Mais polêmico projeto cinematográfico da retomada do cinema brasileiro, acaba de ser lançado Chatô, o Rei do Brasil (Guilherme Fontes Filmes, 2015), longa-metragem que levou vinte anos para ser concluído desde sua concepção, em 1995. Entre as idas e vindas, houve interrupções de filmagem, factoides com Francis Ford Coppola chancelando e depois se retirando da produção, escândalos envolvendo o ator vertido em diretor estreante Guilherme Fontes quanto à sonegação e a má gestão dos recursos captados, seguidos de condenações a devolver dinheiro aos cofres públicos e até à prestação de serviços comunitários. Mantendo as devidas (e enormes) proporções, “Chatô” está para a cinematografia nacional como Cleópatra (Cleopatra, de J.L.Mankiewicz, Twentieth Century Fox, 1963) para Hollywood: um filme cuja mística em torno de sua realização é maior do que o resultado nas telas. Ainda assim, todo esse imbroglio acabou favorecendo a película, que se beneficia da irregularidade da filmagem como um elemento positivo em sua composição, se afastando da geleia geral que pasteuriza as produções brasileiras ditas sérias, fortemente estigmatizadas pela estética da miséria e da violência que se tornou cânone, a partir de sucessos de público e crítica como Central do Brasil (1998), Cidade de Deus (2002) e Carandiru (2003).

Chatô (Marco Ricca) e Getúlio Vargas (paulo Betti): longa aposta no humor para codificar a relação de poder entre o magnata da mídia e o ditador do Brasil (foto: Divulgação)

Chatô (Marco Ricca) e Getúlio Vargas (Paulo Betti): longa aposta no humor para codificar a relação de poder entre o magnata da mídia e o ditador do Brasil (foto: Divulgação)

Ainda que “Chatô” se enquadre em um dos gêneros nacionais que conseguem chegar ao circuito exibidor atual – a biografia de época, que pipoca nas telas ao lado de longas que estilizam a marginalidade, versam sobre a temática gay ou investem na comédia leve de situação –, o filme se afasta da maioria dos seus pares, se constituindo em exemplar único da safra atual (atual?!?) que abdica da linearidade cronológica para assumir tom farsesco, quase de tropicália, sem se prender ao compromisso de um retrato histórico fidedigno, mas subjetivando deliciosamente o período entre o inicio dos anos 1930 e a virada dos 1960, quando Assis Chateaubriand (1892-1968) construiu um império de comunicação no Brasil às custas de chantagens a políticos e empresários e desfrutando da relação íntima com o poder, sintetizado na figura do presidente Getúlio Vargas (em interpretação sensacional de Paulo Betti).

Clima de farsa: Paraibano arretado, Chatô (Marco Ricca) ameaça seu aliado, o presidente Vargas (Paulo Betti) , com a peixeira (Foto: Divulgação)

Clima de farsa: retratado como paraibano arretado, Chatô (Marco Ricca) ameaça seu aliado presidente Vargas (Paulo Betti) com a peixeira (Foto: Divulgação)

Aliás, na pele de um histriônico Marco Ricca, a composição do jornalista é um dos pontos altos do filme, alternando deliciosamente o burlesco e repugnante, parecido com o que Ian McKellen fez com seu Ricardo III na ótima produção de 1995 (Richard III, de Richard Loncraine, Maifair Entertainment International). Talvez Fontes possa ter bebido dessa fonte, pois a atmosfera de farsa de “Chatô, o Rei do Brasil” encontra paralelo nesta produção britânica, que também tira proveito desse aspecto, abandonando o historicismo para ambientar a obra de William Shakespeare em um Grã-Bretanha fascista dos anos 1930.

Mc Kellen: interpretação burlesca do último soberano da dinastia Plantageneta encontra paralelo na caricatura de Assis Chateaubriand ono longa de Guilherme Fontes (Foto: Reprodução)

Mc Kellen: em “Ricardo III” (1995), interpretação burlesca do último soberano da dinastia Plantageneta encontra paralelo na caricatura de Assis Chateaubriand concebida por Guilherme Fontes em “Chatô, o Rei do Brasil” (Foto: Reprodução)

Para gostar de “Chatô”, é preciso entender que sua estranheza se deve à inconstância das filmagens, à eventual falta de recursos e à evolução tecnológica das mídias audiovisuais ao longo desse imenso período de produção. Tudo isso junto e misturado acabou propiciando um patchwork de cenas tão diferentes entre si – tanto na captura de imagens quanto no ocasional uso irregular da computação gráfica e até na direção de arte – que o todo se tornou linguagem, valorizando o conjunto. Afinal, quando o diretor começou a filmar a saga de Assis Chateaubriand, a revolução digital engatinhava e a internet e a telefonia celular davam seus primeiros passos. Vale lembrar que o ano em que o longa foi abruptamente interrompido (1999) é o mesmo em que o primeiro filme da nova trilogia Guerra nas Estrelas” (Star Wars: Episódio I – A ameaça fantasma, de George Lucas, Twentieth Century Fox) chegou às salas de exibição, alardeado como uma produção filmada inteiramente com câmeras digitais, ao invés de película. Curiosamente, agora “Chatô” estreia menos de um mês antes do sétimo filme da saga espacial chegar às telas, prometendo nova safra de inovações técnicas…

Além disso e como uma possível estratégia para costurar e harmonizar cenas filmadas em espaços de tempo tão díspares , o diretor opta por uma narrativa baseada no fluxo de memória, abandonando a linearidade com cenas avançando e retrocedendo no tempo, como Alain Resnais fazia na Nouvelle Vague em clássicos como Hiroshima mon amour (idem, Argos Films e outros, 1959) e O ano passado em Marienbad” (L’Année dernière à Marienbad, Cocinor e outros, 1961). Ponto. Apesar de baseado no livro homônimo de Fernando Morais, o enredo de “Chatô, o Rei do Brasil” se desenvolve a partir das idas e vindas de um estado onírico do protagonista no leito de morte. Ele chega a ser julgado por aqueles com quem se relacionou na vida pública e privada, como num programa de auditório com direito a Chacrinha como apresentador e às chacretes dando pinta no fundo.

Assis Chateaubriand na inauguração da TV Tupi: um dos homens mais influentes do Brasil no Século XX, o dono de um império da comunicação é retratado no longo com liberdade artística (Foto: Reprodução)

Assis Chateaubriand na inauguração da TV Tupi em 1950: um dos homens mais influentes do Brasil no Século XX, o dono do império de comunicação é retratado no longa-metragem “Chatô, o Rei do Brasil” com liberdade artística (Foto: Reprodução)

Essa forma fragmentada de contar a história também encontra paralelo em Cidadão Kane (Citizen Kane, de Orson Welles, RKO Radio Picutres, 1941), obra que também se debruça na estilhaço das cenas e se inspira em outro tycoon da mídia, o magnata americano William Randolph Hearst. Mas essa característica não se restringe a um passado remoto da produção cinematográfica mundial. Estão aí para provar o contrário realizações mais recentes do cinemão anglo-americano, como O Paciente Inglês” (The English Patient, de Anthony Minghella, Miramax, 1996) e Amnésia” (Memento, de Christopher Nolan, Summit Entertainment e outros, 2000), que desafiam a narrativa clássica.

Essa estrutura de roteiro tem andado tão ausente das produções nacionais que esse é outro dos méritos de “Chatô”. Mesmo que no frigir dos ovos o filme fique com certo sabor de rabanada requentada no dia seguinte à ceia de Natal um tantinho por conta da mitologia que se formou ao seu redor e, sobretudo, quando se assiste à presença na telona de gente que já se foi em pequenos papeis, como José Lewgoy e Walmor Chagas

José Lewgoy e Walmor Chagas em Chatô final

Lewgoy e Chagas em cena do delirante sonho do protagonista: presença dos atores já falecidos em “Chatô” intensifica a sensação de que o longa estreou fora de época, apesar das suas qualidades (Foto: Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.