*Por Alexandre Schnabl e Lucas Montedonio

A virada do mês já começa com o “burburinho fashion da semana” que prossegue pelos sites, portais, mídias sociais e a partir desta quarta-feira, 2/12, nos veículos de comunicação impressos em função do timing de produção. A edição 2016 do icônico Calendário Pirelli – cujas páginas são geralmente ocupadas pelos mulherões que costumam invadir as passarelas internacionais e editoriais de moda – foi apresentada à imprensa e convidados nesta última segunda-feira (30/11), num bochicho no Roundhouse, antigo prédio industrial que, na década de 1960, servia como templos do rock&roll na capital britânica, Londres.

Esta 43ª edição da folhinha de parede chique – uma das que resistem ao tempo, à crise do papel e à modernização da internet, que lima da vida cotidiana as formas gráfico-mecânicas de controlar a passagem dos dias – ficou a cargo da fotógrafa americana Annie Leibovitz (leia-se Vanity Fair) que, para ilustrar o material, preferiu as mulheres comuns às deusas da moda. Bom, se é que podemos chamar de normais criaturas como a cantora Patti Smith e a diva Yoko Ono, duas entre as 14 fotografadas (sim, relaxa, o ano continua com 12 meses, mas existe a foto do prefácio e março conta com duas modelos). Perto da aura magnética dessas duas, por exemplo, vestais como Carol Trentini não passam um ótimo projeto de embalagem realizado por um excelente escritório de design chamado natureza. E só.

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Anjo azul japa: beauty artist acerta a beleza incomum de Yoko Ono, que posa em modelito a la Marlene Dietrich para o mês de outubro no Calendário Pirelli 2016 (Foto: Divulgação)

O trabalho, realizado no mês de julho no estúdio de Leibovitz, em Nova York, deu o que falar. Afinal, saem da ribalta beldades como Isabeli Fontana e Naomi Campbell, só para citar duas top models completamente diferentes entre si (no biotipo e na atitude) que já serviram de inspiração para o calendário. E entram em cena fêmeas cujo apelo não é exatamente o sex appeal ou a pele de pêssego, mas o conteúdo ímpar. De deixar a lendária escritora Dorothy Parker ouriçada e a filósofa homossexual Camille Paglia trepidante, já que o tema desse ano é notoriedade num outro patamar, ainda que Camille seja contundente  em afirmar que a sexualização da mulher é uma forma de poder. Para a escritora ítalo-americana, quando as feministas queimaram os sutiãs em praça pública no final dos anos sessenta, elas não imaginavam que estariam perdendo justo aquilo que elas mais almejavam: bala na agulha.

Camille Paglia: para a escritora, a exposição do corpo da mulher é uma forma de female power, muito além do fetichismo exercido pelo homem (Foto: Reprodução)

Camille Paglia abre o verbo: para a escritora, a exposição do corpo da mulher é uma forma de female power, muito além do fetichismo exercido pelo homem (Foto: Reprodução)

É Leibovitz quem esclarece: “Quando a Pirelli me telefonou, disseram que queriam iniciar do passado. Sugeriram que fotografasse mulheres ilustres. Após termos concordado com isso, o objetivo era ser muito simples. Eu queria que as imagens mostrassem as mulheres exatamente como elas são, sem nenhuma pretensão.”

Assim, não há full frontals e os poucos nus são da sutileza de uma joaninha saboreando um alface. Provavelmente, quem conhece a fotógrafa num circuito próximo, que vai além do seu fabuloso trabalho na hora de captar a essência do personagem clicado, deve ter se deliciado com esta declaração, ainda mais considerando que é bem possível que, no íntimo, a moça – por sinal ex-namorada de Camille – venha a se deleitar quando entra no set para clicar uma top trajada no mesmo modelito que Vênus usou para nascer da concha, diante do pintor renascentista Sandro Botticelli (1445-1510).

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Full frontal de uma deusa: idealização do nu feminino nas artes é veículo para o espetáculo pelo menos desde o Renascimento, como em “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli. Agora, em pleno 2016, o Calendário PIrelli, que andou bebendo dessa fonte,  parece renegar esse caminho na busca de outra forma de exposição (Foto: Reprodução)

Vale lembrar que foi a célebre retratista quem clicou Caitlyn Jenner para a Vanity Fair no auge do furacão “Bruce-muda-de-sexo” e mais recentemente assinou o ensaio fotográfico da família Jolie-Pitt para Vogue America de novembro.  A pegada deste calendário em relação às versões anteriores é bem diferente: sim, a sensualidade é peça-chave, porém, de maneira nada gratuita. Delicadeza é premissa (ainda que todas a fotografadas sejam, cada uma a seu modo, poderosíssimas) e a preocupação pela diversidade é visível. Não há um nu completo sequer, e, se o tema é o empoderamento da mulher – não importa idade, raça ou padrão de beleza, todas são engajadas de alguma forma em alguma causa ou projeto de vida.

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Annie Leibovitz: seu olhar feminino a serviço da Pirelli para renovar a imagem do seu calendário em 2016, abrindo mão do óbvio nu (Foto: Reprodução)

Portanto, é bom ressaltar que o que a Pirelli está querendo dizer nas entrelinhas é que, numa era em que o Photoshop se tornou pastiche em tantos casos (vide o Justin Bieber turbinado da Calvin Klein no início do ano), é decente buscar a estetização da realidade de outra forma. De preferência acentuando aquilo que essas female icons têm de melhor: seu próprio brilho interior. Mesmo que este esteja, eventualmente, emoldurado por um sem número de rugas de preocupação. E mais: glamurizado ao extremo por uma artista que praticamente sintetiza a capacidade de alcançar o espetáculo através da tríade “iluminação maravilhosa-feeling na hora de olhar-know how absoluto para extrair a verdade interior de uma personalidade”.

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Bieber in tights: pop star posa para a campanha de underwear da CK no início de 2015. Logo depois do lançamento, vazou na internet a imagem que mostrava que a musculatura torneada do galinho era tão real quanto Diet Leite Moça (Foto: Divulgação)

Com a ajudinha básica de uma fotógrafa que consegue tirar leite de pedra – ou de transformar jaburu em sílfide –, o espetáculo está garantido e, voilà: já podem descansar em paz, por hora, os publicistas da Pirelli, em plantão desde os anos 1960 nessa busca desenfreada por ganchos para que o calendário anual  possa transmutar o engraxado universo dos fabricantes de pneus no escorregadio, mas cintilante, mundo da celebridades.

Afinal, não é nada fácil queimar a mufa para conceber novo assunto a cada ano, pronto para polemizar a folhinha numa era em que nem mais os borracheiros penduram calendário em suas oficinas mecânicas. O cérebro dos marqueteiros envolvidos no projeto podem estar mais gasto que pneu careca, uma vez que não é brincadeira por na berlinda um produto que já saiu de moda. Sobretudo, quando quem vai exibir o item na parede já não são mais os profissionais do segmento automotivo, mas publicitários, diretores de arte e wannabes que pretendem exalar aroma fashion para impressionar seus clientes.

A nova edição vai de encontro ao livro da própria Annie Leibovitz, Women, no qual ela já havia destacado a ideia de diversidade feminina, com cliques que vão de showgirls até representantes da Suprema Corte norte-americana. Claro que, no Calendário Pirelli, a artista não pode ir tão a fundo e eleger ilustres desconhecidas, sendo obrigada a transitar dentro dos cânones do espetáculo fotografando celebs de maior ou menor projeção, mas dignas de estarem lá, sob o risco de, caso contrário, sair do foco de visibilidade que a marca de pneus pretende atingir com este item de colecionador. Digamos que a folhinha fashion está para a Pirelli tanto quanto o quase “desfile de escola” da Victoria’s Secret está para as calcinhas.

É por esse motivo que dão as caras no projeto criaturas que não estão constantemente às vistas do grande público nos tabloides e semanários, mas por trás de sucessos como o da indústria cultural. Exemplo disso é a mega produtora executiva de cinema e hoje presidente da Lucasfilm Kathleen Kennedy, acostumada a por de pé muitos dos blockbusters que fizeram a fama de Steven Spielberg. Ou da cineasta Ava DuVernay, que andou fazendo sucesso no último circuito do Oscar com seu drama histórico Selma“, que retrata um momento importante na recente história norte-americana da emancipação dos negros.

julho ava duvernay

Ava DuVernay: Oscar 2015 esnobou a cineasta e não a indicou para concorrer a ‘Melhor Direção’, embora sua obra tenha sido indicada a ‘Melhor Filme’. Agora, a Pirelli tenta compensar a injustiça incluindo a moça na lista de mulheres poderosas que posaram para o calendário 2016 (Foto: Divulgação)

Mas claro que ninguém é de ferro: entre as poderosas não tão beauty assim, a Pirelli escalou a supermodelo russa Natalia Vodianova para estampar março e a blogueira-sensação Tavi Gevenson para agosto. A primeira, além de fazer parte do primeiríssimo escalão de modelos internacionais, acumula no currículo o casamento com o magnata europeu Justin Portman, mas a moça sabe muito bem ganhar dinheiro por conta própria. Foi a sétima modelo mais bem paga do mundo entre 2006 e 2009, provando que nem sempre casamento com empresário precisa ser sinônimo de aposentadoria para modelo.

Ela continua na ativa e cedeu, inclusive, seu rostinho lindo para completar a Medusa feita por computação gráfica no remake deFúria de Titãs (2010). Faz sentido, sua beleza é tão grande que, ao invés de enternecer corações, poderia deixar homens tão duros quanto pedra. Pelo menos uma certa parte do corpo deles…

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Leibovitz mostra à bonitíssima Natalia Vodianova o resultado da sessão na tela de sua câmera: juventude da übbermodel é exceção na lista de escolhidas para estampar o Calendário Pirelli 2016 (Foto: Divulgação)

Já a escritora e it-girl Tavi Gevinson, fundadora da Style Rookie e da revista eletrônica Rookie, foi a escolhida para imprimir o devido toque de frescor ao calendário. Okay, tudo bem que ela mistura a competência online com esse jeitinho de enfant terrible, tipo uma influente Twiggy/Mia Farrow do mundo digital. Mas, se a onda agora é “mulheres ilustres” e diante do elenco geral, por que não escalar a poderosíssima, estilosíssima e personalissíma it-elderly Iris Apfel ao invés da novinha? Não faria mais sentido?

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Bonequinha de luxo com pegada pós-moderna: Tavi Gevinson incorpora no Calendário Pirelli 2016 a lolita pensante em meio a outras poderosíssimas representantes do time que prefere conquistar o mundo pelo cérebro (Foto: Divulgação)

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O estilo over podre de chique de Iris Apfel: merecia estar na publicação a decoradora que virou ícone de estilo e ainda permanece surpreendente na idade avançada (Foto: Reprodução)

O Calendário Pirelli 2016 ilustra 14 mulheres de notáveis conquistas profissionais, sociais, culturais, esportivas e artísticas. As idades e as origens variam muito e as carreiras também. Participam também: Agnes Gund (colecionadora de arte, com a neta Sadie Rain Hope-Gund), a tenista Serena Williams, a escritora Fran Lebowitz, a presidente da Ariel InvestmentsMellody Hobson, a artista Shirin Neshat e as atrizes, Yao Chen Amy Schumer. Confira abaixo mais algumas fotos do “The Cal” (sim, ele é tão famoso que ganhou este apelido):

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Costas quentes: Abril fica por conta de Serena Williams, que impressiona através de uma delicadeza masculina versus virilidade feminina (Foto: Annie Leibovitz)

A super Amy Schumer é a estrela de dezembro do Calendário Pirelli

“Sou uma grande admiradora de comediantes. O retrato de Amy Schumer acrescentou um pouco de diversão. É como se ela não tivesse recebido o memorando dizendo que ela podia permanecer vestida”, afirma a fotógrafa (Foto: Annie Leibovitz)

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A presidente da Ariel Investments, Melody Hobson, posa para o mês de junho com direito a cruzada de pernas que causaria inveja em Sharon Stone (Foto: Divulgaçã0)

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A escritora Fran Lebowitz empresta sua figura andrógina ao mês de maio (Foto: Divulgação)

Novembro com Patti Smith

Em novembro, a cantora-ícone Patti Smith dá as caras (Foto: Annie Leibovitz)

O prefácio é de Yao Chen

O prefácio conta com a imagem da delicada Yao Chen, elegância oriental a toda prova (Foto: Annie Leibovitz)

shirin neshat

Multiculturalismo em cena: a artista Shirin Neshatposa para a lente de Annie (Foto: Divulgação)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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