Se você gosta de biografias – seja em livros, filmes ou até mesmo dando ouvido às fofocas espalhadas pelas redes sociais – prepare seu fôlego. Vidas de pessoas que se celebrizaram por que – de alguma forma – mudaram a face do mundo estão retratadas nesta edição do Festival do Rio através de um bom punhado de títulos (veja algumas sugestões ao final desta matéria) que empregam variados formatos e linguagens para recuperar a importância dos respectivos biografados, indo desde o documentário linear clássico até as reconstituições dramatizadas, passando pelos filmes-entrevistas.

O gosto pelas biografias sempre foi forte em todas as camadas de público, mas de algumas décadas para cá a indústria cultural vem acusando um aumento desse apetite, a ponto de o gênero ter acabado no centro da arena midiática como o recente caso da biografia de Roberto Carlos de autoria de Paulo Cesar de Araújo, inicialmente impedida de circular por força de ação movida pelo cantor – depois revertida – mas cujos desdobramentos estão longe de um final pacífico.

No caso de Chico-Artista brasileiro não há conflito algum. Até o apoio aberto que Chico Buarque tem dado ao desmoralizado governo PT foi discretamente evitado neste documentário, exatamente para não contaminar com um “assunto passageiro” – como justificou Miguel Faria Jr. – um registro biográfico que certamente vai ficar na memória do público por aquilo que ele tem de mais sólido e permanente: a beleza das canções de Chico e a arte dos seus intérpretes, como Mônica Salmaso, Péricles, Ney Matogrosso, ou as duplas Adriana CalcanhottoMart’nália e CarminhoMilton Nascimento, todos especialmente convidados por Miguel Faria Jr. para ocupar os interlúdios musicais que se entremeiam ao fluxo narrativo do próprio Chico rememorando as passagens cruciais (e também as engraçadas) de uma carreira espetacular de cinco décadas na música e, desde 1991, na literatura.

Chico com camisa optical art e bigodão: anos 1970 na veia (Divulgação)

Imagem clássica: Chico Buarque com camisa optical art e bigodão: anos 1970 na veia (Divulgação)

Aliás, o público já é avisado pela boca do próprio Chico no início desse percurso que memória, fantasia e imaginação sempre se misturaram na sua cabeça, e que é justamente desse composto que o artista tira a matéria-prima para as suas criações. Assim, de um jeito muito bem humorado, ele lava as mãos em relação à precisão e à coerência de suas lembranças para que possamos embarcar na sua jornada pessoal sem o peso do compromisso com verdades absolutas. É essa deliciosa combinação de leveza com simplicidade – também presente no documentário Vinicius(2005) do mesmo Miguel Faria Jr. – que vai nos garantir um prazer contínuo ao lado de “Chico-Artista brasileiro”, inclusive nas partes em que são narrados os anos de chumbo da ditadura militar e as trapalhadas dos censores.

Os quatro fantásticos da poesia brasileira: Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Divulgação)

Os quatro fantásticos da poesia brasileira: Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Divulgação)

Para aqueles que estão na faixa dos cinquenta e dos sessenta anos e que acompanharam a trajetória do artista e o crescimento da sua importância na vida musical e social do Brasil – principalmente entre 1966 e 1985 -, o documentário “Chico-Artista brasileiro” vai levantar um maremoto de lembranças nos planos afetivos, comportamentais e políticos de cada um, embora o próprio Chico Buarque acredite que os tempos passados não tenham sido nada bons e que a vida brasileira melhorou – sim – mas só depois da reconquista da democracia.

Confira abaixo o trailer de “Chico-Artista brasileiro” (Divulgação):

Mas como não sentir o coração palpitar com as maravilhosas imagens do Rio de Janeiro de ontem e de hoje – cidade de eleição do compositor –, com as fotografias de infância, com os fragmentos de filmes e videoteipes (a maioria cuidadosamente restaurada) que registraram para a história o frescor das suas participações nos festivais da Record, ou a sua expressão entre o pânico e o desamparo sob o peso da vaia monumental que ele e Tom Jobim receberam no Maracanãzinho, fruto da rejeição à vitória de “Sabiá” na grande final do III Festival Internacional da Canção, em 1968? Como não rir do kitsch involuntário dos programas que Chico fez para a televisão italiana durante o seu exílio na Europa, ou do trecho em que ele canta “Vai passar” tragado pela mais caótica esculhambação do programa Discoteca do Chacrinha”, em baixo de toneladas de confetes e serpentinas lançadas por robustas chacretes? Impossível.

CHICO BUARQUE

Chico Buarque e o MPB-4 canta “Roda Viva”, 3º lugar no III Festival de Música Popular Brasileira, 1967 (Divulgação)

Back to the sixties: Chico Buarque e o MPB-4 no Teatro Record, São Paulo, 1967 (Reprodução)

Já pelo final do documentário, Chico confessa que depois dos traumas que sofreu vendo a si mesmo “interpretando” no cinema, chegou à conclusão de que nunca passou de um grande “canastrão”, até por que não consegue ser outra pessoa, a não se ele mesmo, Chico Buarque. Entretanto, após os 110 minutos de projeção de “Chico-Artista brasileiro” chegamos à conclusão de que não é bem assim: ele pode ser um divertido entertainer quando mostra que tudo na vida muda e “vai passar”.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Serviço:

Confira as salas e os horários da seleção abaixo através do site www.festivaldorio.com.br

Chico-Artista brasileiro”, de Miguel Faria Jr. Brasil, 2015. Primeira e única exibição aberta ao público, hoje, 02/10, 19h15, no Odeon.

Allende meu avô Allende” (Allende mi abuelo Allende), de Marcia Tambutti Allende. Chile/México, 2015.

André Midani-Do vinil ao download”, de Andrucha Waddington e Mini Kerti. Brasil, 2015.

Betinho-A esperança equilibrista”, de Victor Lopes. Brasil, 2015.

Fassbinder-O amor sem cobranças” (Fassbinder-Lieben ohne zu Fordern), de Christian Braad Thomsen. Dinamarca, 2015.

James Brown: Mr. Dynamite” (Mr. Dynamite: the rise of James Brown), de Alex Gibney. Estados Unidos, 2014.

Janis Joplin: little girl blue” (Janis: little girl blue), de Amy Berg. Estados Unidos, 2015.

Lygia Clark em Nova York”, de Daniela Thomas. Brasil, 2014.

Malala” (He named me Malala), de Davis Guggenheim. Estados Unidos, 2015.

Mario Wallace Simonsen, entre a memória e a história”, de Ricardo Pinto e Silva. Brasil, 2015.

Orson Welles, autópsia de uma lenda” (Orson Welles, autopsie d’une légende) de Elisabeth Kapnist. França, 2015.

Nise-O coração da loucura” de Roberto Berliner. Brasil, 2015.

O mago: vida e obra de Orson Welles” (Magician: the astonishing life and work of Orson Welles), de Chuck Workman. Estados Unidos, 2014.

Paco de Lucia, a busca” (Paco de Lucia, la búsqueda), de Francisco Sánchez Varela. Espanha, 2014.

Peggy Guggenheim – Paixão por arte” (Peggy Guggenheim – Art Addict), de Lisa Immordino Vreeland. Estados Unidos/Reino Unido/Itália, 2015.

Steve McQueen: o homem e a velocidade” (Steve McQueen: the man & Le Mans), de Gabriel Clarke. Estados Unidos, 2015.

This is Orson Welles” (Idem), de Marielle Heller. Estados Unidos, 2014.

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