A linha que separa moda e gastronomia é mais fina que fio de nylon 0,5mm. Durante a 24ª edição do Minas Trend, que aconteceu no  de 9 à 12 de abril em Belo Horizonte, a FIEMGFederação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, que promove o salão de negócios -, pegou seu kit de linha & agulhas e tratou logo de alinhavar essa ligação entre roupa e comida: quem circulou pelosa pavilhões do Expominas pode conferir o overloque entre os lançamentos de coleções e as delicinhas gastrô da Feira Aproxima. ÁS, óbvio, passou para conferir essas iguarias de dar água na boca. Veio, viu, venceu e salivou. Que desculpe Julio César, que inventou o famoso provérbio veni vidi vici quando dobrou Vercingetórix aos seus pés – conquistando a Gália, que depois viraria a Lutécia, que um dia se transformaria na França dos prazeres pantagruélicos -, mas faltou o verbo salivar!  Como é mesmo salivar em latim?

A Feirinha Aproxima, no Minas Trend, promoveu aquele get together da moda com a culinária mineira, a clássica e a nova! (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

A Aproxima também ganhou ambientação divertida criada com materiais alternativos, sob a batuta criativa de Ronaldo Fraga (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Pouco importa. O que vale é que, claro, havia pão de queijo gourmet. Mas isso nem chega a ser inovação. Por isso, apesar de merecer registro e de dar água na boca, as versões pernil, doce de leite e goiabada vão passar batidas nesse artigo. Fato é que a Aproxima aproximou (desculpem essa associação infame, mas é vero) essa jornalista de um interessante mix da produção local mineira que nos faz parar de achar que o estadão se resume apenas a pão de queijo, cachaça e torresmo. Nananinaninha!

Pausa para jogo: na 24ª edição do Minas Trend, a grande jogada foi se refestelar da moda na área de convivência gastronômica. Tipo Jeca Tatu gourmet. Hora da boia, amor! (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

ÁS confirmou uma Minas Gerais de empreendedores descoladíssimos (e moderninhos!), cheios de visão de mercado. Como a turma endiabrada do Zuur Gin. Ao seu lado, numa diversidade que caracterizou a feira, produtores que lembram aquela tia que te chama para tomar um café com queijo minas, aquele produto tradicional de excelência, como o casal do Sítio Juranda, que cultiva frutas vermelhas no Sul de Minas. Vem ver!

O trio de rapazes do Zuur Gin faz aquele brinde ao Ás na Manga (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

O Aproxima é mais uma iniciativa bem-sucedida do mestre no quesito, Eduardo Maya, o mesmo criador do Comida Di Buteco. o evento está no sexto ano e atua mensalmente em 45 pontos de venda. Agora chegou ao Minas Trend. O produtor tem outros planos na capital do pão de queijo e anda preparando, também, a segunda edição do evento “Minas é o Mundo”, sucesso em junho do ano passado, realizado em parceria com as organizações Globo, como de costume. Neste ano, rola de 17 a 19 de maio, no mesmo local do ano passado, em Barro Preto.

“Sou carioca, mas sei que tem muito a explorar nessa região, seja fomentando a produção local, seja mostrando o impacto de outras culturas em Minas. Minha intenção é aproximar todos os setores da gastronomia com essa cadeia de produtores”, diz Eduardo, engajadíssimo.

Para o MT, Maya separou uma mélange curiosa de novidades para um público fashionista exigente, ávido por provar os tão famosos clássicos mineiros. Mas não esqueceu da turma que segue a linha do apelo saudável também. Podemos separar esse passeio gastronômico em duas alas distintas, porém igualmente emblemáticas: a ala jovem descolada da sociedade mineira e a tradicional, pero no mucho… Pois é. Essa parte mais conservadora, digamos, ÁS encontrou inovações que até Carlinhos Brown duvidaria, como o Acarajé Mineiro do Armazén Dona Lucinha.

Confort food mineirinha: a típica comida regional da Dona Lucinha resistiu à passagem da senhorinha para o nirvana. Fica o legado iluminado dessa criadora, cuja fama atravessou planícies e chapadas Brasil afora (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

A iguaria tem a tradicional massa de feijão baiana, não tão fiel na prática, mas no lugar do vatapá tem um incrível creme de abóbora, com recheio de carne seca no lugar do caruru e é servido com uma pimenta tão malvada quanto a baiana (virou minha malvada favorita!), com um porém: a cereja do bolo é o molho agridoce de rapadura. Prato que deveria entrar para o hall dos pontos turísticos da urbe.

O chef Ederson Campos substituiu Dona Lucinha nas panelas do quiosque que levou o nome do restaurante e tratou logo de homenagear aquela que foi o baluarte da comida mineira de raiz (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Uma pena ter saído antes do tempo da feira, pois justamente Dona Lucinha faleceu no segundo dia do evento. Maya chegou a fazer uma homenagem nas redes sociais. Ele considera a casa a base da cozinha mineira. O chef Ederson Campos, que a substituiu no badalo gastrô, também prestou aquela homenagem à senhorinha. De dar água na boca: uma versão de feijão tropeiro tradicional que ele fez especialmente para lembrar os pratos de Dona Lucinha, considerada, dentro e fora do Brasil, a maior representante da Cozinha de Minas. Ela agora deve estar empanturrando São Pedro, e ÁS duvida que a santalhada toda agora sobreviva sem Sal de Frutas Eno lá em cima, amor.  Impossível.

Dona Lucinha no Minas Trend; tradição culinária é moda que resiste (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Outra novidade que surpreendeu essa jornalista chegadíssima a safáris gastrô foi o Sítio Juranda, na região de Campestre, comandada pelo casal Rosana e Luiz Antônio do Lago, que produz framboesa, amora blackberry e mirtilhos. Chiquê. Alguém aí sabia que framboesa pegava fora do Hemisfério Norte? Pois é, nem nossa turma do ÁS. Segundo a empresária, quem planta framboesa, planta qualquer coisa, o que nos levou a pensar em fazer uma parceria com a moça: nada mal uma plantação de libras esterlinas. Os sucos de frutas vermelhas do sítio foram a sensação entre as fashionistas mineiras, loucas por um blend saudável e carmim da cor do amor. Campari das naturebas…

Sítio Juranda: entre amoras e framboesas, Rosana e Luiz Antônio do Lago ofereceram gostosuras travessas aos fashionistas (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Só no licopeno: suco de amoras e blackberries do Sítio Juranda encantou fashionistas no Minas Trend (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Vermelha é a fruta: geleias de framboesa e amora adoçaram a turma da moda no Minas Trend (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Para finalizar essa parte, vamos de cachaça e pão de queijo, não é mesmo? A versão da mais famosa iguaria mineira feita pela Top Food Alimentos insiste em fazer uso do chavão de gourmet. Se o termo está batido, o resultado surpreende: irresistíveis, do tipo que faria um fã de John Snow trocar a última temporada de Game of Thrones por essas gordices. Até porque é mais facinho comer pão de queijo do que traçar a Cersei. Recheio de pernil, goiabada e pode ter até Nutella. Ou abobrinha com alho poró.  Você escolhe. A empresa, capitaneada pelos empresários Thiago Moreira e Leonardo Machado, existe desde 2009, presente nos principais mercados do Estado de Minas. Seu pão de queijo é feito com mais de 50% de lascas de queijo e está no café da manhã do carioca do mundo Copacabana Palace.

Pão de queijo para exigentes: os recheios salgados e doces da Top Food foram o diferencial na Feirinha Aproxima (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Já a cachaça com cara de despretensão tem nome delicado: Menina Branca. Que brigite delicada! Então, é aquela que você não imagina levar de souvenir para um cachaceiro raiz por ser branca, e segundo seu criador, Marcelo Machado, puríssima! Nem vou falar que é pura e branca pois parece apologia às drogas. Eu,hein!

É uma cachaça com pouquíssima aspereza, que não passa pela madeira, e sim, pelo aço inox. Paladar realmente macio. Se agrada seus tios casca grossa, yo no lo creo, mas as moças do evento amaram! ÁS é testemunha ocular. A bebida de Serro tem apenas uma destilação e explode num leve buquê floral no início, permanecendo aquele leve adocicado da cana no final.

Classe A Gourmet: camarão no cone, tiras de tilápia e chips de batata renovam a crocância (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Dentre os modernos, o destaque fica por conta daqueles jovens com ideias surpreendentes, filhos da alta sociedade mineira. É o caso da turma da Classe A Gourmet, das cunhadas Tatiane de Almeida e Beatriz Basílio. As duas criaram incríveis versões de cones de camarão no papel kraft e tiras de tilápia, servidas com chips de batata especialmente para eventos. Elas são esposas dos irmãos Anselmo e Marcelo Rodrigues, que cuidam da versão industrial, Classe A Frutos do Mar, há 20 anos referência em pescados e frutos do mar na região. Caiu na rede dessa família, é peixe!

Classe A Gourmet: camarão no cone, tiras de tilápia e chips de batata renovam a crocância (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Outra novidade inovação de causar salivada é o Café das Amoras, mores. De cara nos serviu uma surpreendente Caipi Café. E pasmem: caipirinha de limão com café é gostoso de verdade. A barista Vivian Salim explica: “As pessoas não conseguem associar o café como insumo para outras bebidas”. A moça é da empresa Sion, em Beagá, que faz também o coffee shake, outra versão malandrinha do nosso famoso pretinho. O Café das Amoras tem um coworking de torra, ou seja, você pode utilizar a estrutura para fazer seu próprio café, com direito a consultoria e assinatura. Vanguarda, né?

A barista Vivian Salim mistura café com cachaça (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Avant garde ou conservadores, esses filhos de famílias tradicionais estão mostrando a que vieram ao mercado gastronômico mineiro. Os irmãos Cássio e Paulo Fonseca são aqueles meninos que mantém o negócio da família, como nas novelas das seis brasileiras, trazendo uma lufada de modernização. Frutos de uma fazenda de mais de três séculos que produz queijo de Serro, em Alvorada de Minas. Eles são a quinta geração da Fazenda Frutuoso Limoeiro e produzem o Queijo Juá, um minas artesanal de casca mofada, com um processo de maturação que colhe os fungos do ambiente.

Os irmãos da Fazenda Frutuoso oferecem queijos de Minas curados que são manjar dos deuses (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Mas não acaba por aí. Para quem se derrete com o lifestyle saudável, anote esse nome: ela se autotitula “bicho do mato” e é Adriane Costa, uma das sócias da Madri Massas. Essa é quase a menina dos olhos do capitão Eduardo Maya, que se diz viciado no consumo da massa vegana de broto de banana. Oi?!? Trata-se de uma produção de massas artesanais, molhos e antepastos, com produtos criteriosamente saudáveis, em linhas vegana e vegetariana. Tudo é feito sem ovos, corantes e conservantes. O  sabor é incrível: o pesto de hortelã vegano, poe exemplo, é um deleite. Ou fetiche. “Fazemos um produto pensando nos nossos filhos. Até nossos chips de mandioca são feitos no óleo de algodão. Tudo nosso é orgânico, com insumos da agroecologia”, se antecipa Adriane.

Pasta vegana: a Madri Massas foi destaque na área gastrô do Minas Trend (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Para fechar com chave de ouro, ÁS deixa o glacê para o final: o trio de rapazes bonitinhos do Zuur Gin. Vinícius Guimaraes, um dos sócios, explica tudo, é mixologista.  Enquanto serve uma soda italiana – sim, ele é bom e seduzir equipes de reportagem com drinques incríveis de teores alcoólicos variáveis, de acordo com o tête-a-tête. Como o que fez mais tarde à base do seu gin, que leva defumação de canela e alecrim, xarope e suco de maçã, finalizado com tônica e laranja desidratada.

Dizem, o Zuur foi o responsável por deixar fashionistas calibradíssimas durante todo o evento. Espertos, os rapazes investiram bem. Perceberam de cara o alcance do Minas Trend, para uma empresa que lançou o Gin em dezembro de 2018 e hoje já está bombando no mercado mineiro com venda apenas no Instagram da marca. Só falta virarem alcohol bloggers. Ou bad influencers, nesse caso, mais pelo visual gatinho que necessariamente pelos coqueteis, amor. ÁS  é volúpia.

Os drinques de Gin oferecidos no Minas Trend puderam ser degustados pelos fashionistas também na festa de abertura da semana de moda (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

Eles começaram em 2016 produzindo coquetéis em potes, depois passaram para a tasty tonic, espécie de gin tônica pronta em long neck. Mas queriam mesmo era aproveitar a moda da “nova vodka” e criar um gin planejado para quem busca sabor aromático. Foi então que, em 2018, em Capim Branco, zona rural de Minas Gerais, eles testaram 27 receitas até chegar no Zuur Gin, que hoje enlouqueceu a turminha do Minas Trend nos cinco dias de evento. Não vou nem perguntar como foi esse período de testes porque ÁS é volúpia, mas também bon chic bon genre.

A bebida que posa na categoria London Dry é um gin com especiarias, levando cascas de limão capeta. É é mesmo do cramulhão.  “Procuramos desenvolver uma bomba de sabor e aroma, mantendo as características tradicionais. Queríamos uma bebida flexível para compor com todos, desde a senhorinha do Dry Martini, até o jovem do Tropical Gin”, revela Vínícius, como uma criança que conta uma traquinagem, servindo mais uma maravilha aromática ao lado os sócios Rafael Lima e Alberto Scanono. Ro-do-pi-ei!

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