*Por Lucas Montedonio

Gente que cai de cabeça por sua própria conta e risco. Literalmente. Neste final de semana, o Rio foi palco da 4ª edição do Tattoo Week Rio, no Centro de Convenções SulAmérica. Como não poderia deixar de ser, ÁS aterrissou in loco para conferir de perto o que anda inventando essa turma que entende do riscado, para quem um desenho na pele é coisa que transcende o DNA. Não é para menos. O badalo é o maior evento de convenções de tatuagens da América Latina e segundo maior do mundo, com atrações, sorteios e palestras perfeitas para agradar a todos os gostos. Teve de tudo: exposição, workshops, apresentação de arte circense, presença de profissionais renomados, cineminha temático (Focos Tattoo Cine), campeonato de skate freestyle e até shows de rap nesta feira, que recebeu mais de 200 estandes e milhares de visitantes.

Idealizado por Esther Gawendo e Enio Donizete, referências da arte impressa na cútis, o agito foi concebido com o objetivo de entregar ao expositor a estrutura necessária para sua divulgação artística, além de oferecer ampla gama de serviços para quem frequenta. O visitante entra em contato direto com a tattoo culture, esclarece dúvidas e, se a coragem permitir, se entrega (com dor) às agulhadas. Entre expoentes de body piercing, exposição de moda, decoração e lojas especializadas em material para tatuagem, a rapaziada se dividiu entre curiosos, estreantes na body modification e aqueles que amam colecionar desenhos na pele.

1111

Arte na pele: turma se arrisca no risco fez a festa na 4ª edição da Tattoo Week Rio (Foto: Divulgação)

Mas nem tudo são flores – de tribais mexicanos, de preferência. O agito engloba competições e os ânimos ficam acirrados, com experts brigando pelo pódio em mais de 20 categorias de tatuagem escolhidas pelos organizadores. A disputa é caliente, com direito a interjeições em alto e bom som.

E claro, evento de tatuagem que se preza não está completo se não tiver sua musa riscada e, assim, o já tradicional concurso Miss Tattoo Week bombou. Nesta edição, duas novas categorias forma incluídas: Miss Tattoo Beach, já que praia faz parte da rotina da cidade, e a Body Modification, que atende a novos padrões estéticos. E que fique bem claro: a beleza que Deus deu nunca é o foco principal para ganhar pontos. O júri, formado por sumidades do assunto (mulher e tatuagem, que fique bem claro), procurava aquela que exalava mais atitude, mais personalidade e claro, ainda arrematava a aprovação geral do público. A coroa de 2016 ficou com a pin up Priscila Santos, 26, que conversou com ÁS antes de subir ao palco e abalar geral. E mandou na lata: “Não preciso me exibir para conquistar”, dispara com ares de femme fatale.

CAPA

Ao vivo e a cores: na 4ª edição da Tattoo Week Rio, público se entregou aos prazeres da carne (Foto: Divulgação)

Diante de toda essa, digamos, libido à flor da pele, ÁS circulou pelo badalo a fim de investigar qual tattoo a turma faria para seduzir alguém. E mais: numa era marcada pelo espetáculo e o amor às celebridades, que famoso mereceria ser marcado para sempre na virilha. As respostas foram desconcertantes. Confira!

Provocante, a modelo Stephanie Says (21) confessa que acaba de posar para revista Sexy nesta última semana e que se divertiu ao ser escolhida pelo grande público como a melhor candidata na categoria “body modification“, embora não tenha chegado na pole position. Okay, a dominatrix não levou o título, mas arrasou com o chicotinho e respondeu ao ÁS com uma franqueza de irritar a pele: “Não preciso de tatuagem nenhuma para seduzir ninguém, concorda?”, afirma confiante, dando uma voltinha e se valendo daqueles atributos pré-riscado. Impossível discordar da beldade. Mas, no fim, entrega o jogo e apela para o futebol internacional na hora de revelar quem ela riscaria abaixo do umbigo. “Ah, o David Beckham. Tenho uma queda por ingleses”, suspira, antes de lançar seu olhar 43 para câmera.

10

Stephanie Says tatuaria David Beckham abaixo da linha do Equador. Não se sabe se o nome ou o o rostinho do bonitão metrossexual… (Foto: Lucas Montedonio)

Douglas Koser (25) é estudante de engenharia e ama simetria. Sua paixão por geometria o levou a usar o corpo como tela para a técnica de pontilhismo. Arte totalmente original que pode, segundo ele, ser também extremamente sensual: “É só eu tirar a camisa quando quero chamar atenção”, dipara libidinoso. E quem merece ser eternizado em um local sensualmente estratégico? “A Amy (Winehouse). Me amarrava na dela. Amy é Amy e dispensa explicações, correto?”, declara seu amor pela cantora.

7

No, no, no! O universitário David Koser se arriscaria tatuando Amy Winehouse na virilha (Foto: Lucas Montedonio)

Também inscrita na categoria body modification, a participante de língua bifurcada, cabelo undercut e orelhas alargadas Camila Dalto (30) mais parece uma mutante da turma do Professor Xavier. Mas é bióloga e se cair de cabeça no estúdio, sem medo de ser feliz. Cheia de autoconfiança, esta dublê de tatuadora responde, revelando sua verve narcísica: “Não faria nenhum desenho para seduzir outra pessoa. Faço para mim. Se existe alguém a seduzir sou eu mesma, sempre”, responde rindo. E homenagearia alguma celebrity? “Nenhuma. Nem pensar! Acho que ninguém é tão f*%# assim para estar tatuado no meu corpo”, manda na lata, deixando claro que não se rende ao espetáculo.

2

Não tem Hollywood que a seduza: a bióloga Camila Dalto considera a si mesma a maior celebridade digna de estampar sua cútis (Foto: Lucas Montedonio)

Não se sabe se o moço curte séries tipo The Walking Dead. É bem possível, mas o freak model Zombiepunk (27) confessa o impensável numa comparação fofa para alguém com o seu biotipo: “Estou aqui como Mickey na Disney: todo mundo quer uma foto comigo”, ri. Após declarar sua admiração por Kurt Cobain, escolhendo o leadsinger do Nirvana como um ícone digno de marcar presença em sua pele – “Ele é meu ídolo” – o rapaz fala sobre outra paixão marcada nos, digamos, países baixos: “Tenho as iniciais de um caso antigo bem na parte superior da coxa.” Bem provável que seja uma criatura tão zumbimaníaca quanto ele. Não se sabe. Mas, durante sua performance, quase um protesto, o zombie wannabe prega que, no fundo, “somos todos mortos-vivos”. Hein?!? Como assim? Para ele, faz sentido a suposição: “Considerando o nível de muitos que circulam por aí, só mesmo devorando massa cinzenta alheia para suprir uma eventual microcefalia”, explica.

3

Zombiepunk é do tipo que riscaria Kurt Cobain na pele e se arriscaria num massacre zumbi (Foto: Lucas Montedonio)

Codinome Chapolina, Maria Ângela (29, à esq.) faz da tattoo como fonte de renda. Seu segredo para seduzir? Ela responde: “Uma fênix bem grande nas costas, até o bumbum. Inclusive, a minha é assim.” Uau, como assim? Fênix? Popozuda que ressurge das cinzas?!? E qual famoso eleva sua libido a ponto de um registro na pele? “O Brad Pitt, com certeza! Ele é o cara e muito gato, mesmo cinquentão”, fala, citando o óbvio. Já a amiga Vanessa Paraíso (dir.), ficou tímida para responder a enquete, mas fez questão de sair na foto.

1

Maria Angela (esq.), a.k.a. Chapolina, tem uma fênix do topo ao cóccix e, toda sapeca, tatuaria Brad Pitt no próprio corpo, enquanto a amiga Vanessa Paraíso (dir.) é uma incógnita: não entrega a celebridade por quem alargaria o lóbulo da orelha (Foto: Lucas Montedonio)

Novato, Carlos Alberto Marques (22) ainda está aprendendo o bê-a-bá da arte de tatuar. Para conquistar um par ideal, ele confessa qual estilo de tattoo usaria: “Ah, uma maori em 3D em bacana. Estou tentando me especializar nessa técnica, e sei com certeza que atrai muitos olhares”, conta, deixando escapar que tem parte do povo já escolhe o tema do risco como artimanha para arrumar um cobertor de orelha. Para ocupar um lugar de destaque no corpo, o moço responde na fita: “Angelina Jolie. Curto aqueles lábios carnudos e os traços fortes. Definiria ela como um padrão ideal para mim”, declara o sonhador.

4

Carlos Alberto Marques é pura fissura: tatuaria os grandes lábios de Angelina Jolie na virilha sem pestanejar (Fotos: Lucas Montedonio)

Antes de receber a faixa – e as responsabilidades que vêm junto com o cargo de Miss Tattoo 2016 –  a veterinária Priscila Santos (26) confessa ter olhos apenas para seu personal tattoo designer: “Não preciso me exibir para conquistar ninguém”, ela ri. Logo elucida: “O tatuador é meu marido”, Ah, bom! E então, A pin up arriscaria um retrato de celeb na virilha por toda a eternidade? “Não, não, não. Se é para homenagear, prefiro escolher algum membro da família, meus cachorrinhos e tal… Os meus amores!”, declara, fazendo a linha puritana.

8

A Miss Tattoo 2016 Priscila Santos é veterinária e até poderia grafar um de seus cachorrinhos na virilha, mas nunca um famoso (Foto: Lucas Montedonio)

MISS

Ela merece! A Miss Tattoo 2016 dá aquela pin básica após receber a faixa na 4ª edição da Tattoo Week Rio (Foto: LUcas Montedonio)

O rapper F2L (29) rinha pela frente uma difícil missão: levantar um público exigente que só queria saber do concurso da Miss Tattoo. Mas cumpriu com louvor a tarefa e contagiou até as pré-candidatas. Morador do bairro da Abolição, ele conta sobre seu mais recente trabalho, a mixtape “VVV, e se mostra um filho da mãe na hora de marcar a própria carne: “Minha amada progenitora seria a única mulher que tatuaria em qualquer parte do corpo. Além do mais, ela foi a primeira que viu minha virilha depois do médico”, afirma rindo. E para atrair uma conquista? “Curto tattoos em P&B, traços simples. Gosto dessa aqui embaixo do pescoço: são duas asas de coruja, mas será que servem para seduzir alguém?”, responde em dúvida.

9

O Rapper F2L é do tipo que considera a própria mãe uma verdadeira superstar: “Só tatuaria ela no meu corpo, mais ninguém!” (Foto: Lucas Montedonio)

Democratizando na faixa etária, Delneri Martins (70) exibe no corpo objetos, frases e inscrições, cada qual com seu respectivo significado. O oficial militar reformado expõe seu fanatismo pelo futebol até nas unhas com o brasão de seu time: “Fiz essa aqui do Botafogo para expressar um de meus grandes amores”. Mas, para quem pensa que ele é do tipo volúvel, daquele se deixa levar por várias paixões, engana-se: “Para seduzir, só minha mulher, minha companheira. Estamos juntos há 47 anos”, fala com orgulho. Com tantas tatuagens, era de se esperar que algum ídolo tivesse seu lugar de destaque. De preferência no Hemisfério Sul. Pois bem, Delneri não se faz de rogado: “Exatamente na altura da coxa, Beth Carvalho me acompanha aonde for. Nutro simpatia por ela como pessoa e artista”, explica com aquele jeito de coisinha bonitinha do pai.

11

O militar reformado Delneri Martins é do tipo que considera seu corpo tela perfeita para virar arte urbana. E, em suas andanças, ainda arrumou tempo para tatuar na própria coxa Beth Carvalho, de quem é fã (Foto: Lucas Montedonio)

Herbert Marques (23, esq.), designer gráfico, fica na dúvida sobre qual desenho escolheria para se tornar mais atraente: “Caraca, que pergunta difícil, mas talvez uma cruz, pois possui um significado de união”, diz transcendendo a religiosidade. E na virilha, quem estaria no topo da lista?  “Essa é fácil! Serena Williams, fato. Ela é gostosa demais.” Já o professor de educação física, Paulo Fernandes (35, dir.), responde rápido: “Faria uma navalha no braço para o povo sacar que não estou para brincadeira”, afirma cheio de atitude. E a musa digna para um registro corporal? “Naomi Campbell, sem dúvida! Ela é a preta-referência e desde novo sempre a achei irresistível”, confessa revelando sua mulher ideal.

6

Mama África: Herbert Marques considera a atleta Serena Williams o piteu para carregar na pele. Já o professor de educação física Paulo Fernandes sonha com Naomi Campbell desde criança (Foto: Lucas Montedonio)

A moça com tiara de flores atende como Aritana Varney (25) e faz parte do time de mulheraças-belzebu que atuam como tatuadoras. Depois de perguntada sobre que tipo de desenho usaria como arma secreta na arte da sedução, ela explica: “Uma bem colorida sempre fica legal e chama a atenção. Tenho na lateral da perna esta que chamo “uma noite no cemitério”, resultado de váááááárias sessões.” E quem seria a inspiração para ocupar a região da marquinha do biquíni? “Cresci lendo esse cara. Só pode ser ele… Nietzsche!”, confidencializa a maranhense que morre de amores pelo filósofo alemão.

5

A tatuadérrima Aritana Varney apela para a filosofia na hora de escolher a pessoa pública que tatuaria na púbis: “Friedrich Nietzsche”. Bom, não foi esse cara que escreveu sobre o super homem? Tudo a ver então… (Foto: Lucas Montedonio)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.