernanda Montenegro, as asquerosas Constancia Eugênia (Nathalia Timberg em “O dono do mundo“) e Laura (Claudia Abreu em “Celebridade“), e até as cômicas, impagáveis, mas nem por isso menos perigosas, como Nazaré Tedesco (Renata Sorrah em “Senhora do destino“), Flora (Patricia Pillar em “A favorita“) e Carminha (Adriana Esteves e “Avenida Brasil“). Todas ótimas.

Galeria de bitches: Beatriz Segall colecionou papeis de mulheres ricas intragáveis na telinha. O público amou cada uma e sempre esperava a nova Odete a cada aparição da artista! (Foto: Reprodução)

Mas, verdade seja dita, café pequeno perto de Odete. Beatriz que perdoe, mas nenhuma chega aos pés de Odete justamente pela razão que a atriz odiava: embora pudesse certamente viver outros personagens com louvor, o amálgama que incrustou a persona de Beatriz Segall à de Odete Roitman equivale ao mesmo que tornou Leonard Nimoy a essência inseparável do Sr. Spock. Ainda que não se saiba ao certo o que de Odete Beatriz realmente carregava dentro de si, isso foi suficiente para criar o mito em torno de ambas. Beatriz é Odete. E Odete é o Darth Vader da televisão brasileira. Ponto.

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