Integrante de um dos pilares da atual cinematografia hollywoodiana – o misto de romance teen com trama de fantasia – A 5ª Onda” (The 5th Wave, de J. Blakeson, Columbia Pictures, 2016), já em cartaz no Brasil, liderou o ranking do último final de semana no país com R$ 6,867 milhões de faturamento, além de quase US$ 12 milhões nos Estados Unidos. Alguma surpresa? Nadica. A ideia é essa mesmo: faturar no combo de adrenalina, efeitos especiais e feromônios que costuma tomar conta das salas de exibição quando hordas de adolescentes compram o ingresso para sentir susto e ver os mocinhos darem beijo na boca. A premissa é simples: na vibe de Independence Day“, a Terra é tomada de assalto por alienígenas do mal, do tipo que não está para brincadeira, cujo objetivo é se dar bem lucrando em cima do extermínio da humanidade. “ET phone home?” Nada disso! Aliens bonzinhos que tomam banho de piscina ao lado de divertidos velhinhos aposentados na Miami de “Cocoon”? Nem pensar. Essa turma é pitboy das estrelas, pica das galáxias, maçaranduba dos confins do espaço. A onda é mesmo chegar chegando, doa a quem doer.

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Com o ursinho de pelúcia a tiracolo, os irmãos Cassie e Sam Sullivan (Chloë Grace Moretz e Zackary Arthur) vislumbram a destruição da Terra em “A 5ª Onda”: primeiro indício de que o planeta será devastado é o emudecimento dos celulares. Afinal, esse não é mesmo o fim do mundo para os adolescentes atuais? (Foto: Divulgação)

A novidade fica por conta deste tipo de mitologia usada agora em prol de uma história água com açúcar capitaneada por adolescentes, a partir do best seller escrito por Rick Yancey e com a qual a Sony pretende iniciar uma franquia. Tudo a ver, considerando que nos últimos anos sagas bem sucedidas fizeram tubos de dinheiro nas livrarias e cinemas, justamente infantilizando o medo. Se Crepúsculo reduz mortos-vivos sanguessugas e lobisomens enfurecidos a sensíveis nerds esquisitões e barbies descamisadas que devoram toneladas de whoppers furiosos no Burger King mais próximo, paciência. Se Jogos Vorazes” restringe ditaduras futuristas estruturadas na base do pão e circo a narrativas com intrépidas mocinhas que manejam arco e flecha para se rebelar contra o poder dominante, e daí? Se Maze Runner resume a sobrevivência em um mundo aniquilado ao dilema de sair da barra da saia da mamãe, tudo bem, meu bem!

Desde “Harry Potter”, Hollywood se esmera em verter para as telas best sellers que transformam todo tipo de enredo clássico de fantasia num contexto puramente teen. Confira abaixo estas criaturas de outros mundos agora ao alcance do cotidiano de qualquer adolescente (Fotos: Divulgação): 

Esses filmes fazem sucesso porque, nas entrelinhas, um público cheio de espinhas, topetinhos topetudos e testosterona a dar com pau se enxerga ali e topa gastar a mesada no ingresso para ver esse tipo de produção. E, se os ingredientes derem certo e o bolo não solar, está garantida tanto a diversão quanto a nota preta no bolso dos envolvidos na realização, que possivelmente se desdobrará em continuações, como até agora os números indicam. Afinal, não é para isso que filmes são produzidos? Como dizia Luiz Severiano Ribeiro: “cinema é a maior diversão!”

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Modelito teen para salvar o mundo: camisa xadrez, calça skinny e boots solado alpinista fazem o estilo “the girl next door” da protagonista Chloë Grace Moretz em “A 5ª Onda” (Foto: Divulgação)

Assista abaixo ao trailer (Divulgação):

Ao escrever o romance original, Rick Yancey deve ter passado algum tempo debruçado sobre baluartes da sci-fi em busca de inspiração. Teve a ideia de garimpar clássicos de invasão alienígena do cinema e literatura e, no seu balaio, jogou tudo junto e misturado. Tem a destruição sistemática da raça humana por seres espaciais da pior qualidade, daqueles que amam de carteirinha Odete Roitman, Paola Bracho e Nazeré Tedesco. Tipo Guerra dos Mundos“. Rola a paranoia de não saber se é possível confiar ou não no seu vizinho – típica dos filmes sci-fi na época da Guerra Fria – com parte dos sobreviventes incorporados pelos ETs, como em Invasores de Corpose “O enigma de outro mundo“. O roteiro esbarra até no recrutamento militar de jovens e sua lavagem cerebral a serviço de uma nova ordem, como em V: a batalha final. Tsunamis? Bom, vários filmes-catástrofe da última década exploram o terror do vagalhão anabolizado desde quando houve aquele tragédia no Índico, em 2004, e mesmo antes disso, com Impacto Profundo (1998).

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´Ponte de Londres é destruída por mega vagalhão no cartaz de “A 5ª Onda”: apanhado de clichês faz parte da narrativa do novo blockbuster adolescente. Perfeito para levar hordas de teens às salas de exibição (Foto: Divulgação)

Assim, o diretor J Blakeson pega esse american kilt nada original e costura tudo bonitinho, fazendo o dever de casa e conseguindo por de pé uma narrativa que conta sobretudo com o carisma de Chloë Grace Moretz e causa mesmo arrepio quando se perpetua a sucessão de ações para desencadear o genocídio humano. Mas perde a mão justo quando é obrigado a deixar um pouco de lado a trama da invasão extraterrestre para dar cabo do triângulo amoroso teen, principalmente porque os dois interesses românticos da protagonista são interpretados por Nick Robinson (“Jurassic World: o Mundo dos Dinossauros”) e Alex Roe, os quais, enquanto atores, são ótimos modelos fotográficos, daqueles que rendem belas fotos na Capricho“, curtem o som do One Direction, clipes da Rihanna e exibem lábios carnudos entreabertos de deixar Angelina Jolie com inveja. São eles que vão salvar o mundo. Mas fazer o quê? Está no roteiro.

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Comigo é na base do beijo: o trio de protagonistas de “A 5ª Onda”: Nick Robinson (esq.), Chloë Grace Morez (centro) e Alex Roe (dir.) – posa para a foto promocional do longa. Não se sabe se a produtora de casting Francine Maisler selecionou o time de atores tendo em vista os lábios carnudos (Foto: Divulgação)

Felizmente, o longa traz Liev Schreiber – um intérprete de recursos – e o ótimo Tony Revolori (destaque em O Grande Hotel Budapeste“), irreconhecível num papel menor que não está à altura do seu talento. No âmbito geral, numa era em que apocalipses de todos os tipos são explorados pela indústria cultural, o filme não faz feio e é divertido.

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Nick Robinson (esq.) contracena com Liev Schreiber (dir.) em “A 5ª Onda”: escalado para imprimir credibilidade interpretativa ao longa, o ator, que também está no elenco dos oscarizáveis “Spolight” e “Creed”, prova que ele pode ser tornar o novo Michael Caine. Pagou, ele topa atuar. (Foto: Divulgação)

E ainda tem a Chloë Grace Moretz fazendo aquele irresistível jogo de olhinho triste com sobrancelha para baixo que faz quem a gente queira dar uma abraçada num ursinho de pelúcia. Bem melhor do que encarar vampiro de camisa de flanela xadrez e modelito em estilo indie…

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Olhinhos assustados são a melhor arma: atriz que estourou em “Kick-Ass”, Chloë Grace Moretz sabe que é irresistível essa expressão que é misto de susto com tristeza. Motivo pelo qual ela usa esse artifício em qualquer produção, de “A invenção de Hugo Cabret” à refilmagem de “Carrie – a estranha” (Foto: Divulgação)

 

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