Neste domingo (29/5), no momento em que bandeiras com as cores do arco-íris estão sendo desfraldadas na maior passeata gay do mundo e escoltadas por 17 trios elétricos, em plena avenida Paulista, centro da capital, não deixa de ser apropriado lembrar a vida e a obra do pintor italiano presumidamente homossexual Michelangelo Meresi, dito Caravaggio (1571-1610), de origem milanesa, cuja notável influência sobre o meio artístico da sua época – a passagem do século 16 para o 17 – é o tema da esperada exposição “Caravaggio y los pintores del norte” no lindíssimo Museu Thyssen-Bornemisza, de Madri, entre 21 de junho e 18 de setembro, com curadoria de Gert Jan van der Sman, professor da Universidade de Leiden e membro do Istituto Universitario Olandese di Storia dell’Arte de Florença, da Universidade de Utrech, ambas instituições da Holanda.

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O Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri, que vai receber entre 21 de junho e 18 de setembro a exposição “Caravaggio y los pintores del norte”, é um arrojado exemplo de convivência entre o neoclássico e o contemporâneo, através da arquitetura do Palácio Villahermosa e a área ampliada de autoria do premiado arquiteto espanhol Rafael Moneo (Reprodução)

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Caravaggio. Jovem mordido por um lagarto, c. 1593-2595. Óleo sobre tela. Esta obra, segundo o historiador da arte Donald Posner, é um dos mais provocantes exemplos do gosto que artista cultivava por efebos e suas poses efeminadas (Foto: Divulgação)

Segundo o curador, o aspecto que garante a singularidade dessa mostra é a ênfase sobre o legado de Caravaggio para um amplo espectro de pintores europeus – especialmente holandeses – e a diversidade de reações motivadas pelas suas obras na sensibilidade do período em que os artistas buscavam se libertar dos rigores do classicismo renascentista em movimentos como o Maneirismo, prelúdio do barroco. Para isso, foram reunidos 53 quadros – entre os quais 12 obras-primas da lavra do próprio Caravaggio – colhidos de coleções privadas, museus e instituições como o Metropolitan Museum de Nova York, a Galleria degli Uffizi, de Florença, o Museu Hermitage, de São Petersburgo, o Rijkmuseum de Amsterdã e a igreja de São Pedro em Montorio, em Roma.

Caravaggio (Merisi, Michelangelo da (1573-1610): The Musicians, c. 1595. New York, Metropolitan Museum of Art*** Permission for usage must be provided in writing from Scala. May have restrictions - please contact Scala for details. ***

Caravaggio. Os músicos, entre 1596-1597. Óleo sobre tela. O pintor milanês foi insuperável na técnica de fazer emergir de um fundo escuro cenas com um relevo quase escultório, destacando – neste caso – jovens torsos masculinos e suas bocas carnudas (Foto: Divulgação)

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Adolescentes em poses insinuantes tangendo instrumentos musicais – tema frequente de Caravaggio como se vê em “Os músicos” – inspiraram parte da obra do barão e fotógrafo alemão Wilhelm von Gloeden (1856-1931), pioneiro da fotografia ao ar livre e do nu masculino com conotações eróticas, embora filtrados pelas referências à Grécia clássica (Foto: Reprodução)

A vigorosa influência exercida por Caravaggio sobre pintores de diversas partes da Europa não se explica apenas pelo seu audacioso temperamento artístico que chocava os adeptos dos ideais serenos e racionais da Renascença, mas também pelo fato de que durante o período em que ele pontificou como uma espécie de profeta de uma nova estética, Roma era uma verdadeira incubadora de pintores que vinham de todas as partes da Europa para aprender e se inspirar. Estima-se que mais de dois mil artistas estabeleceram-se na capital entre 1600 e 1630, dos quais uns setecentos eram estrangeiros, o que transformou a Cidade Eterna na maior caixa de ressonância estética do mundo ocidental.

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Outra obra-prima do claro-escuro consagrado por Caravaggio e que integrará a exposição do Museu Thyssen-Bornemisza é “David com a cabeça de Golias”, óleo sobre tela pintado entre 1598-1599, em que o artista revoluciona completamente a forma consagrada de abordar temas bíblicos (Foto: Divulgação)

A mostra “Caravaggio y los pintores del norte”, além de cobrir todas as fases do itinerário artístico do inquieto pintor, desde seu período romano até as célebres criações claro-escuras dos seus últimos anos, apresenta uma seleção de obras dos seus mais destacados seguidores holandeses – Dirk van Baburen, Gerrit van Honthorst ou Hendrick Ter Brugghen –, os de Flandres, como Nicolas Régnier e Louis Finson; além dos franceses Simon Vouet, Claude Vignon e Valentin de Boulogne.

CARAVAGGIO E OS PINTORES DO NORTE DA EUROPA

O recorte da exposição sobre Caravaggio no Museu Thyssen-Bornemisza a partir de 21 de junho contempla a fortíssima influência que ele exerceu sobre os pintores estrangeiros que estavam estudando em Roma e Nápoles quando o “caravaggismo” tornou-se uma verdadeira febre, principalmente na Holanda e França. Conheça algumas das obras que estarão na mostra e que ilustram o legado do genial artista lombardo sobre a pintura holandesa.

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O motivo do jovem efebo flautista reaparece neste óleo sobre tela de 1621 do holandês Hendrick Ter Brugghen (? – 1629), um dos vários pintores da Escola de Utrecht que estiveram em Roma para se aperfeiçoar e onde foram submetidos ao irresistível impacto da obra de Caravaggio cuja influência já se alastrava sobre a Europa, anunciando o advento do barroco (Foto: Divulgação)

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Caravaggio foi, talvez, aquele artista que mais poderosamente influiu o maior nome do barroco holandês, Peter Paul Rubens (1577-1640). Ambos os artistas exalam dramaticidade, extravagância, sensualidade e movimento, como se vê neste óleo sobre papel montado sobre tela intitulado Cabeça de jovem, de 1601 (Foto: Divulgação)

Embora Caravaggio tenha sido o artista-chave que abriu a porta para o triunfo do barroco como estilo supremo da arte européia dos próximos dois séculos e tenha gozado de muito prestígio em vida, seu nome permaneceu em relativo esquecimento por quase trezentos anos, fato que colaborou para que muitos episódios de sua tortuosa e errática trajetória pessoal permanecessem encobertas de mistério, a começar pela sua morte, ocorrida aos 38 anos em circunstâncias desconhecidas, seguida do desaparecimento inexplicável do seu corpo. Somente em 2010, uma força- tarefa de cientistas italianos conseguiu anunciar a identificação dos seus restos mortais encontrados num pequeno cemitério da localidade de Porto Ercole, pitoresca cidade medieval da costa da Toscana. E, mesmo assim, essa identificação, baseada em análises de DNA e de carbono-14, não tem 100% de segurança. Todavia, o que se sabe de fato sobre a vida de Caravaggio justifica sua fama de “maledetto” (maldito), pois são recorrentes os relatos de querelas, bate-bocas e brigas violetas envolvendo o seu nome que acabavam em ferimentos a faca ou espada, e ocorridas em tavernas, prostíbulos ou antros de jogo de bairros populares de todas as cidades em que viveu.

Assista abaixo o longa-metragem “Caravaggio” (British Film Institute e Channel Four Teelvision, 1986). de Derek Jarman, no qual o cineasta procura desvendar a personalidade do famoso pintor barroco. No filme, o diretor carrega na atmosfera soturna como forma de evoca o típico “chiaroscuro” da obra do artista (Reprodução):  

O propalado fascínio de Caravaggio pelo bas fond – onde ele encontrava os rostos grotescos e sofridos que depois iriam personificar santos e figuras bíblicas nos seus quadros – e seus conturbados relacionamentos com jovens de ambos os sexos incentivavam seus inúmeros inimigos a espalhar boatos cada vez mais infames sobre a vida íntima do artista. Para não falar das perseguições e dos processos judiciais a que teve que responder, como a rumorosa acusação de que dividia com um amigo os serviços de um “bardassa” (travesti), numa Roma onde o homossexualismo era comum e até cultivado em amplos estratos da nobreza e da burocracia eclesiástica.

O século XX testemunhou não só a reabilitação do gênio de Caravaggio como também o reconhecimento da sua importância fundamental no salto da arte rumo a modernidade. Além disso, a opção de Caravaggio por um modo de viver extravagante, livre e perigoso inspirou a trajetória de importantes artistas contemporâneos e tão iconoclastas como ele: o escritor e dramaturgo Jean Genet (1910-1986), o poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-1975) e o também diretor Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), todos eles verdadeiros oráculos da cultura e do movimento gay, atualizaram a árdua pecha de “maldito” inaugurada por Caravaggio. Mas, hoje, na avenida Paulista, eles poderiam ter a certeza de que esse incômodo valeu a pena.

1571-1610 Michelangelo Merisi, called Caravaggio Lombard Painting European Painting and Sculpture Purchase: William Rockhill Nelson Trust Italian Unframed: 68 x 52 inches (172.72 x 132.08 cm) Framed: 77 ¼ x 60 7/8 x 4 inches (196.22 x 154.62 x 10.16 cm) 1604-1605 Saint John the Baptist in the Wilderness

Caravaggio. São João Batista no deserto, 1602. Óleo sobre tela. Esta obra célebre foi disputada a tapa por poderosos admiradores de Caravaggio na Roma da passagem do século 16 para o 17, período que corresponde ao apogeu do prestígio e da influência do pintor, invencível no jogo claro-escuro que dramatiza o corpo masculino (Foto: Divulgação)

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Em 1986, o cineasta britânico Derek Jarman (1942-1994) levou para as telas uma visão muito pessoal da vida e da obra de Caravaggio, em que reproduzia alguns dos quadros mais conhecidos do mestre como São João Batista no deserto na figura do ator Sean Bean (Foto: Reprodução)

Serviço:

Caravaggio y los pintores del norte

De 21 de junho a 18 de setembro de 2016

Museu Thyssen-Bornemisza

Paseo del Prado, 8, Madri.

Maiores informações: www.museothyssen.org

Um comentário

  1. Phillipe

    Ah Madrid… enquanto se vive a penúria dos magros museus cariocas, podemos pensar que tudo isso é oferecido por lá. Esse filme do Caravaggio é ótimo, Tilda Swinton novinha como musa do Jarman.

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