*Por Andrey Costa e Alexandre Schnabl

Na fogueira de vaidades da vida, aditivada pela internet, todo cuidado é pouco. Volta e meia, os deslizes dos famosos viram munição para aquela turma chegada a esturricar corpos alheios ou pendurar pescoço em cordas. Independente da razão ou não, Torquemada perde. Neste final de semana, a polêmica ficou por conta dos fashionistas. Dessa vez, não se tratou de algum designer que tenha cometido um pecadilho ao apresentar uma coleção bad taste na passarela. No festejo do seu meio século de vida, a diretora de estilo da revista Vogue Brasil, Donata Meirelles, optou por traçar aquela rota duvidosa dos endinheirados rumo ao glamour do Brasil colonial, num badalo no Palácio da Aclimação, em Salvador, terra do maridão Nizan Guanaes. Nas imagens, ela aparece numa espécie daqueles troninhos de vime, ladeada por negras em pé, na tradição dos retratos coloniais da antiga elite escravocrata.

Sinhá moça: tipo pintura de Debret, Donata Meirelles posa em meio às baianas, sem se dar conta de que a cena geraria bafafás racistas (Foto: Reprodução)

Bastaram poucos minutos de fotos do bochicho publicadas no Instagram para o desagravo geral da comunidade internáutica, provando que estar numa posição de dianteira numa prestigiada revista de luxo hoje não é blindagem suficiente para quem se expõe além da conta, sem considerar o entorno. Hoje é impossível pintar qualquer quadro sem pensar na moldura. Semioticamente, a aquarela digital de Donata, no estilão do bom e velho Debret, produz mesmo o sentido de quem alegremente recicla, nos tempos atuais, o conteúdo de submissão racial dos negros aos brancos de uma época em que o Novo Regime ainda se afirmava. Sorry, Donata, comeu mosca.

Donata e Debret: qualquer semelhança entre o agito da loura e os quadros do pintor da Missão Francesa pode não ter sido mera coincidência (Fotos: Reprodução)

Realmente, não é descabida a comparação da imagem-emblema do badalo com o contexto escravagista, da senhora de Casa Grande sentada e ladeada pelas escravas da senzala. Está longe de ser associação gratuita ou fruto de mero devaneio de quem procura cabelo em ovo. É mais que óbvio, numa era em que o politicamente correto por vezes se mistura a exageros fundamentalistas de qualquer que seja o credo, minando lampejos de criatividade e tolhindo a sagacidade do livre pensamento, que esse tipo de descuido pode ser fatal. Ingenuidade? Falta de percepção de uma existência regada ao deslumbre? Efeito de algum procedimento cosmético-capilar que induz à letargia mental? Ou respingo da tão falada arrogância da elite brasileira em acreditar que, ao poder tudo, tudo acaba em pizza? Não se sabe, a não ser o fato de que, dessa vez, a pizza veio temperada com o devido dendê da polêmica.

Ainda nos primórdios das mídias sociais, o gênio das agulhas John Galliano foi defenestrado da Dior por comentários de alcova acerca dos judeus, captados por um casal sentado na mesa do lado de um restaurante em Paris. Saiu da bocada com o traseiro entre as pernas e ficou fora do cena até ser contratado, mais recentemente pela Maison Margiella, sem nunca recuperar o velho prestígio. O bafafá rendeu mimimi numa época em que o mimimi ainda se chamava babado.

Após ser fritado por comentários antissemitas, John Galliano reapareceu em 2013 vestido de judeu ortodoxo. Estava longe do enfant gaté de outrora (Foto: Reprodução)

Há pouco mais de um ano, o ator Kevin Spacey perdeu o empregão na Netflix, foi limado da série House of Cards e sua carreira, a despeito do seu imenso talento, foi cozinhada em azeite fumegante até se liquefazer no mais absoluto ostracismo. Deve estar em casa, assistindo pela televisão o Super Bowl, com lata de cerveja na mão e vestindo samba-canção do Garfield.

Cara de tacho: Kevin Spacey foi varrido de Hollywood após vazarem na internet acusações sobre o astro assediar coleguinhas (Foto: Reprodução)

E Anitta, pobrezinha, quase foi queimada em cera de vela ano passado, quando curtiu um post de uma amiga pró-Bolsonaro, durante a campanha presidencial, quando boa parte dos seus fãs é gay. Foi não menos criticada que a grife carioca Maria Filó a qual, cerca de um ano antes lançara uma bela coleção com prints à la Debret que retratavam o dia a dia de mucamas, comparável à clássica abertura de “Escrava Isaura” (1976). Pouco importou a beleza da coleção: a marca acabou triturada no mesmo rodo ACME que o Coiote usava para esmagar o Papa-léguas nos Looney Tunes“, acusada de fazer apologia à escravidão. No caso da label, diga-se de passagem, um exagero digno do talibã por parte de quem se sentiu ofendido, mas, sobretudo, a confirmação de que atualmente bobeou, dançou! Afinal, é claro que em momento algum a equipe de estilo da Maria Filó aventou a hipótese de incensar o Brasil escravagista, e a estampa apenas reproduzia uma ambiência para looks em renda, laisie e babados em branco que evocavam aquela atmosfera do povão nos tempos da vinda do pintor aos trópicos, com o devido distanciamento que só o tempo perite. Sim, é preciso mais que tudo ficar alerta, coisa que passou ao largo da animação de Donata em promover um agito de responsa ao lado dos amigos do peito.

“Fiquei chocada. Não é possível que esse seja o tema de uma campanha. Perguntei para a vendedora se tinha algum sentido naquilo ou se era apenas uma estampa racista. Ela só me disse que era a coleção sobre o Brasil — contou a servidora pública Tâmara Isaac, cliente da Maria Filó, indignada com a escolha da estampa da coleção (à dir.) (Foto: Reprodução)

Hoje o mundo anda pleno de exemplos contundentes de que dormir no ponto significa ter a remela irremediavelmente grudada nos olhos. Às vezes, o burburinho em torno de um imbróglio desses até surge da má interpretação, proposital ou não, daquilo que foi falado. Há quase dois anos, Ney Matogrosso foi crucificado por Johnny Hooker nas mídias sociais quando, ao receber uma importante homenagem, afirmou que “era um artista”, não especificando se era um artista gay ou hétero. Johnny interpretou equivocadamente o discurso como falta de ativismo e saiu disparando seu canhão panzer, sem considerar que, se Ney não peitasse com seu visual andrógino as autoridades durante a ditadura, provavelmente hoje não haveria o segundo.

Pintosíssimo por opção e pelo desejo de romper com paradigmas acerca da sexualidade, Johnny Hooker mirou em Ney Matogrosso e errou de vilão (Foto: Reprodução)

E, no afã da cruzada contra o assédio em Hollywood, a colunista Danuza Leão foi trucidada no universo on-line quando levantou a lebre, no suplemento dominical de O Globo, de que paquera pode ser tomada inadvertidamente por teste do sofá, se a turma embarcar numa vibe xiita. Xingamentos não faltaram (leia mais aqui). Pelo mesmo motivo, Catherine Deneuve e um grupo de intelectuais francesas quase foram arremessadas à Salém do século 17, prontas para serem imoladas em nome da santa fé, ao publicarem um manifesto de alerta na imprensa francesa  questionando se, por trás da bem-intencionada demanda de conter os arroubos do assédio na meca do cinema, não haveria uma onda conservadora de ultra-direita prestes a cercear liberdades individuais.       

Danuza Leão foi atropelada pelo radicalismo on-line nas quatro direções de uma bússola que não perdoa quando os ponteiros do novo comportamento social apontam para pensamentos politicamente incorretos. Mesmo que, no fundo, o que ela tenha querido dizer seja infinitamente diferente daquilo que lhe foi atribuído aos sete ventos (Foto: Reprodução)

Nos casos de Ney, Danuza e La Deneuve, a questão se resume à má-vontade de interpretar as falas, ao impulso imediatista de prontamente responder qualquer coisa sem aprofundamento e ao desejo de aparecer à custa da presença alheia de famosos. Talvez até à falta de estofo para poder compreender de fato aquilo que foi dito. No rega-bofe de Donata, entretanto, o buraco é mais embaixo. Não é apenas a possível intenção de um discurso distorcida, mas a veiculação de uma imagem, com danos que nem a expertise do maior dos semiólogos, um Umberto Eco qualquer, seria capaz de conter. Uma imagem vale mais que mil palavras. E, ainda por cima, produzida num país pródigo de desigualdades e de uma elite medíocre que ainda acredita em crescimento social via exploração alheia.

Natural portanto que a interpretação geral e irrestrita acerca do badalo de Donata seja a de que a loura estava pisando em brasa, brincando de senhora de engenho, pajeada pelas escravas. Para muitos, ficou parecendo que no Brasil o racismo ainda é assunto tratado com desdém. Donata afirmou: “Não se trata disso. Era homenagem ao candomblé, é um trono de pai de santo. Foi sexta-feira (8/1), dia que a turma usa branco. E os trajes das negras não são de mucamas, mas de baianas de festa”. Bom, nos livros de indumentária é possível notar a convergência dos dois looks e saber qual se inspirou em qual, se quem veio primeiro foi o ovo ou a galinha, inclusive. Presta atenção, Donata.

Mam’etu Jitalu mostra a quem se direciona o uso de uma trono de candomblé, com as meninas do Ilê Ayê ao seu redor (Foto: Reprodução)

Levando em conta a displicência que induz a outras percepções, um trono de candomblé confundido com “aquele utilizado pela sinhá” em meio a mulheres negras envergando “roupas confundidas com trajes de mucamas”, vem a pergunta: por que ainda se brinca com questões raciais no Brasil? Será que na Alemanha o povo no Halloween se fantasia de nazista ou de prisioneiro de campo de concentração? Tema da festinha de niver ou não, não seria uma situações como esta o estopim que deixam transparecer que o racismo no Brasil ainda é presente? Pior, não seria racismo velado da pior qualidade, embalado em fantasia fetichista de decorador de ambiente, maquiado  de backdrop gracinha pronto para entreter convidados? Independente da explicação, plausível ou apenas tapa-buraco, a ferida segue aberta.

Personagem emblemático de Chico Anysio, o pai de santo Painho vivia sentado num troninho tipo o de Donata. No seu caso, ele era usado pelo humorista para fazer crítica social, um dos pontos fortes do comediante (Foto: Reprodução)

Na antiga atração da Rede Globo, nos anos 1980, Painho vivia rodeado das moças do candomblé, a quem chamava carinhosamente de cunhãs. A vaidade do santo homem, entretanto, ia mais por algum capricho pessoal que pela fogueira de vaidades baladeira: ao contrário de Donata, ele geralmente entregava os pontos discretamente quando queria tirar uma soneca, ganhar um mimo para encher o estômago, vislumbrava um bonitão que lhe fazia tremer o umbigo… (Foto: Reprodução)

Antes que Donata pudesse replicar, entornou o caldo.  Valeu o ditado “quem bate, esquece, quem apanha, não”. Numa enxurrada de comentários negativos, Donata não teve nenhum paparico dos internautas pela nova primavera; recebeu um turbilhão de críticas que veio na velocidade do tsunami lamacento de Brumadinho. Alguns, quase tão impiedosos quanto o açoite aos escravos.

Em suas redes sociais, Donata tentou minimizar o impacto negativo que causou, perfumou a começão de mosca com rosas brancas em post, quis passar a mensagem de que não se tratava de uma festa temática, que os convidados estavam todos de branco devido à tradição, era uma sexta-feira na Bahia. Foi humilde, pediu desculpas, condizente com a simpatia gracinha que costuma exalar por aí. Porém, já era tarde: como diz a expressão popular, “Agora Inês é morta”.

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Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir.

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Haters soltaram o verbo, indignados abriram a boca. Nem do ferrão da abelha-rainha da moda, Donata Meirelles conseguiu se livrar. A eterna mega ultra editrix das revistas Vogue e Elle Brasil, Regina Guerreiro, sempre atenta a tudo, tratou de empunhar sua pistola blaster megassônica para alfinetar, pelo seu Instagram e Facebook, a escolha inadequada da dondoca dublê de dessituada. Ui!

Até Ivete Sangalo , que participou do agito junto de Caetano Veloso e Preta Gil, demonstrou nas entrelinhas ter se incomodado com a narrativa cênica, se posicionando na festa mesmo: apesar de rasgar aquela seda antes de cantar em homenagem à Donata, Veveta fez um discurso pontuado pela preocupação com o próximo. Seria uma ferroada discreta?

Sem dúvidas uma das publicações mais pertinentes se fez através de Elza Soares, que numa espécie de carta aberta à Donata, reiterou que resistência e luta estarão sempre na pauta.

Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Desde a época…

Publicado por Elza Soares em Domingo, 10 de fevereiro de 2019

Já a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz se pronunciou na rede: “Sinceramente não sei o que está acontecendo conosco! Não se trata de acusar uma pessoa, criar um “bode expiatório” e jogar todas as culpas no colo alheio. Mas alguém me explique o que faz uma diretora de uma famosa revista feminina, a Vogue, dar uma festa de aniversário em Salvador, no dia 8 de fevereiro, em ambiente escravocrata do Brasil colonial? E o que faz uma pessoa se vestir de sinhá, e ficar recebendo os convidados ao lado de duas mucamas? É isso que se chama racismo estrutural! Um racismo tão enraizado que parece invisível. Mas não é. Muito triste esse nosso país que cria essa falsa nostalgia de um passado romântico que jamais existiu. O dia a dia da escravidão foi duro e violento. Não há nada para comemorar ou celebrar. Melhor é refletir e mudar. Todos juntos. (Ps. A diretora da Vogue acaba de pedir perdão. Disse que não era sua intenção mas reconhece o erro)”.

Não é de hoje que a Vogue Brasil tem seu nome envolvido nesse tipo de polêmica, a contragosto ou, pelo menos, sem ter noção daquilo que possa vir a acontecer. No baile de carnaval da revista em 2018, em São Paulo, a influencer Tata Estaniecki, causou péssima impressão ao justificar seu modelito para a festa “Brasil: Divino, Maravilhoso“, “uma homenagem aos escravos”. Tata só se esqueceu, ou não procurou se informar, que a tal homenagem representava máscaras de ferro, grilhões utilizados para punir e torturar aqueles que tentavam fugir das propriedades dos senhores de engenho. Tais  artefatos muitas vezes infeccionavam, causando morte, amputação ou sequelas irreversíveis na vítimas, sem falar na impossibilidade de os escravos se alimentarem, o que inúmeras vezes era a razão da morte por inanição. A animada foliã passou ao largo do glam pretendido, ao menos na possível opinião de gente de carne e osso que teria sucumbido duzentos anos antes a essa atrocidade, servindo de inspiração para o mito da escrava Anastácia.

A ilustração de Étienne Victor Arago de Anástácia, exposta no Rio, na Igreja do Rosário, em 1968, para celebrar os 80 anos da abolição da escravidão no Brasil gerou o culto à escrava tida como santa milagreira (Foto: Reprodução)

Convenhamos, na cabeça da moça, provavelmente oxigenada com aquilo que há de mais moderno em termos de tintura capilar, faltou o essencial: tutano para encontrar uma forma mais apropriada de enaltecer aquilo que há de mais divino e maravilhoso no Brasil, sem precisar apelar para o fetiche pervie-tropicalista daquilo que deveria ficar confinado aos livros e documentários de história ou às obras de ficção que retratam o período, sem precisar encher os bolsos de stylists, aderecistas e beauty artists sem super ego. erço da perpetuação do racismo, intrínseco ou não, em plena globalização e exaltação das diferenças…

Tata Estaniecki acreditava causar ao fazer uma “homenagem aos escravos”. No resultado tão fetichista quanto um número de pole dance executado pro freiras, sua fantasia non sense virou pelo avesso a presença da moça no Baile do Vogue (Foto: Reprodução)

Ainda em 2018, o marido da moça, o youtuber Cocielo, também esteve envolvido com o mesmo tipo de escândalo após internautas trazerem à tona tuítes antigos de conteúdo extremamente racista que lhe geraram um boicote de várias marcas que o patrocinavam, além do repúdio da classe artística e do público. Pelo jeito, esse é o Brasil que oficialmente incensa a diversidade na mídia, mas que vai acabar mesmo ficando conhecido pelo que tem de pior. No última edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro (leia mais aqui), ao serem agraciadas pelo conjunto do elenco, as atrizes do musical “Elza“, que celebra a trajetória de Elza Soares, entoaram em uníssono no palco do Golden Room, no Copacabana Palace, parafraseando o hit da cantora: “A carne mais barata do mercado foi a carne negra”. Pelo andar da carruagem, será?

Perdeu, playboy! Passado branco: tweets racistas de Cocielo viabilizaram o boicote aos patrocínios que o youtuber tinha (Foto: Reprodução)

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