*Por Andrey Costa

A Semana de Moda de Paris aconteceu na boca do nosso Carnaval. Por isso mesmo, ÁS se concentrou na cobertura da folia e esperou os ânimos momescos baixarem para soltar nosso Top 5. Confira abaixo aqueles que brilharam num evento que seguiu sem Karl Lagerfeld!

Saint Laurent

Catarse! Essa palavra define o que Anthony Vaccarello causou ao desfilar sua coleção talvez mais relevante desde que assumiu a Saint Laurent em 2016. Às margens do Sena, em Paris, o estilista traçou um papo reto com a imagem de moda que pretende fixar. A brasileira Anna Herrera foi a escolha para a abrir o desfile num look clássico à la YSL: casacão pesado de ombros largos, equilibrado com um top transparente e calça de cetim.

Modelos rocker 1980’s cruzaram a passarela causando desejo, gritaria e confusão. Vestidos de noite curtíssimos irromperam a catwalk com seus laços enormes num ombro só, arrematando a ponte com essa mulher emponderada e sexy que veste a marca.

Para os rapazes, a vibe seguiu na alfaiataria, que agora ganha detalhes primorosos no tecido e styling. O grand finale ficou por conta dos lúmens que iluminaram a escuridão da passarela com looks fluorescentes impactantes levando o público ao delírio. Seria o retorno dos desfiles épicos de um evento que se ressente da ausência dos shows de John Galliano para a Dior ou de Alexander McQueen (leia mais aqui)? Ou uma alusão aos nineties e toda aquela parafernália que emoldurava as raves, intensificando os efeitos de ingestões sintético-psicotrópicas? Sim, são tempos duros e às vezes é preciso aloprar.

Saint Laurent no PFW2019 (Foto: Reprodução)

Chanel

As cores seguiram iluminando as últimas criações de Karl Lagerfeld, como vimos para a Fendi na Semana de Moda de Milão 2019. A coleção póstuma do estilista para a maison Chanel foi finalizada pela atual diretora criativa (e braço direito do kaiser) na marca francesa, Virgine Viard, que ambientou o desfile conforme Karl idealizou: uma estação de esqui num alpe coberto de neve. Tipo Chamonix, Gstaad, Cortina D’Ampezzo porque, afinal, ele nasceu em berço de ouro. Aspen, never! Nada de novo rico!

Talvez as afinidades entre os estilistas tenham feito boa parte das peças seguirem com a identidade que Karl imprimiu em décadas de Chanel. Porém, o lado contemporâneo de Viard veio à tona. O desfile iniciou-se após um minuto de silêncio que foi rompido com uma declaração de Karl, no seu francês com sotaque germânico militar, naquela sua maneira única de torpedear as palavras como se fosse um esquadrão da Luftwaffe. Ele dizia que não se arrependia de ter aceito o trabalho na label após a Rainha Elizabeth II ir a um desfile da grife, que ele considerava ultrapassada, e pontuar que as modelos transitavam como que dispostas numa pintura.

Cara Delevingne abriu o desfile com um chapéu e macacão xadrezinho acinturado e um casacão de pied-de-coq, padronagem que perambulou em várias peças (ou quadros?). Como suas variantes: pied-de-poule, sempre presentes nas coleções da Chanel, além de lookinhos quase totalmente monocromáticos.

A embaixadora da marca, a atriz Penélope Cruz, singela e toda toda, encerrou o desfile com uma rosa branca na mão, seguida das modelos musinhas de Karl nos últimos tempos. Várias visivelmente emocionadas, num emocionante grand finale ao som de Heroes“, de David Bowie.

Chanel no PFW2019 (Foto: Reprodução)

Chalet Gardenia: neve fake (camadas de sal grosso e refinado?) e muita emoção marcaram o último desfile concebido por Karl Lagerfeld, morto mês passado (veja aqui) (Foto: Reprodução)

Rochas

O refinamento da mulher parisiense é sempre fonte de inspiração para as marcas. Dessa vez, foi a Rochas que fez questão de pôr na passarela uma coleção de chiquê contemporâneo, inspirada nesse perfil/arquétipo/estilo de difusão global. Exploradas ao máximo, as texturas valorizaram vestidos de tecido leves em tons clarinhos, apagadinhos, perfeitinhos para quem quer ser elegantinha sem se render ao circo de variedades/quermesses/exposição nas mídias sociais. O vestido oversized de lã preto é destaque, como conferido nas amplas modelagens tão exploradas durante a última temporada de Alta-Costura de Paris. Uma silhueta alongada por saias e vestidos diáfanos e conjuntos de alfaiataria neutros, sem o apelo dramático de uma passarela convencional.

Rochas no PFW2019 (Foto: Reprodução)

Maison Margiela

Com uma coleção intitulada “Swan Lake”, John Galliano pintou e bordou no outono-inverno da Maison Margiela. Tipo enfant gaté. O Lago dos Cisnes de Galliano esteve repleto de peças que brincaram com prints psicodélicos inspirados no clássico balé de quatro atos de Tchaikovsky, para Odilles e Odettes de todos os sexos. Pela primeira vez, a marca abriu mão do plástico nas criações, numa atitude justificada no incentivo a não-utilização e descarte da matérias-primas poluentes na moda da label. O Greenpeace amaria. Surge assim uma coleção relevante, atenta ao entorno. Ponto para o John boy, que vem pontuado questões importantes nas últimas temporadas da label.

Maison Margiela no PFW2019 (Foto: Reprodução)

Dries van Noten

A melancólica coleção de outono-inverno de Dries van Noten nasceu no jardim da sua casa na Antuérpia, Bélgica. Um lugar que já é lacônico naturalmente, vide o excesso de caveiras e esqueletos presentes na decoração e cultura pop locais, fruto dos horrores que a cidade, conhecida pelos diamantários judeus, herdou da invasão nazista. Quem assistiu o documentário “Dries“, sabe que o estilista pratica um ritual diário de colher flores e repôr os vasos da sua casa, refúgio no qual foram pensadas boa parte das últimas coleções. As estampas das peças foram criadas a partir de fotografias das plantas colhidas, servindo também para conceber o ar dramático da catwalk, que equilibrou a alfaiataria com vestidos e doudounes delicadinhas, porque não?

As rosas estampadas tinham um fundo escuro em boa parte das peças, revelando o lado pesado por trás da beleza de criar moda. O desfile começou com uma cartela acinzentada em casacos, terninhos e saias até que as flores fossem reveladas. Foi diferente em relação ao que o estilista já criou, mesmo que a coleção tenha sido concebida numa temporada na qual as flores já brotaram em peso, transformando a passarela na Holambra.

Dries van Noten no PFW2019 (Foto: Reprodução)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.