Glenn Close não levou o Oscar, mas a visibilidade arrebatada com o excelente “A esposa(The Wife, 2018, leia mais aqui e aqui) pode ser suficiente para garantir um possível fenômeno nas salas de exibição: a nova enxurrada de woman pictures. O surgimento do gênero, no final dos anos 1930, coincide com o momento em que o as mulheres ingressaram no mercado de trabalho ocupando postos até então estritamente masculinos, em decorrência dos esforços de guerra, se consolidando na década seguinte como um atrativo para levar a imensa parcela feminina do público aos cinemas. Eram narrativas densas, por vezes melodramáticas, que traziam à tona aquilo que hoje é chamado de empoderamento feminino, mas que na época ganhou a alcunha de emancipação da mulher. Produções geralmente protagonizadas por uma estrela eficiente tanto na arte da atuação quanto na de magnetizar os fãs (como Glenn), focadas em um roteiro que valorizava a mulher racée, às voltas com questões contemporâneas que envolviam sua psiquê. Bette Davis, Joan Crawford, Barbara Stanwick e Katherine Hepburn, por exemplo, fizeram a festa do público (e dos diretores) nesse tipo de filme.

Símbolo maior da mulher emancipada dos wartimes, Katherine Hepburn faz parte do time de estrelas da Velha Hollywood que levava o mulherio às salas de exibição em narrativas que falavam sobre questões cruciais delas na modernidade (Foto: Reprodução)

O gênero evoluiu, se misturou com outros e, em pleno woman power dos setenta, se cristalizou na tv diluído nas sitcoms estreladas por atrizes que sintetizaram a nova mulher pós-revolução de costumes, como Mary Tyler Moore. Ao que parece, agora o woman picture pode passar por um novo boom, in natura ou mesclado com outros estilos de fazer cinema.

Com o sucesso de mídia de “A esposa” numa era que enfatiza o périplo de alguns grupos sociais, entre eles elas, é previsível que uma nova fornada de realizações que põem em destaque as questões da alma feminina sejam a brecha que a Hollywood adulta precisava para furar o bloqueio imposto pelos blockbusters voltados para a plateia jovem, no qual os longa-metragens de super-herói são o recheio do bolo.

Glenn Close: a vencedora de quase todos os prêmios femininos da temporada 2019 pode ter dado início a um novo ciclo de filmes de temática feminina em Hollywood (Foto: Divulgação)

Atualmente no circuito, o bom “Suprema(On the Basis of Sex. de Mimi Leder, Amblin Partners e outros, 2018) é um exemplo desses: se amalgama com o filme de agenda tão em moda, que traz à tela questões politicamente corretas, perfeitinhas para seduzir de forma palatável o público engajado em causas na internet, mesclando sensibilidade frugal com a dieta light de “Sessão da Tarde”. São histórias como “Histórias cruzadas(The Help, de Tate Taylor, 2011), “Estrelas além do tempo(Hidden Figures, de Theodore Melfi, 2016, leia mais aqui) ou “Green Book – O guia” (Green Book, 2018, leia também aqui).

Easy listening: da safra atual de longas que traze à tona questões do universo feminino, “Suprema” é o mais comercial deles hoje em cartaz. Felicity Jones vive a personagem da vida real Ruth Bader Ginsburg, ainda viva, no longa de Mimi Leder para a Focus Features (Foto: Divulgação)

Confira Abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Nesta semana, se juntou à “Suprema” a produção inglesa “Um ato de esperança(The Children Act, de Richard Eyre), de 2017, oportunamente programada para ser lançada no Brasil somente agora. Em vários aspectos, o longa se aproxima de “A esposa”: um filme pequeno que apresenta uma protagonista atormentada por uma situação-limite num drama psicológico que é veículo para a britânica Emma Thompson mostrar seu talento, como feito por Glenn.

Como Jonathan Pryce em “A esposa”, o competente Stanley Tucci faz escada para uma estrela madura brilhar num woman picture, no caso a inspiradíssima Emma Thompson de “Um ato de esperança” (Foto: Divulgação)

Ao mesmo tempo, invadiu as salas de exibição “O retorno de Ben(Ben Is Back, de Peter Hedges, 2018), drama familiar sobre uma mãe que se vê às voltas com o filho usuário de drogas, que chega inesperadamente para as festas natalinas pronto para repetir velhos hábitos. Seu maior a atrativo é a presença de Julia Roberts no papel principal. Com 51 anos, a eterna “linda mulher”, longe das produções que a consagraram há 30 anos como namoradinha da América e hoje devidamente oscarizada, pode se dar ao luxo de escolher voar em papeis maduros de filmes menores, como o de “Álbum de família(August: Osage County, de John Wells, 2013), que lhe rendeu sua última indicação ao Oscar, como “Melhor Atriz Coadjuvante”. Agora, numa fase da vida em que ou se firma como talento dramático ou aos poucos é cuspida para fora do sistema na mesma velocidade com que os pés de galinha dão as caras. Sem poder mais concorrer com atrizes jovens ao papel de mocinha, Julia demonstra apostar suas fichas nessa sensível narrativa sobre descobertas íntimas. Sua última personagem em filme romântico, gênero no qual se especializou, vai fazer dez anos ano que vem (“Comer, rezar, amar“, 2010). Por isso, sua presença cênica em “O retorno de Ben” prova que ela está sabendo fazer a passagem para o panteão de estrelas veteranas.

O tempo fez bem a Julia: ex-garota romântica dos anos 1990/2000, a  estrela-síntese da virada de milênio, sucesso em “Uma linda mulher”, “Um lugar chamado Notting Hill” e “O casamento do meu melhor amigo” consolida a carreira como atriz dramática de meia-idade (Foto: Divulgação)

Confira Abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 


Quase dez anos mais velha que Julia, Emma Thompson passa pelo momento em que é paulatinamente aposentada ou se revela a nova Meryl Streep, Helen Mirren ou Judy Dench, fazendo o percurso para atriz da terceira idade requisitada. Ultimamente, ela vinha fazendo quase sempre participações especiais em blockbusters como “Harry Potter e as relíquias da morte” (2011), “MBI – Homens de Preto 3” (2012), “Dezesseis luas” (2013) e “A Bela e a Fera” (2017), ou abrilhantando como medalhão produções bobinhas como “O bebê de Bridget Jones” (2016), no qual é corroteirista.

Tipo Zorra Total: nos últimos tempos, Emma Thomson vinha sendo aproveitada em produções de grande orçamento como talismã para impregnar blockbusters de credibilidade artística. A estrela britânica precisou se sujeitar a caracterizações que fariam a alegria de Johnny Depp, mas pouco provavelmente lhe encheriam de orgulho (Foto: Divulgação)

Em “Um ato de esperança”, ela pode dar vazão ao seu talento, sem precisar se limitar à função de imprimir dignidade interpretativa a um filme para adolescentes. A atriz se aproxima da boa e velha Emma das produções das quais participou nos anos noventa, como “Retorno a Howards End“,”Vestígios do dia“, “Razão e Sensibilidade” e “Momento de afeto“, agora no papel de uma juíza no limiar da terceira idade, em crise com o marido (Stanley Tucci, ótimo), que se vê diante da incômoda situação de decidir  se opta ou não por impingir na corte o tratamento médico a um jovem menor de idade (Fionn Whitehead, de “Dunkirk“, arrebatador), cuja crença religiosa não permite transfusão de sangue.

O cartaz de “Um ato de esperança” dá a deixa: o portrait do Emma Thomson na imagem deixa claro que o longa-metragem é veículo para a atriz exercitar seu talento (Foto: Divulgação)

Confira Abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):

Pior que isso, a magistrada precisa depois não apenas encarar as consequências dessa escolha em meio a um turbilhão pessoal, mas lidar com aquilo que se deflagra na vida do rapaz após sua momentânea e impulsiva presença em uma desnecessária ida ao hospital para conhecê-lo, antes de julgar o caso. “Um ato de esperança” é um filme inglês feito para a Emma brilhar no auge de sua maturidade, lidando com questões atuais como casamento aberto, convenções sociais e o respeito à diversidade.

Em crise de idade na vida pessoal, a juíza Fiona Maye (Emma Thompson) precisa lidar com a fixação do jovem que ela livrou da morte. O argumento do roteiro é suficiente para a atriz garantir uma atuação colossal (Foto: Divulgação)

Mais jovem que Julia e Emma, Felicity Jones começou a carreira como atriz-mirim na tv, mas só há pouco mais de uma década começou a galgar a fama. Seu estrelato ainda não se consolidou, mas ela tem participado de realizações tão distintas quanto o drama “A teoria de tudo” (2014), o pipoca “Star Wars: Rogue One” (201) e a versão experimental de “A tempestade” (2010), sob a batuta de Julie Taymor, diretora que curte imprimir roupagem estilizada a clássicos shakespereanos, como Titus (199), e concebeu “O Rei Leão” na Broadway.

A reconstituição dos anos 1950 e 1970 é um dos pontos altos de “Suprema” numa temporada em que produções ambientadas nos seventies ganham a distância temporal necessária para garantir um bom trabalho de direção de arte, como aconteceu no recente “Se a Rua Beale falasse” (leia mais aqui) (Foto: Divulgação)

Em “Suprema”, Felicity cumpre a missão de levar para a ficção a trajetória romanceada de Ruth Bader Ginsberg, ex-aluna brilhante em Harvard e Columbia, mas advogada boicotada pelo métier machista nos Estados Unidos dos anos 1950 a 1970. Com o apoio do marido Martin (o bonitão e bem alto Armie Hammer, de “Chame pelo seu nome“, o que acentua o aspecto mignon da mocinha), ela ganharia os holofotes na batalha pela igualdade de direitos civis entre homens e mulheres, derrubando leis mais ultrapassadas que galã cubano dançando mambo com maraca na mão. Após algumas vitórias históricas no tribunal, a Ruth  da vida real acabou entrando para dos anais do universo jurídico, o que depois lhe valeria o passaporte para uma vaga na Suprema Corte americana na Era Clinton.

À esquerda, a bonitinha Felicity Jones do papel da feiosa,mas brilhante Ruth Bader Ginsberg (à dir.):  em comum nas duas, a vontade de se afirmar,  além do formato pocket. As duas são baixinhas! (Foto: Divulgação)

O longa não é exatamente um woman picture: a começar, sua intérprete ainda não é uma estrela. Aliás, talvez a pequenina Felicity Jones nunca venha a ter a tessitura suficiente para se tornar uma estrela do tipo que alimenta o gênero, que aliás quase nunca é um filme de época. E a própria situação na qual a personagem se envolve nunca é tratada com a densidade melodramática, se aproximando mais de uma comédia de costumes como Green Bookou da reconstituição cínica que critica um momento, tipo a série Mad Men“, se distanciando anos-luz de “A esposa” e de “Um ato de esperança”. Mas é notório que “Suprema”, ao estabelecer a ponte entre as produções leves engajadinhas, no cinemão, e o repertório dos woman pictures, se beneficia dessa onda que pode estar se formando no horizonte.

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